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14 de outubro de 2016, 15h17

Das periferias à maioria (a derrubada da quarta parede)

“Como em poucos momentos na História a luta política assume caráter tão didático, cabe aproveitá-lo. A PEC 241 é uma versão mais que explícita do programa político do golpe e do cenário da disputa política. É um escancarar da principal contradição da luta política neste novo ciclo: uma elite financeira (e suas subsidiárias) – uma ínfima minoria – se apropria desavergonhadamente do Estado e lança ao sacrifício a maioria dos brasileiros”

Por Débora Medeiros e Luiz Henrique Dias*

As cortinas ainda estão abertas.

E assim permanecerão. No palco da luta política, o espetáculo nunca termina. Não há fim da história: as peças sucedem uma à outra, sem intervalos. E mais: o palco é aberto. A plateia entra em cena quando quiser.

Pois bem. A peça do momento é dirigida pelo campo conservador, que já mostrou a que veio. Veio para fazer grande política, e tem feito com estilo: flexibilidade na tática, coalizões variadas, clareza na estratégia. Primeiro ato, a tomada do poder: golpe parlamentar consumado. Segundo ato, a legitimação no poder: vitória nas urnas.

Passemos, então, ao terceiro ato, ponto da peça em que estamos: a implementação do programa estratégico. O primeiro passo, tirar a Petrobrás do jogo geopolítico do petróleo, caminha muito bem, obrigado. Mas a tática, aqui, é de guerra relâmpago. E o campo conservador já inicia o segundo passo: o desmonte do Estado brasileiro, cuja caricatura é a PEC 241.

Como em poucos momentos na História a luta política assume caráter tão didático, cabe aproveitá-lo. A PEC 241 é uma versão mais que explícita do programa político do golpe e do cenário da disputa política. É um escancarar da principal contradição da luta política neste novo ciclo: uma elite financeira (e suas subsidiárias) – uma ínfima minoria – se apropria desavergonhadamente do Estado e lança ao sacrifício a maioria dos brasileiros.

Em termos econômicos, é um projeto de controle do déficit orçamentário do governo, cuja maior causa é despesa com juros da dívida, por meio do congelamento dos gastos primários (o investimento Estado em infraestrutura, saúde, assistência social, etc). Projeto que será, acrescente-se, implementado a seco: sem reforma tributária progressiva para aumentar as receitas, sem redução da taxa de juros, nada.

É a minoria que “quebra a banca” e continua a ganhar como se nada tivesse acontecido, enquanto a maioria paga a conta. A conta inteira, e que é maior do que parece: com o crescimento da população nos próximos vinte anos, o “congelamento” se transformará em redução do investimento per capita do Estado em áreas estratégicas.

Visto de outro ângulo, o cenário não muda. O projeto é igualmente assustador em sua tradução política: a PEC 241 representa o esvaziamento do papel do Estado brasileiro como indutor do desenvolvimento (qualquer que seja a definição adotada para o termo) e como promotor de bem estar social. Esvaziamento completo, já que estamos diante da versão radicalizada do campo conservador.

Acontece que nada na luta política é livre de contradições. Para implementar um programa estratégico ostensivamente antipopular, é necessário fazê-lo rapidamente. E isso tem implicações: o campo conservador lançou-se numa guerra relâmpago, sem trincheiras, aberta aos olhos de quem queira ver.

Está escancarado, agora, qual é o terreno da luta política – a disputa da estrutura econômica do país. Da mesma forma, não há como tergiversar sobre quem é o protagonista em cena – o consórcio da elite financeira e sua minoria. Em consequência, não há, também, dificuldade em definir o antagonista. Ele é, necessariamente, a maioria.

A questão, agora, é que a maioria ainda está na plateia, e nem sequer ensaia entrar em cena. Foram anos a fio de desconstrução da política – da grande política – como arena insubstituível da transformação da sociedade. No caminho entre o “faça sua parte” e a substituição da distribuição da riqueza por políticas compensatórias, foi erguida a quarta parede. A parede ideológica que faz com que a plateia acredite que assiste passivamente ao espetáculo. Não será fácil derruba-la.

O que a disputa do projeto estratégico para o Brasil pede, no momento, é um afrouxamento, embora não o fim, da identificação política com particularidades. O sujeito político antagonista, agora, é necessariamente amplo. É a periferia, ou melhor, as periferias do projeto de Brasil para a minoria. Os mais de 99%.  Periferias que tem origem em níveis distintos de opressão e espoliação, mas que precisam mover-se em bloco para que seu movimento não seja inócuo.

É preciso, mais do que nunca, que o campo progressista volte a ser virulento, a ser uma ameaça real ao projeto político do campo conservador. É preciso que as classes oprimidas transformem-se em classes perigosas, surgindo no cenário como antagonista viável. É urgente forjar, a partir de periferias heterogêneas, uma maioria. A maioria que se levanta como resistência.

A tarefa, sem dúvida, é árdua.

Mas que se tenha em mente: no palco da História, a guerra relâmpago não triunfa quando a resistência é prolongada.

*Débora Medeiros é médica e Luiz Henrique Dias é professor.  Ambos fazem parte da coordenação do Projeto A São Paulo que Queremos


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