Estudo sobre bóias-frias e sem terra mostra necessidade de reforma agrária, diz pesquisador

Situação alimentar dos bóias-frias é pior que a dos assentados da reforma agrária, o que serve de alerta ao governo para a necessidade imediata de uma reforma agrária completa e efetiva

Situação alimentar dos bóias-frias é pior que a dos assentados da reforma agrária, o que serve de alerta ao governo para a necessidade imediata de uma reforma agrária completa e efetiva

Por Juliane Sacerdote, Agência Brasil 

“As conclusões podem ser vista como a ponta do iceberg”, avalia o técnico da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Fernando Ferreira Carneiro, autor de estudo comparativo entre bóias-fria, sem terra e assentados da reforma agrária. O estudo mostra que a situação alimentar dos bóias-frias é pior que a dos assentados da reforma agrária. Para Carneiro, esses dados “devem ser encarados pelo governo como um alerta para a necessidade imediata de uma reforma agrária completa e efetiva”.

Ele considera que o que já foi realizado da redistribuição de terra “tornou as pessoas mais donas de seu destino”, mas ainda é um processo incipiente. No entanto, a preocupação com a posse da terra em si, quando se trata dos bóias frias, faz parte da vida de apenas 3,8% das famílias entrevistadas. Já 11% das famílias acampadas vêem a posse da terra como forma de melhorar a condição de saúde.

Cerca de 90% dos bóias frias gostariam de mudar de função, e alegam o cansaço físico e até a exploração de mão de obra como motivos. Entram ainda nessa listagem a questão do horário de início das atividades, a carga horária de trabalho, a comida e até o tempo de deslocamento para se chegar ao local de trabalho nas lavouras.

Um dado interessante mostra que desse universo de bóias-frias, pelo menos 70% deles têm carteira assinada e recebem os beneficios previstos em lei. Mas o fato de estarem empregos por apenas seis meses do anos não contribui para uma qualidade de vida razoável.

O autor explica que essas pessoas, os bóias-frias, não mudam sua realidade por uma questão cultural e até ideológica. “Essas pessoas dizem que querem mudar de função, de emprego, mas não conseguem se desvincular dessa realidade de trabalhos temporários, que impossibilitam a fixação nos locais e seu consequente desenvolvimento, com a criação de animais e a plantação de hortifrutigranjeiros”, destaca.

Carneiro lembra que a situação das famílias acampadas e assentadas é diferente, isso porque essas “têm uma perspectiva de luta e organização”. Segundo a pesquisa, cerca de 100% das famílias assentadas possuem algum tipo de criação animal, como galinhas e porcos e 66% dessas mesmas produzem alimentos a partir de plantações próprias.

O estudo, intitulado A saúde no campo: das políticas oficiais à experiência do MST e de famílias bóias-frias, foi realizado na Universidade federal de Minas Gerais (UFMG). As pesquisas envolveram a aplicação de questionários e entrevistas com 202 famílias dos três diferentes públicos que moram na cidade mineira de Unaí.

(Agência Brasil)

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