domingo, 20 set 2020
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Entre a perda e a presença, em “Los silencios”

Refugiados em uma ilha próxima à fronteira entre a Colômbia e o Brasil, na Amazônia, Amparo (Marleyda Soto), com seus filhos, procura refazer sua vida depois do desaparecimento do marido. A comunidade da ilha já não pode receber refugiados, temendo a variedade de problemas em que o gesto pode acarretar. Mas recebem Amparo, de toda a maneira, enquanto a mulher espera a indenização pela morte do marido e uma filha, dificultada pela falta dos corpos. Na comunidade, a família é conduzida por Abuelita (Doña Albina), como chamam uma das mais velhas moradoras do local, que entrega a Amparo sua nova morada e que parece, também, viver entre seus mortos.

Los silencios, dirigido por Beatriz Seigner, que levou o prêmio de Melhor Direção pelo filme no 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, não faz distinções entre realismo e fantasia. A referência mais próxima para o que o filme alcança aqui é a obra do diretor tailandês Apichatpong Weerasethakul, responsável por uma variedade de grande filmes contemporâneos, de Cemitério do esplendor (2015) a Mal dos trópicos (2004). Mas há um ponto em que o filme de Seigner e o trabalho de Apichatpong não se encontram, algo que é, a Los silencios, absolutamente específico e especificamente latino-americano.

O reconhecimento geográfico do filme, essa fronteira habitada entre duas nações a que os personagens não pertencem, vai bem além de um cenário para o luto de Amparo e sua família. Ali temos um espaço povoado e uma memória feita presente nesse mesmo espaço. Não seria o bastante dizer que o lugar não esquece os seus mortos, porque, a bem da verdade, seus mortos nunca deixaram o local, eles compartilham com os vivos de uma história e geografia comum. Se a fuga, a luta e o luto não permitem a esses personagens uma nacionalidade, esse espaço permite que, todavia, compartilhem ainda de um pertencimento comum.

Em Los silencios, os mortos estão em cena. O luto, um sentimento compartilhado tanto pelos vivos quanto pelos mortos, é a chave para essa performance da morte, que participa da comunidade na companhia dos sobreviventes. Os personagens escritos e dirigidos por Seigner são, afinal, sobreviventes de um conflito constante, habitando continuadamente essa luta – histórica, uma luta que se coloca diante da colonização, da distribuição das terras e, consequentemente, também das próprias fronteiras nacionais.

Seigner é capaz de lidar com a violência e a dor da perda que os seus personagens sofrem e, ao mesmo tempo, dar conta de uma relação afetiva que se dá a partir dessa perda, de uma sensação de comunidade, memória e, principalmente, respeito àqueles com quem se compartilha de um espaço – refugiados e nativos, os vivos e seus mortos, um passado feito presente. Se a comparação entre Los silencios e o cinema de Apichatpong não aparece à toa, é porque ambos trazem sua fantasia, e seus fantasmas, pela presença dos corpos em cena e por um reconhecimento de lugar e daqueles que o habitam. Los silencios é doloroso, mas preciso, como a sua própria dedicação, ao final, àqueles que lutaram antes de nós – e o luto por eles.

Cesar Castanha
Cesar Castanha
Do encanto com os créditos de abertura de "Alice no País das Maravilhas", visto religiosamente sempre que exibido nas tardes de sábado pelo SBT, veio a paixão pelo cinema como experiência estética, transformadora e expressão de uma ideia, uma história ou do próprio experimento. Por amar o cinema para além dos padrões de qualidade impostos a ele pela mídia, por outras instituições e até por uma crítica datada, veio o meu amor por conversar sobre cinema, aderi-lo, defendê-lo, apropriar-me dele. O Milos Morpha é uma conversa sobre cinema. Aqui, o texto nunca é certo e definitivo. O cinema não é uma fórmula para que cada cineasta se aproxime da solução mais correta, é um conjunto de experiências artísticas que já dura mais de 100 anos, é dessa forma que criticamente percebemos e experimentamos o cinema no Milos Morpha.