Dr. Cloroquina: laboratório de pesquisador francês defensor de tratamento precoce vira foco de contaminação de Covid-19

Denúncia acontece ao mesmo tempo em que biografia retrata ascensão e queda de um dos médicos mais famosos da França

Reportagem publicada pela revista francesa L’Express revelou que o laboratório dirigido por Didier Raoult, que na França é conhecido como o “Dr. Cloroquina” por ser o principal defensor da medicação, se tornou foco de contaminação por coronavírus.

De acordo com a reportagem, um dos membros do instituto precisou ser reanimado, depois de ter usado a hidroxicloroquina. A publicação também denunciou que as reuniões de trabalho aconteciam sem o uso obrigatório da máscara, isso enquanto o vírus se propagava no Institut Hospitalier Universitaire Méditerranée Infection Marseille (IHU), que é dirigido por Didier Raoult.

Além disso, o médico teria desaconselhado a vacinação de um paciente internado e tratado à base de hidroxicloroquina. Outra denúncia é que, mesmo após ser notificado de que tinha tido contato com pessoas contaminadas, ele realizou uma viagem ao Senegal.

A publicação também revelou que houve, pelo menos, seis contaminações no ambiente de trabalho, segundo uma das fontes que atua no instituto dirigido por Raoult.

Ascensão e queda do Dr. Cloroquina

Ao mesmo tempo em que surge a denúncia de contaminação em massa no laboratório do médico, a revista francesa L’Obs publicou nesta semana uma longa reportagem sobre um livro que narra a ascensão e queda de Raoult. No começo da pandemia, ele se tornou uma referência ao divulgar o tratamento precoce com a cloroquina.

Antes de vários estudos atestarem para a ineficácia da medicação, Raoult chegou até a receber visita do presidente francês Emmanuel Macron que, posteriormente, se afastou do médico por conta de sua defesa da cloroquina.

O livro, cujo título é “Raoult, uma loucura francesa”, narra a “carreira de sucesso” que depois passou a dividir a opinião pública e da comunidade científica.

Hoje, todos os artigos de Raoult sobre a cloroquina foram questionados por revisores parceiros e o médico se tornou alvo de uma série de queixas no Conselho da Ordem dos Médicos da França.

No começo da pandemia, Raoult subestimou o potencial de espalhamento do vírus e declarou à época que tinha encontrado o remédio milagroso: a cloroquina. E ainda chegou a afirmar que o “coronavírus seria provavelmente a infecção respiratória mais fácil de ser tratada na história”.

Em um dos trechos da biografia destacados pela revista francesa, os colegas de Raoult afirmam que ele é “um visionário que foi destruído pelo próprio ego e que perdeu as estribeiras quando a glória batia à sua porta”.

Com informações do DCM, Bol e L’Obs

Avatar de Marcelo Hailer

Marcelo Hailer

Jornalista (USJ), mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e doutor em Ciências Socais (PUC-SP). Professor convidado do Cogeae/PUC e pesquisador do Núcleo Inanna de Pesquisas sobre Sexualidades, Feminismos, Gêneros e Diferenças (NIP-PUC-SP). É autor do livro “A construção da heternormatividade em personagens gays na televenovela” (Novas Edições Acadêmicas) e um dos autores de “O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente” (AnnaBlume).