“Caos epistêmico”: jornalista e sociólogo revelam deturpação de teorias em grupos bolsonaristas

O jornalista Flávio Morgado e o sociólogo Eduardo Reis de Mello se infiltraram por dez dias em dois grupos bolsonaristas e trocaram impressões e análises sobre o que lá encontraram

Os Jornalistas Flávio Morgado e Eduardo Reis de Mello, da revista Palavra Solta, se infiltraram, por dez dias, em dois grupos bolsonaristas: Patriotas 2.0, composto por defensores da formação de um partido próprio e do armamento massivo da população; e AntiVacinas BR 2021, grupo inteiramente voltado ao negacionismo científico e propagandista da cloroquina.

Flávio Morgado relata que foram “dez dias intensos, de estômago embrulhado e uma troca profícua com o sociólogo e policial federal Eduardo Reis de Mello que, a convite, assinou a parceria antropológica de incursão nos grupos digitais do universo bolsonarista.

O texto está estruturado entre as trocas de mensagens dos autores onde relatam as suas sensações e análises diante do material encontrado.

“Em um primeiro momento, não existe a possibilidade de não me colocar perante essa experiência. Mesmo com todas as informações referentes aos grupos bolsonaristas e defensores de teorias da conspiração, embora eu, como tantos, tenha atravessado indigesto alguns almoços de família com seus tios reacionários e seu senso comum cada vez mais envenenado de fake news como formadoras de opinião, ainda assim foi assustador o que encontrei nesses três primeiros dias”, escreve Flavio para Eduardo.

“Me assustou o número de integrantes desses grupos, ultrapassam os 10 mil seguidores, e ainda que o debate seja exaustivamente repetitivo (o que inclui perfis que reenviam a mesma informação ao longo de 24 horas), o engajamento é alto se pensarmos sobretudo o gasto de energia que aquilo envolve. É impossível, já adianto, propor qualquer análise política ou debate nesses grupos, não se trata de um projeto economicamente discutido ou mesmo uma pauta ideológica estabelecida por um consenso teórico”, relata, posteriormente, Flavio para Eduardo.

“Eu tenho mergulhado o mais profundamente que posso nisso que começo a chamar de bolhas epistêmicas. Embora eu seja avesso às teorias da conspiração que tendem a simplificar estes mundos paralelos como resultados de uma vontade maligna, é preciso reconhecer que há agentes com significativo poder de manipulação”, responde Eduardo para Flávio.

“É mesmo assustador observar no que as pessoas destes grupos parecem acreditar. Na verdade, eu nem sei se elas acreditam, no sentido tradicional. A jogada ali parece ser muito mais a de desconstruir todas as certezas para articular um mundo possível movido a seus afetos reacionários. É como se alguém mal-intencionado tivesse lido Foucault e Lyotard e feito com eles o que o Olavo de Carvalho faz com o Gramsci: utiliza suas ideias ao mesmo tempo em que as denuncia. Há uma razão cínica por aí”, analisa Eduardo.

Para conferir, na íntegra, o relato da experiência de Flavio e Eduardo nos grupos bolsonaristas, clique aqui.

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Marcelo Hailer

Jornalista (USJ), mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e doutor em Ciências Socais (PUC-SP). Professor convidado do Cogeae/PUC e pesquisador do Núcleo Inanna de Pesquisas sobre Sexualidades, Feminismos, Gêneros e Diferenças (NIP-PUC-SP). É autor do livro “A construção da heternormatividade em personagens gays na televenovela” (Novas Edições Acadêmicas) e um dos autores de “O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente” (AnnaBlume).

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Renato Rovai
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