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08 de fevereiro de 2012, 19h05

China: um modelo socio-económico contestado

Qual será o impacto da crise económica sobre a economia chinesa e sobre a massa dos trabalhadores e dos camponeses chineses? Quais foram, até agora, as respostas do governo? Quais são os novos actores independentes presentes no debate e os novos elementos que podem fazer pressão? Qual o significado que terá esta crise sobre os desenvolvimentos políticos e económicos do país?

Para oferecer uma resposta a estas interrogações devemos compreender como a crise evolui e as numerosas contradições que surgem.

A economia do país é ultra-dependente das exportações e dos investimentos. Em 2007, as exportações e os investimentos participaram, respectivamente, com 40,9 e com 19,7% do crescimento do PIB. O declínio da economia dos Estados Unidos e do nível do seu consumo [as despesas de consumo baixaram 3,8% no terceiro trimestre] tornam evidente o carácter insustentável deste modelo de crescimento. Tanto mais que o "boom" de investimentos segue um caminho descendente. Se o governo chinês quer manter o crescimento da economia num nível elevado deveria centrar-se no consumo interno.

Na China, em 2007, o consumo das famílias não significou mais do que 35,5% do PIB. Isto deve-se essencialmente a duas razões. A primeira reside na desigualdade de rendimentos, que atinge níveis extremamente elevados (o coeficiente de Gini – que mede a desigualdade de rendimentos – atinge 0,45 na China [1]). Muitos trabalhadores e camponeses pobres não ganham sequer o suficiente para consumir. O segundo factor deve-se ao desmantelamento do sistema de bem-estar (segurança social): mesmo as pessoas que dispõem de dinheiro suficiente estão constrangidas a poupar para assegurar a educação dos filhos e as despesas de saúde da família.

Para mudar o modelo de crescimento, o governo chinês deveria opor-se á desigualdade dos rendimentos, o que implicaria pôr fim às políticas neoliberais aplicadas nas últimas décadas.

Por exemplo, o governo poderia nacionalizar ou re-nacionalizar algumas grandes empresas privadas ou privatizadas, dirigir as despesas públicas para a segurança social e transferir rendimentos a favor dos pobres. São escolhas abertamente avançadas por economistas e figuras públicas de esquerda; opções que atraem a atenção dos média e da sociedade e que suscitam debate.

Não é difícil compreender que alguns se opõem a essa perspectiva, invocando problemas ligados ao défice orçamentário e à falta de recursos para a educação, a saúde e as pensões de reforma. Mas estas opções recebem também o apoio de bastante gente.

Estas medidas enfrentam desafios sérios. A oposição mais forte vem dos grupos que se beneficiaram do actual modelo de crescimento. Os capitalistas – quer nacionais, quer estrangeiros – opõem-se a uma política de nacionalização para defender a sua propriedade, o seu controlo dos meios de produção e a distribuição dos lucros. Aqueles que enriqueceram com a privatização da saúde, da escola e do sector de construção imobiliária farão tudo para defender o excedente de que se apropriam. A questão mais séria reside no facto dos beneficiários do actual modelo controlaremm a maior parte dos recursos políticos, económicos e culturais e influenciarem enormemente a elaboração e a aplicação das leis e da política.

As escolhas mais recentes do governo reflectem o choque entre estes grupos de poder e as reivindicações da maioria da população. Os problemas e as contradições em desenvolvimento na sociedade chinesa suscitam numerosos conflitos, protestos e confrontos. Camponeses, operários, motoristas de táxi estão na origem de milhares de "incidentes de massa", como são chamados oficialmente. Lutas dispersas e não coordenadas obtiveram apenas sucessos parciais. Com a evolução das reivindicações e das formas de luta, é razoável esperar que o nível de organização melhore.

O governo chinês anunciou um plano de relançamento de 4 biliões de renminbi, afim de impedir uma implosão do crescimento. Mais de metade deste dinheiro será investido em grandes projectos de infra-estrutura, como no passado. Estes novos projectos vão fazer crescer a riqueza das novas elites, enriquecendo ainda mais aqueles que já são ricos. É possível que a taxa de crescimento aumente ainda mais, mas isso não poderá perdurar. Dizendo de outra forma, este plano insere-se nas linhas de força do antigo modelo.

O resto das somas envolvidas deverá ser gasto nas zonas rurais, no sistema de saúde, nas pensões de reforma, na habitação para os mais pobres, etc. O que corresponde às reivindicações da população. Todavia, estas opções não são suficientemente fortes para conduzir a uma mudança do modelo no sentido acima mencionado.

Afim de efectuar as mudanças requeridas a favor de um modelo de crescimento económico durável, os grupos de interesse mencionados precisam ser contrariados – ou mesmo derrotados – no plano político.
A actual crise global é o subproduto de uma ideologia. Ora, o modelo do "bom" capitalismo colocado em prática pelos Estados Unidos fracassou. Os "chineses comuns" têm hoje muito mais dúvidas sobre o capitalismo. Entre as gerações mais jovens, aquelas e aqueles que começam a interrogar-se sobre a "economia de mercado" são cada vez mais numerosos e começam a deslocar-se à esquerda. Isto vê-se quando se visita, na Internet, os fóruns nos quais as privatizações são criticadas abertamente, assim como a liberalização-privatização da educação, do sistema de saúde ou mesmo as especulações imobiliárias, tal como a degradação ambiental, etc.

Quanto mais a crise vai se exacerbar, mais se opera uma junção entre os intelectuais de esquerda e os trabalhadores. Um movimento mais unido e mais organizado poderá surgir e isso representaria uma verdadeira mudança na situação política da China.

Lee Lin é o pseudónimo de um professor chinês de economia da Universidade de Pequim.

Tradução de Elídio Marques para o sítio Barlavento a partir da versão em francês publicada por À l‘encontre no dia 24 de Dezembro.

Nota do texto:

[1] Este coeficiente mede a desigualdade de rendimentos num país. O número "0" representa uma igualdade perfeita (todos os rendimentos iguais), enquanto o número "1" representa a desigualdade absoluta (uma só pessoa com todos os rendimentos e os demais sem nenhum).

Publicado no site Esquerda.net.


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