Cena de Andrea Beltrão na Globo reacende discussão sobre masturbação feminina; pesquisadora explica

A antropóloga Carla Cristina Garcia afirma que a masturbação feminina representa autonomia no desejo da mulher e por isso incomoda tanto

No capítulo desta quarta-feira (25) a novela “Um Lugar ao Sol”, atual produção das 21h, exibiu uma cena em que a personagem Rebeca (Andrea Beltrão) se masturba pensando em Felipe (Gabriel Leone).

Por conta disso, tanto o nome da atriz quanto a questão da masturbação feminina se tornaram um dos assuntos mais comentados nas redes e dividiu opiniões.

Mas, por que a masturbação feminina continua a ser um tabu? Para responder essa questão, conversamos com a antropóloga e pesquisadora sobre sexualidades Carla Cristina Garcia (PUC-SP).

Autora dos livros “Ovelhas na névoa: um estudo sobre as mulheres e a loucura” (Rosa dos Tempos) e “Breve História do Feminismo” (Editora Claridade), entre outros, Carla Garcia afirma que a masturbação ainda é um tabu, mas quando relacionada às mulheres, a situação piora, pois, quando uma mulher se masturba, trata-se da autonomia do desejo feminino.

“A questão é que a gente não consegue falar sobre sexualidade de nenhum jeito. Masturbação é um tema tabu, continua sendo. Em um primeiro momento a masturbação passa a ser um pecado, no segundo momento a ser doença, como descreve o Foucault, e no terceiro momento nem se fala sobre isso”, analisa.

A pesquisadora afirma que o não falar sobre a masturbação faz com ela permaneça no lugar de tabu. “E esse não falar sobre isso coloca a masturbação em um lugar tabu ainda. Como também fala Foucault, esses temas não possuem discurso, a não ser o discurso do pecado, de que se está fazendo uma coisa errada”, pontua.

“E no caso das mulheres isso é ainda pior, porque não se imagina que a sexualidade da mulher seja livre o suficiente para ela poder se masturbar. E mesmo se fosse a masturbação masculina, isso também seria um tabu na novela das 21h”, diz Garcia.

Em seguida, Carla Garcia, que é coordenadora do Inanna, grupo de estudos sobre feminismos e sexualidades da PUC-SP, afirma que a masturbação feminina é transgressora, porque na mentalidade média o prazer da mulher sempre depende de um homem.

“Mas no caso das mulheres parece ainda mais transgressor, já que se supõe que para uma mulher ter algum tipo de prazer sexual ela depende do homem, quando, em qualquer movimento feminista que trate das questões da sexualidade feminina, a masturbação é incentivada como uma maneira das mulheres conhecerem o seu próprio prazer, já que também, isso de se tocar, ou imaginar que o prazer só vem da relação sexual com um homem. Esse é um drama eterno: achar que as mulheres não podem se tocar”, critica.

Além disso, Garcia atenta para o fato de que “Muitas mulheres passam a vida sem se tocar e o seu sexo só é conhecido por seus parceiros, parceiras e o ginecologista. Essa continua sendo uma demanda dos grupos feministas de sexualidade e saúde que as mulheres olhem para a sua vulva, olhem pra sua vagina, se toquem, para conhecer”.

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Orgasmo ao som de Roberto Carlos

Em 2006, a novela “Páginas da Vida”, que sempre apresentava, ao término dos capítulos, relatos de pessoas reais, veiculou o depoimento de Nely da Conceição, uma mulher, à época com 68 anos e revelou ter conhecido o prazer sexual aos 45 anos e que se isso deu durante uma masturbação ao som de Roberto Carlos.

“Esse negócio das pessoas dizerem que têm que gozar junto, que é isso que faz neném, é tudo mentira, porque fiquei sem gozar dos meus 14 aos 45 anos. Pra mim era tudo normal… O homem terminava, e eu também”, inicia Nelly em seu depoimento.

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“Eu colecionava discos do Roberto Carlos e, aos 45 anos, ganhei um LP dele. Botei na vitrola a música Côncavo e Convexo e fui dormir. Quando acordei, estava com a perna suspensa, a calcinha na mão e toda babada. Comentei com as amigas, e elas dissera: ‘você gozou!’. Aí é que vim saber o que era gozo. Moral da história: sou uma mulher de 68 anos, que homem pra mim não faz falta, eu mesma do meu jeito”, finalizou Nelly da Conceição.

“A gente continua parado nesse assunto (masturbação). Houve uma novela (Páginas da Vida), de alguns anos atrás, em apareciam depoimentos de pessoas no final, e uma senhora contou a experiência dela de ter tido o primeiro orgasmo se masturbando ouvindo uma música do Roberto Carlos. Uma senhora negra, de meia idade contou como que foi o primeiro orgasmo dela, que foi ouvindo Côncavo e Convexo do Roberto Carlos se masturbando, e na época o mundo caiu”, lembra Carla Garcia.

Em seguida, a pesquisadora afirma que as reações ainda permanecem as mesmas e faz um paralelo com o beijo gay.

“Eu acho que nós vamos ver as mesmas reações que a gente vê quanto ao beijo gay, que não tem o mesmo nível de reação contrária quando é beijo lésbico: as pessoas não gostam, mas toleram exatamente por isso: a sexualidade feminina não é uma coisa que se debata, já que ela não é autônoma. Então, masturbação demonstra autonomia feminina na procura do seu desejo, e aí o debate pode acontecer”, finaliza Carla Cristina Garcia.

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Marcelo Hailer

Jornalista (USJ), mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e doutor em Ciências Socais (PUC-SP). Professor convidado do Cogeae/PUC e pesquisador do Núcleo Inanna de Pesquisas sobre Sexualidades, Feminismos, Gêneros e Diferenças (NIP-PUC-SP). É autor do livro “A construção da heternormatividade em personagens gays na televenovela” (Novas Edições Acadêmicas) e um dos autores de “O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente” (AnnaBlume).

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