terça-feira, 29 set 2020
Publicidade

Exclusivo: Compra de carteira de crédito do BB pelo BTG pode dar lucro de R$ 1,7 bilhão ao ex-banco de Guedes

A revelação é de uma fonte do mercado que analisou a carteira e pediu anonimato à Fórum; deputado Glauber Braga faz novo pedido de informações sobre o caso

*Atualização às 20h18

A carteira de crédito de R$ 2,9 bilhões que o Banco do Brasil vendeu ao BTG Pactual por R$ 371 milhões tem potencial de recuperação de 70%. Além disso, a maior parte dela é composta por financiamentos imobiliários, ou seja, em caso de inadimplência, imóveis podem ser tomados para quitar os empréstimos. A revelação foi feita à Fórum por uma fonte do mercado financeiro que avaliou a carteira nos últimos anos.

A mesma fonte revela que esses créditos imobiliários foram tomados por ex-funcionários do próprio BB, que deixaram o banco em PDVs nos anos 1990 e 2000.

Se a avaliação de 70% de recuperação feita por essa fonte se concretizar, o BTG vai receber R$ 2,03 bilhões ao final, ou R$ 1,659 bilhão a mais do que pagou pela carteira.

À Revista Fórum, o Banco do Brasil informou, em nota, que “os créditos cedidos referem-se a operações que estavam inadimplentes, em média, há mais de seis anos. Do total, 98% já estava lançado em prejuízo e os 2% restantes contavam com provisões. Além disso, trata-se de um portfólio de operações ajuizadas, com processos judiciais iniciados há até 15 anos” (leia nota completa abaixo).

A negociação suscitou dúvidas e preocupações tanto do Sindicato dos Bancários de SP quanto da Associação Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil (ANABB).

Antes de continuar, vale pontuar alguns fatos. Primeiro, que o ministro Paulo Guedes foi um dos fundadores do BTG Pactual, nos anos 1980. Depois, que na já famigerada reunião ministerial de 22 de abril, Guedes disse que o Banco do Brasil era um “caso pronto de privatização”. Ponto 3 é que o próprio BB divulgou que a operação era um “piloto de um modelo de negócios” que a instituição pretendia implantar para “dinamizar a gestão do portfolio de créditos”. Por fim, foi a primeira vez que o BB vendeu uma carteira a uma empresa de fora do conglomerado.

A mesma fonte do mercado financeiro revelou à Fórum que o BTG está de olho em outras duas carteiras de crédito, de cerca de R$ 1,6 bilhão cada, que atualmente estão sob os ativos da Previ, o fundo de previdência dos funcionários da instituição.

Questionamento

Baseado nos pontos levantados pelo sindicato e pela ANABB, o deputado Glauber Braga (PSOL-RJ) fez um amplo questionamento ao Banco do Brasil. No ofício ele pergunta, por exemplo, se o processo de cessão da carteira assegurava ampla concorrência. Quais tinham sido os critérios para a escolha do BTG para comprar a carteira. A composição da referida carteira de crédito. Como foi atribuído o preço de venda a ela. Por fim, ele pedia ainda o comparecimento do presidente do Banco do Brasil à Câmara para esclarecimentos.

Só que, nesse meio tempo, Rubem Novaes deixou a presidência do banco, ao final de julho. As respostas ficaram então só por conta do ofício. “Mas algumas foram bem evasivas… Na nossa avaliação, elas deixaram muitas lacunas sem responder”, considera o deputado.

Por exemplo: o BB respondeu ao deputado que o preço da carteira foi fixado usando “ferramentas e práticas financeiras, incluindo referências apontadas pela consultoria que apoiou o banco”.  Mas não explicitou quais referências seriam essas. Sobre a composição da carteira, o BB diz que 98% dela tem créditos de mais de R$ 500 mil “contabilizados como perdas há mais de cinco anos”. Não explica, contudo, a natureza desses empréstimos.

Se a fonte estiver certa e forem créditos imobiliários, o valor de R$ 500 mil ou mais por empréstimo faz sentido.

A assessoria de imprensa do BB disse que não são créditos imobiliários que compõem a carteira. Depois da publicação da matéria, enviou nota dizendo que “não faz qualquer sentido dizer que a carteira era composta por crédito imobiliário contratado por ex-funcionários do BB que se desligaram nos anos 1990 e 2000, uma vez que a linha de financiamento imobiliário do Banco do Brasil foi lançada apenas em 2012”.

Com essas informações, a Fórum consultou sua fonte. A pessoa respondeu, primeiramente, que a linha de crédito imobiliário do BB foi lançada em 2008. Para comprovar, enviou link para reportagem em que a instituição anunciava redução das taxas da linha em 2009 e um de seus executivos celebrava que, com o corte, elas seriam as mais competitivas do mercado depois da Caixa Econômica Federal.

A pessoa que teve acesso à carteira disse ainda que o financiamento imobiliário estava disponível para funcionários do BB muito antes da oferta desse produto para o mercado como um todo.

