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04 de novembro de 2016, 09h19

“Entrar em um lugar que não cumpre função social porque está abandonado, não é invadir, é ocupar”

O prédio está sob o controle do grupo há cinco anos e possui cerca de 158 famílias em seus 12 andares.

“Para pobre o que sobra é luta, porque ninguém vai bater sua porta oferecendo moradia”, disse a coordenadora do Movimento Moradia Para Todos (MMPT) Welita, no salão social da ocupação Marconi, localizada na rua que leva o mesmo nome no centro de São Paulo. O prédio está sob o controle do grupo há cinco anos e possui cerca de 158 famílias em seus 12 andares

Texto por Laio Rocha e fotos por Leandro Moraes, da Mídia NINJA

A noite gelada do último dia 30 não intimidou os moradores. Diversos movimentos por moradia localizados na região central se preparavam para o “Outubro Vermelho”, onda de ocupações de prédios que chama atenção para o número de imóveis que não cumprem sua função social, em torno de 2 milhões de m², de acordo com dados da prefeitura de São Paulo. Segundo estimativa da urbanista Raquel Rolnik, o déficit habitacional da cidade é de 230 mil moradias.

Sendo assim, há moradia para quem não possui. O que falta é posse.

“Vamo para o arrebento! Vamo para o tudo ou nada!”, gritou Edinalva, líder do MMPT, fazendo a concentração se enervar e subir sangue nos olhos para a batalha próxima. “Essa é a nossa luta!”.

Até então, às 23h, ninguém sabia quais eram os endereços dos imóveis que seriam ocupados. A linha de frente saiu do prédio para estourar os cadeados e verificar se havia seguranças guardando a entrada. As informações davam conta de dois alvos: um pequeno, cujo endereço não foi divulgado, e um grande, na Bela Vista, no qual havia guardas nos andares superiores.

A ação luta contra a Proposta de Emenda Constitucional número 55/2016 (Ex PEC 241/2016), que congela investimentos do governo por 20 anos, e dessa forma, atinge diretamente a construção de moradias populares do programa habitacional Minha Casa Minha Vida.

As ocupações estavam agendadas por todos os movimentos de moradia para às 0h do dia 31. Neste horário, a Frente de Luta Por Moradia (FLM) e o Movimento de Moradia Luta por Justiça (MMLJ) iniciaram sua investida em 12 prédios simultaneamente, nas zonas Leste, Oeste, Norte e Sul.

Sabendo do início das ocupações, o povo no salão da Marconi lotado aguardava ansioso pelas instruções, sabendo do risco de repressão policial.

O ocupante Giovani estava preparado com sacolas lotadas de bolachas, sucos, refrigerantes e bolos. “Da última vez só fui com a roupa do corpo e passei fome porque não podemos sair por 48 horas, mas agora estou com tudo”, disse sorrindo o ex-lutador de jiu jitsu, que afirma já ter lutado com os ídolos do UFC, Anderson Silva e Victor Belfort na juventude.

Pré saída

O clima pré saída causava tensão em muitos, mas não em José, um dos moradores mais antigos da Marconi. Ele chegou lá no início da ocupação, mesmo sem fazer parte do movimento. Com firmeza afirmou: “não tenho medo, meu pensamento é diferente, meu pensamento é de guerra, coragem e liberdade”. Questionado sobre o porquê de ocupar, respondeu: “Essas são as forças do nosso desejo: quem tem sede procura água, quem tem fome, comida, quem não tem casa, moradia”.

Já passava da 1h da manhã e a apreensão crescia pois não chegavam informações sobre o grupo que saiu para arrombar os prédios. O cozinheiro Robson, que mora há apenas 4 meses na ocupação, acompanhava o desenrolar, mas não podia participar pois ia sair para trabalhar em algumas horas. “Como vou explicar no meu trabalho, onde estou há pouco tempo, que não fui trabalhar porque estou ocupando prédio no centro? Seria demitido na hora”, lamentou.

