Estudo mostra consequências do racismo sobre o desenvolvimento infantil

Um dos efeitos demonstrados por pesquisadores de Harvard é um estado de alerta constante do corpo, que prejudica o desenvolvimento cerebral, além de maior probabilidade a doenças crônicas

Pesquisadores da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, concluíram em um estudo que as manifestações de racismo da sociedade afetam a saúde física e mental das pessoas negras e o desenvolvimento das crianças, com consequências que atravessam gerações. As demonstrações de preconceito explícitas ou implícitas provocam desde um estado de alerta constante, de reação a medo, do cérebro, até a um tratamento pior em sistemas de saúde.

Embora o estudo tenha sido feito nos Estados Unidos, é possível concluir que, no Brasil, há consequências semelhantes, a partir inclusive de dados do Ministério da Saúde. Se nos EUA os negros são 13% da população, por aqui eles representam 54% dos moradores do país.

Os pesquisadores do Centro de Desenvolvimento Infantil identificaram quatro principais aspectos em que o racismo influi no desenvolvimento de crianças e seu impacto na saúde da população negra em geral.

Estado de alerta constante do corpo

Anos seguidos de exposição a episódios de violência e discriminação mantêm os sistemas de resposta ao estresse das crianças permanecem ativados em níveis elevados por longos períodos. Isso, segundo os pesquisadores de Harvard, pode ter um efeito significativo de desgaste no cérebro em desenvolvimento e em outros sistemas biológicos. O cérebro mantém o corpo em estado de alerta constante, o que é chamado de “estresse tóxico”.

O efeito prático é que as áreas do cérebro dedicadas à resposta ao medo, à ansiedade e a reações impulsivas produzem um excesso de conexões neurais. Por outro lado, as áreas cerebrais dedicadas à racionalização, ao planejamento e ao controle de comportamento vão produzir menos conexões neurais. Isso pode ter efeitos ao longo da vida no aprendizado, no comportamento e na saúde física e mental.

“Embora possam ser invisíveis para quem não os experimenta, não há dúvida de que tanto o racismo sistêmico quanto a discriminação interpessoal podem levar à ativação do estresse crônico que impõe sofrimentos significativos às famílias que criam filhos pequenos”, alertam os pesquisadores.

Mais chances de doenças crônicas

Os efeitos desse “estresse tóxico” se fazem sentir na saúde física das pessoas não-brancas. “Negros, indígenas e outras pessoas de cor nos Estados Unidos têm, em média, mais problemas crônicos de saúde e expectativa de vida mais curta do que brancos em todos os níveis de renda”, escrevem os analistas de Harvard.

No Brasil, o Ministério da Saúde tem dados que apontam na mesma direção. Estudo “Saúde da População Negra”, de 2017, apontou que a diabetes, por exemplo, atinge com mais frequência os homens negros (9% a mais que os homens brancos) e as mulheres negras (em torno de 50% a mais do que as mulheres brancas).

Disparidades na saúde e na educação

Os pesquisadores de Harvard apontaram que, além do efeito no desenvolvimento das pessoas negras, o racismo se manifesta também quando eles procuram serviços públicos, como saúde e educação.

“Pessoas de cor recebem tratamento desigual quando interagem com sistemas como saúde e educação. Também têm menos acesso à educação de alta qualidade e serviços de saúde, oportunidades econômicas e caminhos para acumulação de riqueza”, relata o estudo. “Tudo isso reflete as maneiras pelas quais o legado de racismo estrutural nos Estados Unidos criou condições que prejudicam desproporcionalmente a saúde e o desenvolvimento de crianças e famílias de cor.

Os dados do Ministério da Saúde mostram condições semelhantes no Brasil. Se a média nacional de pessoas que tinham consultado um médico nos últimos 12 meses em 2017 era de 71,2%, a proporção é menor para pretos (69,5%) e pardos (67,8%).  Além disso, 71% das mulheres pretas e pardas declararam realizar ao menos seis consultas de pré-natal, enquanto na população branca a taxa é de 85,8%.

Cuidadores mais fragilizados

Como consequência dos fatores acima, o Centro de Desenvolvimento Infantil aponta que pais, responsáveis, cuidadores adultos em geral das crianças vivem com mais estresse e mais doenças. E isso se volta a elas, de maneira que os efeitos praticamente se perpetuam em meio a essa população.

“Vários estudos documentaram como o estresse da discriminação cotidiana sobre os pais ou outros cuidadores, como a associação com estereótipos negativos, pode ter efeitos prejudiciais nos comportamentos de cuidado e na saúde mental do adulto”, escrevem os pesquisadores. “E, quando a saúde mental dos cuidadores é afetada, os desafios de lidar com ela podem causar uma resposta excessiva ao estresse em seus filhos”, concluem.

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Fabíola Salani

Graduada em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo. Trabalhou por mais de 20 anos na Folha de S. Paulo e no Metro Jornal, cobrindo cidades, economia, mobilidade, meio ambiente e política.

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