Eduardo Moreira: Enquanto poucos acionistas faturam bilhões, a população passa fome

O economista atentou para o fato de que, um dia após a ocupação do MTST na B3, mais de R$ 1 bilhão em dividendos e juros sobre capital próprio foi distribuído entre os “poucos acionistas”

Nesta quinta-feira (23) o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) ocupou a Bolsa de Valores na cidade de São Paulo. A manifestação logo repercutiu, porém, e o que demonstra o mundo aparte em que vive a Bolsa de Valores: enquanto era ocupada, as negociações não foram paralisadas.

Para o MTST existem dois Brasil: o da Bolsa de Valores e o dos mais de 50 milhões (IBGE) que vivem na pobreza.

“Aqui é negociada toda a riqueza do Brasil. Aqui são formados os bilionários do sistema financeiro. Aqueles que ficam ricos à custa da nossa pobreza. Aqui descobrimos que existem dois brasis”, declarou o movimento pelas redes.

Além disso, dentro da Bolsa, para o MTST, há “um Brasil dos parasitas do mercado financeiro que vivem do rentismo e o outro em que os trabalhadores sobrevivem com um auxílio emergencial de 5,00 reais por dia.

“Um Brasil em que a bolsa está cheia de valores e um Brasil em que a bolsa da maioria da população está vazia. Um Brasil onde 1% domina a riqueza e os outros 99% vivem das migalhas que caem da mesa. Um brasil em que o maior espetáculo do pobre é comer!”.

À Fórum, o economista Eduardo Moreira revelou total concordância com a ocupação da B3 e também com a crítica feita pelo movimento acerca da concentração de riqueza enquanto milhões de pessoas passam fome.

“Hoje, sexta-feira (23), e é uma coincidência importante, que exemplifica muito isso (a concentração de riqueza nas mãos de poucos): a B3 divulgou a distribuição dividendos e juro sobre capital próprio de mais de R$ 1 bilhão para os seus acionistas, nesse momento em que a população passa fome”, criticou Moreira.

Em seguida ela afirmou que, “se a população passa fome e as maiores empresa do Brasil estão ganhando bilhões e que ficam nas mãos desses poucos acionistas dessas empresas, é claro que tem que se protestar”.

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Aplaudem o Occupy Wall Street, mas criticam o MTST

Autor do livro “Desigualdade e caminhos para uma sociedade mais justa” (2019), Eduardo Moreira destaca o fato de que muita gente que está criticando achava “cool” o Occupy Wall Street.

“No mundo inteiro acontecem esses protestos que simbolicamente acontecem nos centros financeiros dos países, e a gente está falando dos países mais desenvolvidos do mundo e as pessoas acham isso superbacana, ‘cool’, legal. Então, quando acontece lá em Nova York o Occupy Wall Street, e eles ocupam durante uma semana, não é durante algumas horas todo mundo aqui acha legal”, ironiza.

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O economista também explica que atualmente “a Bolsa de Valores não é o lugar onde hoje as pessoas ficam numa roda com papeis nas mãos comprando e vendendo. Não tem mais ninguém fazendo operação ali, hoje as operações são todas eletrônicas. O protesto foi lá porque isso traz um simbolismo importante, mas os negócios nem foram interrompidos. O protesto foi absolutamente pacífico e se um copo de água tivesse caído no chão porque alguém esbarrou e quebrado, iam fazer um auê danado”, analisa.

Por fim, Moreira ironizou a ignorância de parcela dos críticos a ocupação do MTST, que confundiu o movimento de moradia com o MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra), que atua no campo.

“As pessoas estão confundindo MTST com MST, inclusive tentando associar a captação do MST ao protesto do MTST. Lembrando que a captação não foi do MST, foi de cooperativas que são ligadas ao MST, o dinheiro portanto foi da produção agrícola e segundo que são dois movimentos completamente diferentes, o que mostra que as pessoas que criticam sequer sabem quais são os movimentos sociais do Brasil”, critica.

“O protesto de ontem (22) foi feito de uma maneira mais ordeira, mais pacífica possível e mais importante: de uma maneira simbólica, chamando atenção. Apoio totalmente o protesto de ontem”, finaliza Eduardo Moreira.

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Marcelo Hailer

Jornalista (USJ), mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e doutor em Ciências Socais (PUC-SP). Professor convidado do Cogeae/PUC e pesquisador do Núcleo Inanna de Pesquisas sobre Sexualidades, Feminismos, Gêneros e Diferenças (NIP-PUC-SP). É autor do livro “A construção da heternormatividade em personagens gays na televenovela” (Novas Edições Acadêmicas) e um dos autores de “O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente” (AnnaBlume).