sábado, 31 out 2020
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Cinco perguntas em conversa imaginária com meu aluno reacionário preferido

Valerio Arcary, em sua coluna na Fórum, responde a perguntas imaginárias sobre a divisão de classes, a esquerda e a luta social e política; confira

1.      Professor, a divisão que importa na sociedade não é aquela entre ricos, pobres e classe média. Importante mesmo é a divisão é entre as pessoas de bem e os de mau caráter.

Meu caro, é verdade que tem gente honesta ou desonesta, íntegra ou torta, digna ou desleal. Tem gente que não presta. A idealização de um mundo em que todos são bacanas é infantil. Ser de esquerda não é pensar que as pessoas são todas formidáveis. Não são. As pessoas respondem a estímulos. O comportamento é condicionado por interesses, não somente por valores ou ideias. Vivemos em uma sociedade que premia o egoísmo e a desconfiança, a cobiça e a suspeição. Não devermos ter ilusões. Pessoas ruins estão presentes em todas as classes sociais. Da mesma forma, individualmente, há gente boa em todas as classes sociais. Mas não é isso que explica como funciona a sociedade. A luta moral é muito importante. Mas não é possível mudar o Brasil somente unindo as pessoas de bem.  

2.      Mas professor, a desigualdade sempre existiu. Eu não sou rico, e não é minha culpa. A luta contra a desigualdade social premiaria a mediocridade, sacrificaria o talento, estimularia a preguiça. A igualdade social é impossível. 

Meu caro, o Brasil não está fraturado entre ricos e pobres porque alguns poucos são mais capazes. Não é porque alguns são mais corajosos e inteligentes, mais perseverantes ou ativos que há desigualdade. A imensa maioria dos ricos receberam heranças materiais e culturais, e já tinham imensa vantagem comparativa na luta pela vida. Ser de esquerda não é defender que as pessoas têm capacidades iguais. Não têm, porque o que prevalece na condição humana é a diversidade. Temos habilidades variadas que se complementam e se compensam. Isso é enriquecedor. As diferenças sociais que fragmentam a sociedade em classes não repousam nas diferentes capacidades dos indivíduos. Os talentos estão distribuídos em todas as classes sociais. Mas como os filhos da maioria do povo têm menos oportunidades, milhares e milhares de jovens com aptidões excepcionais têm os destinos de suas vidas, tragicamente, sacrificadas. A aposta socialista é que uma sociedade socialista permitiria o pleno desenvolvimento das capacidades de todos. Nosso coletivismo se inspira na solidariedade para favorecer a autonomia dos indivíduos, não a sua anulação. Mas não é verdade que a desigualdade sempre existiu. A desigualdade não é natural. Ao contrário a desigualdade social é, relativamente, recente, se pensarmos a história da humanidade com perspectiva. Tem alguns milhares de anos, é verdade, mas a história da humanidade nos remete a centenas de milhares de anos. Tudo se transforma. É possível.

3.      Mas, professor, o socialismo seria a tirania da chatice, da caretice e, no limite, a destruição da liberdadePorque ao promover a igualdade social sacrificaria a liberdade, o progresso e a prosperidade. Socialismo seria uma distopia monstruosa. Esquerda quer impor uma ditadura.

Meu caro, quero você considere duas ideias. Primeiro, a liberdade de cada um termina onde começa a liberdade dos outros. Todos os direitos são limitados por outros direitos. Direitos absolutos sem regulação são tirania. Não é possível a vida a sociedade se houver direitos incondicionais. O direito à liberdade não é contraditório com o direito à igualdade. Não há liberdade entre desiguais. Se alguém controla muita riqueza tem mais poder. Reacionários defendem que liberdade e igualdade são valores incompatíveis. Ou uma, ou outra. Porque o direito à liberdade seria o direito de lutar pelo enriquecimento, a propriedade privada, a herança. São entusiastas furiosos da ambição e da avareza, são devorados pela fantasia da avidez: de sucesso, de fortuna, de glória, de poder. Estão convencidos que a luta pela igualdade social seria incompatível com a busca da felicidade pessoal.

Nós respondemos que a luta pela felicidade pessoal é justa. Mas deve haver limites. Ninguém pode ser feliz sozinho. Ambição sem limites degenera em ganância, em abuso, em transgressão sobre os direitos dos outros. Todos temos desejos e isso é legítimo. Não é admissível, contudo, que a felicidade de um seja feita ao custo do martírio de muitos. Não é aceitável que a liberdade incondicional de poucos legitime a tirania da maioria. Segundo, quem deu golpe e manteve uma ditadura no Brasil por vinte anos foi a direita, não a esquerda. E voltou ao golpe em 2016, agora sem colocar os tanques nas ruas, mas sem o golpe não teria sido possível a eleição de Bolsonaro. 

