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23 de outubro de 2019, 22h20

Exclusivo: Medo, desespero e revolta tomam conta de população litorânea do Nordeste

No primeiro dia da cobertura especial da tragédia, a frieza dos números e a troca de farpas entre autoridades não retratam a angústia por que têm passado pescadores, vendedores ambulantes e comerciantes

Pescadores driblaram ordem do Ibama, de não permitir a atuação de voluntários, e caíram no mar para catar os resíduos - Fotos: Wilfred Gadêlha

Por Wilfred Gadêlha*

Enquanto toneladas de petróleo avançam pelas praias do Nordeste, quem depende do mar para sobreviver tem experimentado uma mescla de sentimentos. De um lado, desespero e revolta. De outro, medo. No primeiro dia da cobertura especial da Fórum sobre a tragédia que atinge os nove estados da região, desde o final de agosto, a frieza dos números e a troca de farpas entre autoridades não retratam a angústia por que têm passado pescadores, vendedores ambulantes e comerciantes. Mais do que o impacto inegável que as manchas negras causam, os nordestinos do litoral vivem um pesadelo que não tem hora para acabar.

Nesta quarta-feira (23), no mesmo momento em que o governador de Pernambuco, Paulo Câmara, se reunia no Palácio do Campo das Princesas, no Recife, com especialistas, pesquisadores e integrantes das universidades locais, mais duas praias da Região Metropolitana encararam a chegada do óleo. De madrugada, Barra de Jangada, em Jaboatão dos Guararapes, ao sul da capital. Às 11 horas, o óleo chegou à praia do Janga, em Paulista, no norte da RMR.

No rastro do crime ambiental nas praias do Nordeste: Ajude a Revista Fórum a mergulhar na realidade dessa grande tragédia

Há 20 anos, Maria Cristina dos Santos, de 49, arma sua barraquinha em Barra de Jangada, onde vende bebidas. Nesta quarta, ela não pôde trabalhar. E nem sabe quando. “É uma tristeza. Mais do que tristeza. A gente vê os peixes mortos e fica pensando que já era para terem tomado providências. Não sei como vou tirar o dinheiro do cartão”, diz ela, ao lado de outros ambulantes. “De quem é a culpa? É do governador, é do presidente. Só não é da gente. Somos inocentes. O que a gente devia era jogar esse óleo lá em Brasília”.

Em Barra de Jangada, pescadores driblaram a determinação do Ibama, que orientou os militares a não permitirem a atuação de voluntários no trabalho de limpeza da praia, e caíram no mar para catar os resíduos. “Desde as seis da manhã que a gente tá aqui. O governo não quer deixar a gente entrar. A gente vive disso. Tá difícil”, lamentou Michael Édson do Nascimento, pescador da área, antes de voltar ao mar para retirar mais óleo.

Expectativa

No Recife, onde o óleo ainda não chegou, a tradicional comunidade de Brasília Teimosa vive dias de expectativa. “Aqui somos quase 2 mil pescadores. Temos a colônia mais antiga de Pernambuco. Se esse óleo chegar aqui, vai ser um abalo”, salienta Augusto de Lima, 72 anos, vice-presidente da Colônia de Pescadores Z-1.  Para Marcos Gonçalves da Silva, 51 anos, “os maiorais não estão fazendo nada por nós, não”. Ele continua: “Se chegar aqui a gente tem que aguentar. Comer o que está guardado. E comer o que ainda não está melado”.

“Aqui somos quase 2 mil pescadores. Se esse óleo chegar aqui, vai ser um abalo”, diz Augusto de Lima, vice-presidente da Colônia de Pescadores Z-1 de Brasília Teimosa

Alagoas

Nesta quinta-feira (24), a Fórum estará em Alagoas, nas praias de Maragogi, no litoral norte do estado. Destino turístico conhecido por suas piscinas naturais, foi atingido pelo óleo na semana passada. Também vamos à foz do Rio São Francisco, na divisa com Sergipe.

*Wilfred Gadêlha é jornalista, formado pela Universidade Federal de Pernambuco. Atuou como repórter e editor de periódicos como Diário de Pernambuco e Jornal do Commercio, cobriu assuntos como o terremoto do Haiti, a visita do papa Bento XVI ao Brasil, cúpulas Brasil- União Europeia e esteve nos Estados Unidos a convite do Departamento de Estado, além de publicar textos em IstoÉ, O Estado de S. Paulo e O Globo. É autor do livro Pesado – Origem e Consolidação do Metal em Pernambuco, que já está em sua segunda edição. Escreveu o argumento e o roteiro e conduziu as entrevistas do documentário Pesado – Que Som É Esse Que Vem de Pernambuco?

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