Em autobiografia, Obama revela juventude homofóbica e diz ter “vergonha”

O ex-presidente dos EUA afirma no livro que isso mudou quando entrou na faculdade e que os direitos LGBTQ foi um dos temas centrais em sua gestão

O ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, está em turnê para a divulgação de sua autobiografia, “A promised land” (2020) e, entre as várias revelações presentes no livro, Obama conta sobre a sua juventude homofóbica e do quanto isso o envergonha.

“As amizades que fiz e as histórias que ouvi … de pessoas LGBTQ durante a faculdade e meu início de carreira”, escreve o presidente, que também afirma que, antes e chegar na universidade ele tinha uma relação abstrata com as questões LGBT.

“Cresci nos anos 70”, escreve ele, “numa época em que a vida LGBTQ era muito menos visível para quem estava fora da comunidade, de modo que a irmã de Toot [sua avó] (e uma de minhas parentes favoritas), tia Arlene, se sentiu obrigada apresentar sua parceira de 20 anos como ‘minha amiga íntima Marge’ sempre que ela nos visitou no Havaí ”, lembra Obama.

A tia de Obama morreu em 2014 com 87 anos de idade. Seu obituário simplesmente notava que ela deixou a família e sua “amiga Margery Duffey”.

O ex-presidente também analisa que, quando jovem e ao usar xingamentos homofóbicos entre os seus amigos, isso acontecia como uma ferramenta para reforçar a masculinidade e esconder inseguranças.

“E, como muitos adolescentes daquela época, meus amigos e eu às vezes trocávamos palavras como ‘bicha’ ou ‘gay’ uns com os outros como desaprovação casual – tentativas imaturas de fortalecer nossa masculinidade e esconder nossas inseguranças”, revela.

Ele lembra que a imagem sobre as pessoas LGBT mudou quando ingressou na universidade. “Depois que entrei na faculdade e me tornei amigo de colegas estudantes e professores que eram abertamente gays, percebi a discriminação e o ódio explícitos a que estavam sujeitos”, acrescenta ele, “bem como a solidão e a dúvida que os dominantes cultura imposta a eles. Senti vergonha do meu comportamento anterior – e aprendi a fazer melhor”, conta.

Posteriormente, e já na política, Obama conta que a questão LGBT ganhou outra dimensão em sua vida e entendeu que os direitos dessa parcela da população têm relação direta com a consolidação da democracia.

“Juntamente com o aborto, as armas e quase tudo que tenha a ver com raça”, escreve Obama sobre seu tempo no cargo de presidente, “as questões de direitos LGBTQ e imigração ocuparam o centro das atenções nas guerras culturais da América por décadas, em parte porque levantaram questões básicas em nossa democracia – a saber, quem consideramos um verdadeiro membro da família americana, merecedor dos mesmos direitos, respeito e preocupação que esperamos de nós mesmos? ”, analisa.

Por fim, Obama afirma que a dimensão do que é uma família também mudou em sua vida. “Eu acreditava em definir essa família de forma ampla – incluía tanto gays quanto heterossexuais, e incluía famílias de imigrantes que criaram raízes e criaram filhos aqui, mesmo que não tivessem entrado pela porta da frente. Como eu poderia acreditar de outra forma, quando alguns dos mesmos argumentos para sua exclusão foram tantas vezes usados para excluir aqueles que se pareciam comigo?”.

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Marcelo Hailer

Jornalista (USJ), mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e doutor em Ciências Socais (PUC-SP). Professor convidado do Cogeae/PUC e pesquisador do Núcleo Inanna de Pesquisas sobre Sexualidades, Feminismos, Gêneros e Diferenças (NIP-PUC-SP). É autor do livro “A construção da heternormatividade em personagens gays na televenovela” (Novas Edições Acadêmicas) e um dos autores de “O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente” (AnnaBlume).