Com o passar do tempo, beirando às 3h da manhã, idosos e crianças foram para seus quartos. Os planos A e B estavam cancelados. Os prédios eram seguros por duas portas, sendo que as fechaduras também eram internas, impossibilitando a entrada. A notícia gerou grande tristeza, mas não desmobilizou o grupo, com cerca de 40 pessoas nesse momento.

“Temos uma opção C, e vamos para ela agora. Vocês vêm?”, nos perguntou Roberto, um dos coordenadores. Descemos todos. A ação finalmente iria começar.

Nas ruas

Duas Kombis brancas estavam estacionadas na rua Marconi. Espremidos, éramos 20 em cada uma, ao som da dupla sertaneja Milionário e Zé Rico, embalando o rádio na madrugada.

O frio apertou. Michele, uma das porta-vozes do grupo nas negociações com a Polícia Militar, esquentava contando as histórias da repressão. Em tentativa recente, no bairro do Bom Retiro, ela tentou conversar, mas a violência não deixou. Bombas, cassetetes, socos e chutes: esse foi o saldo da ação frustrada. “Três dos nossos não conseguiram sair e os policiais amassaram eles. Nesse dia fui levada para a DP, mas troquei ideia com os caras e ficou suave. Até pediram meu whatsapp no final”, conta às gargalhadas.

“Uma PM me disse que a gente estava invadindo o prédio. Eu respondi que invasão é eu ir a casa dela e morar lá, onde já tem alguém. Agora entrar em um lugar que não cumpre função social porque está abandonado, não é invadir, é ocupar”, relatou Michele durante a viagem.

O muro

Aportamos, enfim, no número 320 da rua Dias Leme, na Mooca. O muro amarelo com a propaganda do Boteco Seo Joaquim fechava a única entrada para o prédio semelhante ao cenário de um filme de terror. O lugar não foi escolhido ao acaso, abandonado há pelo menos 10 anos, possui dívidas com a prefeitura e não cumpre função social, apontam os militantes.

Em silêncio aguardamos dois saírem para investigar. Deram o ok. “Rápido, corram!”, chamou em voz baixa o líder da ação Péricles. Uma escada foi colocada no muro e um a um pularam.

Como dizem, quem tem estilo não sai do salto, e esse foi o caso da Amora, transsexual que pulou em seu salto de 10 cm e quase caiu, mas não perdeu a pose. Em sua segunda passagem pelo Marconi, ela pagava aluguel de quase mil reais mensais, mas não pôde se manter porque foi demitida. Cozinheira em um restaurante vegano, se orgulha das mudanças pelas quais passou em seu corpo após o tratamento de hormonioterapia, que é a injeção de hormônio feminino.

“Eu tive uma vida me escondendo”, lembra. Amora diz que nunca sofreu preconceito na ocupação e participou da cozinha comunitária criada no início, mas “se chamar de Ele, comprou uma briga”, avisa sorrindo.

A entrada ligeira no prédio foi precedida pelo susto do estado calamitoso que se encontra. Com um andar térreo, um subsolo, um galpão ao fundo e o primeiro andar, o edifício estava completamente condenado. Sem fiação elétrica ou sistema hidráulico, as rachaduras se espalhavam junto às infiltrações. O galpão estava tomado por pombos, que cobriam com sua merda todo o chão. A assinatura da crew do PCC (Primeiro Comando da Capital), 1533, marcava a parede, avisando quem passou por ali.

Com precaução e lanternas erguidas, os novos ocupantes desbravaram o local, procurando artefatos para segurarem a porta. Pedaços de pau e ferro com 3 ou 4 metros deram conta do recado e a entrada foi lacrada.

Ocupado

O baiano Péricles, ex-professor, orientava a arrumação das camas e pedia silêncio, pois logo ao lado os moradores podiam perceber a presença deles ali e denunciar. Os vizinhos – um estacionamento e uma construção – estavam vazios, o que facilitou no início a ação.

