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09 de Maio de 2007, 01h39

Diversidade de produção agrícola é chave de sem-terra para garantir boa alimentação

Maracujá, mandioca, arroz e café são cultivados em um mesmo lote de reforma agrária, o que assegura a segurança alimentar, e consequentemente saúde melhor do que outros trabalhadores, mesmo sem hospitais nem postos de saúde

Maracujá, mandioca, arroz e café são cultivados em um mesmo lote de reforma agrária, o que assegura a segurança alimentar, e consequentemente saúde melhor do que outros trabalhadores, mesmo sem hospitais nem postos de saúde

Por Wellton Máximo, Agência Brasil 

Unaí (MG) – Não há nenhum nutricionista no Acampamento Índio Galdino, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Mesmo sem acesso garantido a políticas públicas, essa população, que vive a 90 quilômetros de Unaí (MG), consegue manter uma alimentação diversificada e saudável, na opinião do biólogo Fernando Ferreira Carneiro, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Fernando Ferreira comparou as condições alimentares dos sem-terra e dos bóias-frias na região de Unaí. Segundo o estudo, tanto nos acampamentos como nos assentamentos rurais que abrigam os membros do MST, a alimentação é melhor que a dos bóias-frias. “Além da quantidade, também é necessário considerar a qualidade da comida”, afirma o especialista da UFMG.

Uma das causas para a alimentação mais saudável está na tomada coletiva de decisões. Membro do MST e um dos moradores do Acampamento Índio Galdino, Sérgio Oliveira Nunes, 28 anos, explica que no acampamento, tudo o que é plantado é discutido.“A intenção é fazer com que a produção seja a mais diversificada possível”, comenta.

Com 142 famílias, o acampamento tem plantações tanto individuais como coletivas, compartilhadas por grupos de dez família. Mesmo nos cultivos individuais, a decisão sobre o que produzir é feita em conjunto. “A gente não pode deixar todo mundo produzir uma só coisa para depois ter de comprar alimentos”, justifica Sérgio.

Segundo os sem-terra, as terras do acampamento já estão desapropriadas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), aguardando apenas a demarcação dos lotes. Mesmo assim, segundo Sérgio, a divisão provisória dos terrenos respeita o meio ambiente e preserva as áreas de nascentes e de veredas, onde o solo é rico em água. “Além de discutir o que produzir, é essencial definir como produzir”, acrescenta o militante.

Produtor de maracujá, mandioca, arroz e café num lote dentro do acampamento, Jerônimo Cândido Virtuoso, 44 anos, sustenta a mulher e os quatro filhos com o trabalho na roça. Apesar de ocupar 20 hectares, ele só produz em quatro hectares para preservar uma área de nascentes. “Tenho de garantir a água não só para mim, como para as plantas e os animais”, ressalta. “Se a terra estivesse nas mãos de um latifundiário, não sei se ele ia fazer o mesmo”, critica.

Sem hospitais e postos de saúde nas proximidades, os sem-terra tratam as doenças com produtos da própria natureza. Conhecido como Zé Raiz, o agricultor José Ferreira Barreto, 57 anos, é considerado o curandeiro da região. Das raízes, folhas e cascas das plantas encontradas no acampamento, ele produz garrafadas e extratos que funcionam como remédios. “Se a gente desmatasse tudo, eu não ia ter como trabalhar e o povo teria que se tratar na cidade”, observa.

Para o pesquisador da UFMG, atividades como a de Zé Raiz são imprescindíveis para manter a qualidade de vida nos acampamentos e assentamentos rurais. “Essa foi a maneira que eles encontraram para preservar o acesso às políticas públicas”, avalia. Segundo ele, isso só é possível por causa do nível de articulação interna dos sem-terra. “Sem essa organização, os bóias-frias encontram ainda mais dificuldades para receberem auxílios do Estado”, lamenta.

(Agência Brasil)


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