4.      Professor, os ricos não precisam roubar. Esquerda é corrupta porque representa os pobres. E não há riqueza suficiente para uma vida boa para todos. Não é possível.

Meu caro, não se engane. Ricos podem ser, também, corruptos. Tem gente corrupta na esquerda e na direita. É, portanto, mais complicado. O que fundamenta uma visão de esquerda é a defesa de que as necessidades humanas mais intensas são iguais. No estágio de desenvolvimento histórico em que vivemos não há mais razão alguma para que haja tanta gente condenada à miséria. Não há razão alguma para que não haja oportunidades para todos.

Ser de esquerda significa defender que todas as pessoas devem ter direitos e deveres iguais.  Portanto, para a esquerda igualdade e liberdade são valores indivisíveis. Quanto maior for a igualdade, maior será a liberdade, e vice versa. Só seremos livres, quando todos forem, igualmente, livres. Poder e dinheiro é que são indivisíveis. Quando alguns poucos, ou 1%, controlam a riqueza controlam, também, o poder. Tanta riqueza nas mãos de tão poucos não se explica pelo merecimento, aptidão, valor ou mérito, mas pela exploração da maioria. A desigualdade social não é o motor de progresso, de inovação, de prosperidade. A ideia de que as pessoas não estariam dispostas a fazer nada, se não tivessem apavoradas pelo medo da miséria ou da repressão não tem fundamento histórico algum. As maiores mentes da história não criaram as suas obras para enriquecer. O dinheiro não é o único estímulo. Há outros incentivos, impulsos, inspirações que animam a mente e o coração das pessoas. A competição desumana, a insegurança generalizada, a injustiça absurda ameaçam a vida civilizada e são as sementes da guerra.

 5. Professor, não é possível mudar o mundo. A maioria das pessoas é, incorrigivelmente, egoísta, calculista, e conflitiva. As antipatias, as invejas, os rancores, e até os ódios dilaceram as relações humanas Cada um deve se preocupar com os seus interesses. Esquerda é bagunça, desordem, briga. Socialismo deu errado no mundo inteiro. Esquerda não está preparada. O Estado deve se dedicar a preservar a ordem.

Caríssimo, você não está errado, a condição humana não é, naturalmente, altruísta, gentil, solidária. Mas a ideia que condiciona a mudança da sociedade à mudança prévia da humanidade é falsa e perigosa. É possível mudar o mundo, e nos transformarmos, ao mesmo tempo. Nós somos plásticos. Isso quer dizer que nos adaptamos, nos ajustamos, nos transformamos. Se encorajados a ser cruéis podemos agir com maldade. Se encorajados a agir com grandeza podemos ser bondosos. A “naturalização” dos conflitos humanos como uma fatalidade nunca foi inocente. O que é natural não pode ser alterado, ou só se modifica em uma escala tão lenta que estaria além das dimensões possíveis da política.

São as relações sociais que determinam quais são os estímulos materiais, morais, e culturais dominantes. Quando os estímulos favorecem a fraternidade, a imensa maioria das pessoas age de forma decente. Não há padrões de comportamento social humano rígido. A humanidade reinventou a si própria, permanentemente, por meio do trabalho e da cultura. A natureza humana é um processo ininterrupto de transformações adaptativas. Não há por que romantizar a natureza humana. Sim, seres humanos podem agir de forma monstruosa. Mas, a educação pode transformar, individualmente, as pessoas para melhor. E a luta política pode, também, transformar, socialmente, o mundo.   

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum

Valerio Arcary
Valerio Arcary
É professor titular do IFSP. Doutor em história pela USP, estudou na Universidade de Paris e Lisboa entre 1974/78, participou da revolução portuguesa, voltou ao Brasil e se uniu à Convergência Socialista, esteve presente na reconstrução da UNE em Salvador em 1979, na fundação do PT em 1980 e da CUT em 1983, sendo secretário-geral da CUT/São Paulo entre 1985/86. Atuou na Apeoesp entre 1983/90, foi membro da Executiva Nacional do PT entre 1989/92, e foi presidente nacional do PSTU entre 1993/98 e, desde 2016 é membro da Coordenação Nacional do MAIS/PSOL. É autor de O martelo da história, entre outros livros.