“Essa é minha parcela de contribuição à sociedade contra a especulação imobiliária”, afirma. Há 10 anos no movimento, ele chama atenção para o número de 6 mil famílias cadastradas para entrar em ocupações do MMPT. O número atual de cadastrados na prefeitura de São Paulo é de 126 mil.

“Estamos aqui contra a PEC 241 [agora PEC 55/2016 no Senado]. Realizamos de 15 em 15 dias reuniões para conscientizar as pessoas sobre os danos dela, e vamos promover oficinas nas ocupações para elas entenderem. Essa é nossa ponte para a moradia”, conclui.

Vizinho [P2]

O chão sujo tornou-se cama e em pouco tempo o sol raiou. Junto à ele, as sirenes e viaturas, 3 delas. O dono do estacionamento ao lado fez a denúncia e dava as coordenadas para a invasão da PM.

Agora até mesmo os mais corajosos estavam tensos. É questão de tempo para eles entrarem. A bandeira foi estendida na janela da frente, com o símbolo MMIS (Movimento Moradia e Inclusão Social). A coordenação orientava as negociações e a Michele, porta voz nesses casos, foi dialogar com os militares pela janela, pedindo precaução, pois havia uma criança no local e informando que um advogado chegaria em breve para negociar a saída.

“Vocês têm a escolha de sair. Se não saírem agora, basta uma chamada no rádio e a Tropa de Choque vai entrar e aí já não é com a gente. Quem tiver bom senso pode sair agora. O restante pode esperar para ver no que vai dar”, sentenciou a cabo no momento mais tenso da negociação.

Ocupar  e resistir

Michele então virou para o grupo e perguntou, “alguém quer sair?”, e um alto e vibrante “Não!” ecoou nas estruturas vazias do prédio. A policial feminina olhou para o parceiro que nesse momento estralou os dedos da mão com um olhar penetrante e um sorriso cruel. O terceiro oficial segurava o cassetete e balançava a cabeça em negativa, respondendo o sorriso do companheiro.

Era certa e entrada deles. O temor se alastrou. Camas desfeitas, bolsas arrumadas, grupos reunidos e a espera infinita do advogado.

Já passava das 14h, e há mais de 30 minutos esperávamos o advogado, a última esperança contra a repressão eminente. De repente, o aviso: “eles saíram!”.

O Choque estava por chegar? Eles desistiram? As questões não calavam e o alvoroço só mudou quando o advogado Benedito Barbosa, o Tito, finalmente chegou.

Representante do Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos, ele defende movimentos de moradias há 20 anos, e acalmou os mais exasperados.

“A polícia só pode entrar quando o dono do imóvel fizer uma denúncia, como não é esse o caso, é ilegal qualquer ação aqui”, informou. “No entanto, não há transparência do procedimento da PM nessas situações. Parece existir um padrão para retirar logo no início, para não haver necessidade de o fazer após o processo judicial de reintegração de posse”.

Os policiais não voltaram

Essa foi a chave para harmonizar os ânimos. Welita e Roberto, que estavam do lado de fora, conversaram com os trabalhadores da obra e com o dono do estacionamento, informando que o grupo estava na luta por moradia, e garantiu que nada de ruim aconteceria aos seus estabelecimentos.

Além disso, providenciaram a aguardada alimentação, pois muitos estavam há horas sem nenhuma refeição. O famigerado pão com mortadela encheu o estômago que roncava alto.

Restabelecida a calma, é hora de se organizar para manter a ocupação. A arrumação do espaço começou a ser articulada com a chegada de materiais, além das doações de alimentos para garantir por ao menos 72h a permanência no local.

Outros vizinhos próximos começaram a articular a desocupação por conta própria, chegando até mesmo ameaçar invadir o local e expulsá-los, conforme relatos dos ocupantes durante as madrugadas que se seguiram à ocupação.

Apesar das dificuldades, a ajuda das ocupações mais antigas do Movimento Moradia Para Todos estão unidas e ajudando a mais nova a se estruturar através de alimentação, materiais de limpeza e novas famílias para cuidarem do espaço.

 


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