O que o brasileiro pensa?
28 de outubro de 2019, 20h43

Exclusivo: Tragédia do óleo no Nordeste – quem vai pagar as contas de quem depende do mar pra pagar as contas?

Do pescador ao dono de restaurante, passando pelo proprietário de pousada e pelo garçom. Todos estão preocupados com a tragédia ambiental e cobram um posicionamento mais efetivo do poder público

Foto: Hugo Muniz

Por Wilfred Gadêlha*

“Caro Wilfred, tudo bom? Sou amigo de Alessandra**. Ela me passou teu contato.
Organizei uma viagem com meu parceiro para a segunda semana de dezembro em Mangue Seco e Praia do Forte. Estamos sem saber se mantemos a reserva. A Alessandra falou que você tá cobrindo essa região do litoral baiano. Você recomendaria que mantenhamos as reservas? Ficaria muito agradecido com sua opinião. Abraços”.

Recebi esta mensagem no meu Instagram, na madrugada do último domingo (27). Respondi à dúvida de Francisco** sendo muito sincero: eu disse que estive na Praia do Forte, que foi atingida pelo vazamento de óleo na segunda semana de outubro, e que vi pessoas tomando banho de mar. Mas que os especialistas têm orientado que as pessoas evitem entrar na água nas praias onde a maré negra chegou.

Foto: Hugo Muniz

Últimos dias para você apoiar a grande reportagem da Fórum no rastro do Óleo das Praias do Nordeste. Bora contribuir!

A dúvida de Francisco é muito comum. E isso tem tirado o sono de quem trabalha com turismo nas praias do Nordeste. Do pescador ao dono de restaurante, passando pelo proprietário de pousada e pelo garçom. É assim desde o final de agosto, quando as primeiras manchas de óleo chegaram ao litoral nordestino.

“A gente não esperava. Quando chegou em São José da Coroa Grande, no outro dia chegou aqui. