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07 de junho de 2015, 13h04

Cuba: puedo hacer una pequeña observación?

Incrível o país em que a atividade física é tão disseminada — nas escolas e equipamentos públicos — que as seleções internacionais são compostas por gente do povo. Esporte lá não é privilégio dos que podem pagar academia ou personal trainer

Incrível o país em que a atividade física é tão disseminada — nas escolas e equipamentos públicos — que as seleções internacionais são compostas por gente do povo. Esporte lá não é privilégio dos que podem pagar academia ou personal trainer

Por Gilberto Maringoni, no Opera Mundi

Estive duas vezes em Cuba, em 2002 e 2005.

Nas duas, tive o privilégio de participar de eventos com a presença ativa de Fidel Castro. Foram seminários sobre a Alca (Área de Livre Comércio das Américas) e o combate ao terrorismo. O dirigente cubano, presente nos três dias de cada reunião, estava em seus melhores dias. Extremamente informal, intervinha, aparteava oradores e lançava provocações e ideias, com um senso de humor imbatível.

Eu, um zé mané, não era convidado exclusivo. Nas duas oportunidades havia mais de trezentos ativistas de todas as Américas.

Assistir ao líder revolucionário falar ao vivo é emoção comparável — imagino eu — a ter presenciado uma apresentação de Billie Holliday ou de ver o Botafogo com Garrincha no gramado.

Mas não foi isso que mais me emocionou nas visitas à Ilha.

O que me surpreendeu foi um episódio que tinha tudo para ser corriqueiro.

Nos dias dos encontros, para não perder o costume, eu me paramentava com camiseta, shorts e tênis apropriado e corria alguns quilômetros. Depois dava umas braçadas na piscina do hotel, tomava café, banho, e às 7h30 estava a postos no auditório do hotel Palco, onde se realizam as reuniões e congressos do PC Cubano.

Das 5h30 até às 8h00, Havana é tomada por magotes de homens e mulheres que saem de suas casas e vão para o trabalho. O trajeto é feito de ônibus, jardineiras, caminhões, motos, bicicletas e alguns carros. Eu acelerava o passo no meio de centenas de pessoas que iam, dia a dia, defender seu pão.

Numa das manhãs, correndo na beira do asfalto de uma avenida, senti uma mão bater forte em meu ombro.

Compañero, disse a voz grossa.

Pensei “pronto, vai me pedir dólares ou algun regalo”. Puro preconceito classe média brasileira, mesmo se achando o ó do borogodó da esquerda.

Si”, parei e respondi, esperando a peroração.

Muito afável, o homem, ao redor dos quarenta anos, com um pacote nas mãos, bigode e cara simpática, me disse:

Desculpe, puedo hacer uma pequeña observación?

Pasmo, respondi que sim, claro.

Ele disse que eu estava correndo de maneira incorreta, que pisava com a ponta do pé e depois assentava a planta, jogando o impacto da passada no ponto mais vulnerável e que isso deveria me causar problemas na coluna, se é que já não me causava. Em seguida apontou para o próprio pé e mostrou como eu deveria pisar para, mesmo com o tênis, reduzir o impacto com o chão. Fez recomendações sobre o tipo de solado necessário e que eu deveria regular a velocidade assim e assado.

Minha pasmaceira aumentou. Entendo de natação, mas corro como curioso. No fim das recomendações, perguntei como ele sabia disso tudo. A resposta me fez encolher.

Ele contou ter integrado a equipe cubana de atletismo em três olimpíadas, Moscou (1980) e Barcelona (1992) e de quatro Jogos Panamericanos. Em seguida, pediu desculpas novamente e seguiu para o trabalho.

Fiquei tão estupefato que não perguntei seu nome.

Um atleta de nível internacional gastara seu tempo para me dar instruções. Quase não consegui me concentrar mais na corrida.

Os céticos dirão: está vendo como Cuba relega seus campeões à pobreza, fazendo-os trabalhar!

O caso mostra o oposto. Incrível o país em que a atividade física é tão disseminada — nas escolas e equipamentos públicos — que as seleções internacionais são compostas por gente do povo. Esporte lá não é privilégio dos que podem pagar academia ou personal trainer.

Cuba é realmente o máximo!


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