O que o brasileiro pensa?
19 de abril de 2012, 23h52

Desempacotando minha biblioteca

Fonte: http://naogostodeplagio.blogspot.com/

Como sabe quem gosta de livros e é ou já foi expatriado – ou simplesmente manteve duas residências –, é dilacerante ter a biblioteca esparramada por mais de um lugar. Os livros sempre se rebelam contra essa situação, de tal forma que, para o sujeito que se encontra separado de uma parte de sua coleção, a experiência da leitura passa a ser, com frequência, a evocação do livro ausente.

Pois bem, é um momento de festa por aqui porque, finalmente, eu me reuni de novo com duas enormes estantes de livros que ainda estavam em Belo Horizonte. A decisão sobre quais livros deixar onde sempre foi meio arbitrária, mas eu mantinha, por exemplo, uma coleção de poesia em BH, pela lógica de que meus períodos por lá sempre são cheios de obrigações e menos propensos a leituras que exigem continuidade. Mas a coisa nunca foi organizada o suficiente para que eu tivesse certeza de onde estavam todos os livros, e a inevitabilidade que eu descrevia no primeiro parágrafo foi uma constante companheira nestes anos: lembrar que está em New Orleans o livro de que eu preciso em Belo Horizonte, lembrar que está em Minas o livro que desejo agora e aqui, na foz do Mississippi.

Minha biblioteca nem é tão grande assim – deve andar pelos 4.500 volumes –, mas ela é bem construída, creio. A neura escorpiana, com seu gosto pela totalidade, sempre me fez privilegiar edições de Obras Completas em um ou poucos volumes. Só possuo um volume de Shakespeare, mas ali está tudo o que é atribuído a ele. Sou colecionador voraz das edições da Aguilar, com a poesia ou prosa completa ou quase completa de vários clássicos brasileiros e estrangeiros: sempre li Drummond, Bandeira, Fernando Pessoa, Vinicius nessas edições. Esta semana, ao chegarem as caixas, me dei conta de que passei quase uma década exilado de Murilo Mendes, agora devidamente devolvido à prateleira que fica ao lado da minha mesa, onde reúno a poesia de leitura cotidiana (não me considero bom analista de poesia e jamais publiquei um estudo acadêmico sobre o gênero, mas ele é o único que leio diariamente).

Reunir uma biblioteca esparramada, sabe-o quem já viveu isso, implica sempre descobrir que se possui um livro do qual não se tinha notícia. Na medida em que eu ia abrindo as caixas, apareciam insólitos volumes desconhecidos: por exemplo, uma coisa intitulada Um mineiro entre os ianques, publicado por Carlos X. D’Alcântara, em edição de autor, no ano de 1959. Folheio o livro. Misturam-se genuínas sacadas etnográficas, repetições de clichês do senso comum, saborosos relatos de viagens e malentendidos típicos desse já centenário gênero do culturalismo comparado que opõe o Brasil aos EUA, no qual, invariavelmente, o autor malentende muito mais o seu próprio país do que aquele que visita.

Despencam de uma das caixas alguns livros em francês, e me pego pensando em como é hoje longínqua a minha relação com essa língua, a primeira que estudei. Retenho nas mãos o enorme volume das Illusions perdues, de Balzac, entre a memória do prazer tido com ele há mais de vinte anos e a absoluta certeza de que jamais o voltarei a ler. Tropeço num parágrafo que me causa problemas de compreensão por alguns segundos, e que outrora eu teria lido com a facilidade com que acompanho uma frase de Graciliano. Penso em como é traiçoeiro e ingrato o estudo das línguas.

Fonte: http://www.ayrtonmarcondes.com.br

Retiro de outra caixa algumas das joias mais amadas: minha coleção de traduções do livro dos livros, o Ulisses de Joyce. Separo as duas versões brasileiras, a de Antonio Houaiss e a de Bernardina da Silveira Pinheiro. Sinto profunda gratidão por essas duas pessoas, que dedicaram anos de suas vidas para que os brasileiros pudessem ler o livro dos livros. Abro ambas no capítulo 13, a hilária paródia joyceana do romance sentimental, e leio na de Houaiss:

Bem longe no oeste o sol se punha e o último fulgor de um mui fugaz dia apegava-se amorosamente ao mar e areal, no garboso promontório velho e querido de Howth a guardar como sempre as águas da baía, às rochas planticobertas ao longo da costa de Sandymount e, enfim mas não menos, à tranquila igreja de onde fluía por vezes na quietude a voz de prece àquela que é na sua pura irradiância sempre um fanal para o coração tempestivolto do homem, Maria, estrela do mar.

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Leio na de Bernardina:

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Bem longe no poente o sol se punha e no último fulgor de todos também o dia evanescente se detinha amorosamente sobre o mar e a praia, sobre o promontório altivo do antigo e querido vilarejo Howth resguardando como sempre as águas da baía, sobre as rochas cobertas de ervas daninhas ao longo da praia de Sandymount e, por último mas não menos importante, sobre a pacata igreja de onde emanava vez por outra no silêncio reinante a voz da oração àquela que em sua pura irradiação é um farol eterno para o homem sacudido por tempestades, Maria, a estrela-do-mar.

 

Penso nessas palavras-valise que inventa Houaiss (tempestivolto, planticobertas) para compostos que, em inglês, soam muito mais naturais. Ao mesmo tempo, penso na vantagem que teve Bernardina, tradutora que pôde trabalhar já com uma versão anteriormente existente. Penso em como faltou a Houaiss, nas cenas de sexo, a ousadia que lhe sobrou com o léxico. Lembro-me de Borges e da alegria da tradução: os brasileiros, ao contrário dos anglófonos, possuem dois Ulisses.

Uma derradeira caixa contém algumas relíquias, velharias, curiosidades. Há uma espantosa coleção de romances russos do realismo socialista traduzidos ao espanhol e editadas em Moscou mesmo. Sholokhov, o mais famoso desses romancistas, foi o único que li. Fico imaginando que não faz muita diferença, pois tendem a ser todos iguais. Dessa caixa ainda sai uma pilha de livros sobre um esporte que se praticou um dia no Brasil, e no qual o país foi muito bom. Esse jogo, do qual já não temos muita memória, era conhecido como futebol.

Os livros se amontoam pelo chão e não sei como vou fazê-los caber no espaço que tenho. Mas seu exílio acabou.

 

 


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