E depois?

Leia na coluna de Luiz Alves: "Depois dessa pandemia, o que faremos? Já não é hora de nos prepararmos para subversões de procedimentos e superações de ações e pensamentos lineares e simplórios?"

Nada mais desejável em tempos de crise estrutural no interior do/da Antropoceno que o abandono do pensamento linear e, melhor, simplório. Algumas belas montagens astrofísicas da Terra – que vimos nesses dias – em processo de respiração, ao lado de sinais de recuperação do universo natural atestam que a nova era de responsabilização da ação do humano no mundo fez-se crítica e deu uma parada brusca. Uma pandemia. No entanto, já não se sustentam as narrativas idílicas que atestam nossa mudança na direção da solidariedade entre os diferentes do mundo e do respeito à Pachamama sofrida. Boas análises dão sinais de que o turbo-capitalismo tentará se desforrar da parada e lançar mão de todas as suas armas na recuperação do tempo e do capital porventura ou supostamente perdidos.

No entanto, se efetivamente superássemos tais modos de pensar, lineares e simplórios, muitas vezes míticos, as ciências naturais, humanas e sociais, atravessadas pela criação cultural que lhes dá leveza e prazer, sairiam engrandecidas e valorizadas. Então, o novo curso do pensamento social questionaria sobre a razão em recuperar um modo de produção (físico e simbólico) que choca o ciclo antropocênico ainda no seu início, tirando ao ser humano o direito de provar sua sapiência e sua grandeza emotiva e racional.

Nunca foi incomum visibilizar o pensamento idílico e arrebatado acerca dos novos tempos felizes em meio aos infortúnios. Além de tudo, são dignos e justos em face do contrário vivido, que é o círculo da morte e do horror. Mas o arrebatamento individual e comunitário foi curto nos tempos seguintes. Faltaram forças inteligentes para questionar os poderes em sua desforra e sua recuperação da mesma condição anterior às pestes, guerras e endemias. Deste modo, e muito infelizmente, o dia seguinte pode ser pior.

Neste tempo, para exemplificar, se dependermos de figuras como Bolsonaro, Orbán, Duterte, Trump e análogos (horizontal e verticalmente) entraremos em tempos ainda mais indignos que os vividos até dezembro de 2019.

A rigor, muitas vezes o idílio e o arrebatamento também são simplórios e sinalizam o pensamento linear, pois se esse interstício de vida fosse caracterizado por leituras amplas, complexas e justas da vida, caberia questionar se a limpeza dos rios ou dos canais de Veneza, a trégua ao desmatamento, o recolhimento dos aviões e outros veículos poluidores, a menor intoxicação por agrotóxicos e muito e muito mais teria de ocorrer ao custo de tantas mortes e possíveis sequelas. Não, esse movimento esquizofrênico de vida garantida pela morte não é bom sinal para a nova era de nossa responsabilidade antropocênica de cuidar do nosso mundo.

A rigor, todo esse “evangelho”, isto é, as boas novas da natureza durante a pandemia teriam de ser realidade em tempos normais e não excepcionais. Digno e justo é garantir a integridade do planeta dentro de um modo de produção que subverta o anterior. Do mesmo modo, um pensamento que compreenda as diferenças e desigualdades do vasto mundo dentro do cotidiano liberado e não sob quarentena. Ciências e artes entendidas como bem-comum similar à água que bebemos não seriam reclamadas no calor da hora H e sim comporiam políticas públicas costumeiras e criativas.

E se a sociedade global nos trouxer pandemias em intervalos mais curtos? Ficaremos todos loucos no processo de completa desadaptação à crise permanente, talvez ao horror permanente. Nenhuma pesquisa conseguiu trabalhar, efetivamente, o significado da crise contínua, do infortúnio de vida inteira, se é que isso poderia ser chamado de vida. Noutro registro, quais estruturas sociais suportariam tal carga?  Deste modo, o problema está mais em cima, no pensamento e nos processos decisórios, quer para estudiosos e educadores de todas as áreas do conhecimento, quer para os poderes da sociedade democrática e para as lideranças instituídas nas organizações e nas instituições, desde o grupo que se junta para jogar truco, contar estórias ou rezar às corporações intranacionais e órgãos multilaterais.

O/A jovem Antropoceno gritou, assustou-se, reagiu, delirou, gemeu. Provavelmente para provocar que não permitamos similaridades históricas ou mesmo piora de atitudes e decisões da era anterior e da sua própria, completamente indesejáveis e indignas. Mas a nova era nada faz por si. Nem nos salvará. De fato, fazemos nela.

Então, depois dessa pandemia, o que faremos? Já não é hora de nos prepararmos para subversões de procedimentos e superações de ações e pensamentos lineares e simplórios?   

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum

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Luiz Roberto Alves

Professor e Pesquisador Sênior da ECA-USP. Conselheiro Nacional da Educação (CNE) entre 2012 e 2016. Educador na área básica e pública por vinte anos. Tem escrito obras sobre educação, cultura brasileira, comunicação e políticas públicas.

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