Clara Averbuck

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18 de março de 2020, 14h02

“É como se ela fosse da família”

O pensamento escravocrata da elite brasileira escancarado

Essa não é uma história de ficção. Mas vamos fingir que é. Mesmo que fosse inventada, acontece, acontecia, aconteceu.

A história que venho contar é do passado, em meados dos 80, mas poderia ser hoje. Três filhos, uma mãe, um pai. Ambos trabalhando fora. Babá e empregada, filhos na escola particular. A mãe sempre se orgulhando de “almoçar e jantar” com os filhos – comidinha, claro, que a empregada fez, filhos, claro, levados e buscados da escola pela babá. A Cida. Uma mulher negra, como tantas, criando filhos de uma família branca abastada.

Um dia, Cida casou-se. E se foi. Choraram, todos, pois os laços se criam também em condições de exploração; os filhos eram apegados a ela, ela os tinha banhado, vestido, nutrido de um cuidado que os pais haviam terceirizado. Assim era, assim é: mulheres brancas e homens brancos cuidando da ascenção de suas carreiras, mulheres negras cuidando das crianças brancas e dormindo em quartinhos. Senzalas modernas marcadas na arquitetura do Brasil.

Cida se foi, e, mesmo que “os meninos” já não fossem tão pequenos, outra mulher negra veio em seu lugar. E essa família conta, sempre rindo, que a segunda babá era chamada de… Cida 2. Mas, claro, era como se fosse da família. Cida 2.

O cúmulo da desumanização. Como já escreveu Lélia Gonzalez, mulher negra tem que ter nome e sobrenome para o racismo não colocar o nome que quiser. Cida 2. Não sei o nome dela, eles não sabiam dizer. Cida 2.

Não pude deixar de lembrar dessa história com o caso da atriz Ísis Valverde falando em quarentena com a empregada negra ao fundo. Depois ela explica que a Cláudia, que aparece nos vídeos, é “praticamente família”, não tem pais, filhos e nem é casada e resolveu ficar em quarentena com a família.

Ísis, vem aqui. Não há nada mais sem noção do que chamar uma funcionária de “praticamente família”. Ela vai herdar seus bens? Você já foi na casa dela, conhece as amigas dela? Praticamente família porque trabalha na sua casa? Será que dá pra ter a ideia do quão classista, racista, escravocrata é esse pensamento?

Pior foram os comentários tentando defender. “E se a moça morar lá, já pensaram nisso?”, disse uma. Já. É ainda pior. Traz outra conotação para “ser” da família. Pertencer. Doméstica. Domesticada.

Deixo aqui uma dica de reflexão e leitura: Os Santos, por Leandro Assis e Triscila Oliveira.

Vamos colocar a mãozinha no privilégio? Nem precisa de álcool gel.


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