“É um crime transfóbico, é uma perseguição política e partidária”, diz covereadora que sofreu atentado

Samara Sosthenes, covereadora do Quilombo Periférico, revelou que a Câmara Municipal de SP não concedeu segurança por ela não ser “vereadora nominal”

Na madrugada do dia 31 de janeiro a covereadora do Quilombo Periférico, Samara Sosthenes, foi às redes sociais denunciar que havia sofrido um atentado na porta de sua casa.

De acordo com relato da parlamentar, um homem em uma moto efetuou um disparo para cima na porta de sua casa, onde vive com a mãe e os irmãos.

O atentado contra a Sosthenes se soma aos realizados contra a vereadora Erika Hilton e Carolina Iara (Bancada Feminista). Há um fator em comum: as três são travestis e eleitas pelo PSOL à Câmara de Vereadores da cidade de São Paulo.

À Fórum, Samara Sosthenes afirma que se trata de um “crime transfóbico”, mas também de “uma perseguição política e partidária”.

Sosthenes também revela que a sua rotina foi alterada e que precisou mudar a sua agenda de trabalho.

Confira a seguir a entrevista na íntegra.   

Revista Fórum – Você, a Erika Hilton e a Iara foram ameaçadas. Como você analisa essa situação?

Samara Sosthenes – Além de ser um crime transfóbico, é também um crime político. É inevitável que a gente não perceba que na semana da visibilidade trans onde a gente teria que levantar as nossas pautas, a gente é atacada dessa forma, principalmente eu e a Iara, que somos pessoas que moram na periferia tivemos a nossa casa atentada à tiros.  Além de ser um crime transfóbico, é uma perseguição política e partidária.

A sua rotina mudou depois do atentado? Segurança, horários etc. Gostaria que você falasse um pouco sobre

Desde quando aconteceu o atentado com a Iara e com a Erika, a minha rotina mudou no sentido de eu ter mais segurança. Na semana do atentado nós, eu, a Iara e a Erika tivemos agenda em comum, visitando casas de acolhida de travestis e transexuais, realizamos muitas lives por ser a semana da visibilidade trans, justamente no dia 29, que foi repleto de lives, um dia pra nos refletirmos sobre o país que mais mata pessoas travestis e transexuais no mundo.

Dois dias após a data da visibilidade trans (29 de janeiro) a gente sofre esse atentado. A minha rotina mudou: eu agora estou exclusa, estou em um local seguro, onde as pessoas não sabem onde eu estou; estou impedida de vir pra Câmara porque eu não tenho a segurança que teria de ser me dada pela própria Câmara dos Vereadores de São Paulo, mas eles alegam que eu não sou uma vereadora nominal.

Estou com a segurança dos movimentos sociais e aguardando de como vai ser o desdobramento dos próximos dias. Estou fazendo as entrevistas, alguns trabalhos em casa, pela internet, como muitas pessoas têm feito por conta da pandemia.

Mas infelizmente, algumas articulações em territórios algumas visitas que eu tinha agendada vou ter de remarcar.

De que maneira você e o Quilombo Periférico pretendem incidir na pauta da Câmara?

Só o fato de a gente ser um mandato coletivo, que traz três pessoas dos movimentos sociais, cada um de um movimento diferente, que tem o seu lastro na periferia, que tem experiência de trabalhar na coletividade, já é uma nova versão para essa Câmara, que é branca, machista, misógina, enfim, que tem todas essas características. A gente para, de fato, fazer uma política diferenciada e de avanço para a cidade.  

No Brasil ainda temos a questão da evasão escolar entre as travestis e transexuais como relato comum. Quais caminhos você acredita serem necessários para reverter esse quadro?

 Eu sou fruto de um programa chamado Transcidadania (criado na gestão Fernando Haddad 2012/16) que me ofereceu educação, sou fruto também dos cursinhos populares que acreditaram em mim. Acreditar que essas pessoas não querem estar nas ruas se prostituindo, mas sim estar em salas de aula, em trabalhos formais é o primeiro passo.

A gente tem 98% das travestis e transexuais ainda trabalhando com prostituição por quê? Por que não tem escolaridade e não tem escolaridade porque são expulsas com 10, 11, 12 anos de idade de casa, logo, essa expulsão também se dá na área escolar, porque se você não tem casa para morar, você também não tem escola para estudar. A gente nem fala que é evasão escolar, mas sim exclusão escolar, nós somos expulsas da área acadêmica e a gente precisa, mais do que nunca, reforçar a ideia de que as travestis têm sim a possibilidade de entrar numa universidade pública para se tornarem corpos trans advogados, professores, médicos, líderes de grandes empresas. Eu acho que esse é o futuro que a gente precisa.  

Na eleição de 2020 tivemos um aumento considerável da eleição de Trans, travestis e mulheres negras, ao mesmo tempo candidaturas de extrema direita avançaram. Como você avalia tal cenário?

Eu avalio como um sucesso, eu também considero que isso foi por conta de muita luta dos movimentos sociais, do movimento negro, estudantil, do movimento de mulheres, essa vitória não é nossa sozinha. Ela vai ao encontro da necessidade de discutir as questões de diversidade na política da cidade.

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Marcelo Hailer

Jornalista (USJ), mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e doutor em Ciências Socais (PUC-SP). Professor convidado do Cogeae/PUC e pesquisador do Núcleo Inanna de Pesquisas sobre Sexualidades, Feminismos, Gêneros e Diferenças (NIP-PUC-SP). É autor do livro “A construção da heternormatividade em personagens gays na televenovela” (Novas Edições Acadêmicas) e um dos autores de “O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente” (AnnaBlume).

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