A fonte disse ainda que são muito raras as operações de crédito do BB com tíquete médio de R$ 500 mil que não tenham “garantias substanciais”. “Qual a origem então? Não será SFI ou SFH (Sistema Financeiro Imobiliário ou Habitacional), mas eram operações de crédito com garantias hipotecárias ou outras garantias reais, o que para o comprador dá no mesmo”, escreveu.

Por considerar que os dados passados pelo BB a seu questionamento estão vagos, o deputado do Rio protocolou um segundo requerimento de informações, mais detalhado. Nele, Braga pede laudos e documentos de avaliação que a consultoria fez, composição mais detalhada da carteira vendida. Também pergunta quem é a instância responsável por aprovar esse negócio no banco, se o BB será ressarcido das despesas de cobrança dos empréstimos que estão nessa carteira vendida, entre outros dados bem específicos. Para evitar respostas vagas.

Outro lado

A Revista Fórum pediu explicações sobre a natureza dos créditos, a possibilidade de recuperação e a forma de concorrência que deu a vitória ao BTG Pactual ao BB. E questionou o BTG se queria se pronunciar na reportagem.

O BTG Pactual enviou a seguinte nota: “Conforme já esclarecido pelo próprio Banco do Brasil em comunicado do dia 1º/7/2020, o BTG Pactual reforça que a aquisição da carteira de créditos inadimplentes mencionada pela reportagem se deu regularmente via processo de concorrência, no qual o BTG Pactual disputou com outras empresas especializadas neste mercado. O banco destaca ainda que a operação contou com o acompanhamento de consultoria externa”.

O BB enviou explicações mais detalhadas. Segue a nota do banco na íntegra:

“1) A cessão da carteira ocorreu após processo de concorrência que contou com a participação de quatro empresas especializadas neste mercado. O cessionário escolhido foi aquele que apresentou a maior oferta de pagamento à vista e o maior percentual do rateio de prêmios futuros.

2) A precificação da operação, a avaliação de riscos e a evidenciação da vantajosidade econômica para o Banco do Brasil contaram com o acompanhamento de consultoria externa realizada pela empresa Pricewaterhouse Coopers.

3) Os créditos cedidos referem-se a operações que estavam inadimplentes, em média, há mais de seis anos. Do total, 98% já estava lançado em prejuízo e os 2% restantes contavam com provisões. Além disso, trata-se de um portfólio de operações ajuizadas, com processos judiciais iniciados há até 15 anos.

4) A parcela à vista que foi paga pela carteira superou a estimativa de recuperação desses créditos (à vista e a prazo) pelas esteiras do próprio Banco do Brasil e ainda agregou a expectativa de resultados futuros mediante compartilhamento de prêmios líquidos, sendo que os riscos são assumidos pelo Fundo adquirente.

5) A cessão da carteira terá impacto positivo no resultado financeiro do Banco do Brasil, calculado em R$ 371 milhões, antes dos impostos”.

*Atualização:

Após a publicação, o BTG Pactual entrou em contato com a Fórum esclarecendo que não solicitou judicialmente exclusão de reportagem sobre esse negócio no Jornal GGN, editado por Luís Nassif, como a matéria informava.

O BTG informou que as reportagens retiradas do ar a seu pedido naquele veículo foram:

1.  “Xadrez rápido: Moro usa Globo para calar Veja e atinge Deltan”
2.  “Quanto ganha o BTG com os aposentados no Chile e o fim do discurso do Banco Mundial”

3.  “Xadrez de Moro, Dallagnol e Bolsonaro, e a busca do inimigo externo”

4.  “As manobras por trás das mudanças no COAF”

5. “Vaza Jato: o lobby de Deltan com a amiga de Eike Batista”

6.  “Xadrez da grande jogada do BTG com a Zona Azul”

7. “Zona Azul: como fazer uma licitação de cartas marcadas”

8. “Prefeitura de SP instaura monopólio no Zona Azul em leilão do serviço à empresa ligada do BTG”

9. “Zona Azul: pode-se confiar no Tribunal de Contas do Município?”

10. “O silêncio geral em relação ao BTG e à licitação da Zona Azul”

11.  “Mais uma compra de banco de dados públicos tendo por trás o BTG”

O texto original trazia a informação de que o BTG estava interessado em outras carteiras de crédito do BB que estariam sob os ativos da Previ, mas foi esclarecido que elas são na verdade da própria Previ e referem-se a créditos de planos de demissão voluntária dos anos 1990 e 2000, com financiamentos habitacionais concedidos a ex-funcionários. Têm, portanto, um perfil muito parecido com a carteira vendida do BB para o BTG.

As informações anteriores já foram retiradas desta versão.

Fabíola Salani
Fabíola Salani
Graduada em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo. Trabalhou por mais de 20 anos na Folha de S. Paulo e no Metro Jornal, cobrindo cidades, economia, mobilidade, meio ambiente e política.