O que o brasileiro pensa?
15 de junho de 2020, 08h26

Emicida no Faustão: “Abismos sociais são mais letais do que o coronavírus”

Rapper foi entrevistado no programa na TV Globo, onde falou sobre a desigualdade no país, os protestos antirracistas, após o assassinato de George Floyd, e da morte do menino Miguel, no Recife: “por que uma pessoa em pleno gozo das suas faculdades mentais abandona uma criança de 5 anos dentro de um elevador?”

(Foto: Divulgação/Globo)

O rapper Emicida foi entrevistado pelo Faustão neste domingo (14) e denunciou os “abismos sociais que a nossa sociedade produziu”. “”As mudanças que a gente precisa não estão necessariamente ligadas ao corona. A pandemia não é uma escolinha onde a gente está aprendendo como é importante a gente se entender como humano e ajudar todos os outros. A gente está vivendo um paradoxo triste. Por um lado, a gente enfrenta um vírus que se espalha muito rápido, mas que não tem uma letalidade tão grande, agora, o que é extremamente letal são os abismos sociais que a nossa sociedade produziu e finge que não existe. Todas as pessoas estão sujeitas a se contaminar com o Covid-19, mas nem todas as pessoas podem se tratar após se contaminar.”

Segundo Emicida, é emblemático uma empregada doméstica ter sido a primeira vítima por coronavírus no Brasil. A mulher tinha 63 anos e percorria 120 km da casa dela até o trabalho na zona sul do Rio de Janeiro.

“Todas as pessoas estão sujeitas a se contaminar com a Covvid-19, mas nem todas as pessoas podem se tratar após se contaminar. A gente uma situação muito emblemática na realidade do Brasil, que é a primeira vítima de coronavírus foi uma empregada doméstica, que, aparentemente, pegou de sua patroa. Isso é muito simbólico. As pessoas pobres se contaminam mais, tem mais chance de pegar e essa letalidade é amplificada não pelo vírus em si, o vírus não tem uma perseguição cultural atrás de quem é pobre. Mas infelizmente os abismos sociais impossibilitam que as pessoas mais pobres, que muitas vezes também são as pessoas mais pretas a se recuperar dessa doença. Isso é desesperador.”

O caso da morte do menino Miguel, de 5 anos, filho da empregada Mirtes Renata de Souza, abandonado no elevador pela patroa Sarí Corte Real, também foi lembrado. “A gente precisa se perguntar: por que uma pessoa em pleno gozo das suas faculdades mentais abandona uma criança de 5 anos dentro de um elevador? Porque ela não consegue reconhecer nem a humanidade daquela criança e nem a necessidade de cuidado. Ela acha que esse cuidado deve ter com pessoas que se pareçam com ela, esse é o grau de profundidade dessa questão. A nossa realidade, embora a discussão dos Estados Unidos seja válida participar, entender e se solidarizar, acho que a gente tem situações tão ou mais desesperadoras no território brasileiro que precisam fazer com que a gente se levante contra isso.”

Sobre o assassinato de George Floyd pela polícia, nos Estados Unidos, Emicida acredita que a realidade do país é diferente da do norte-americano. “A gente está tratando de contextos diferentes, embora a opressão racial seja muito presente nas duas realidades. A forma superficial como a qual sociedade brasileira lida com o racismo. A gente finge que isso é um problema de lugares como África do Sul ou dos Estados Unidos. O imaginário do brasileiro foi conduzido através de uma reflexão que faz ele acreditar que vive de fato numa democracia racial, quando isso não é verdade. E é por isso quando uma nova geração emerge e traz à tona um discurso de que não, a gente não vive uma democracia racial, a gente vive um estado de desespero, de emergência, que quanto mais escura a cor da sua pele mais perigoso é.”


Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum

#tags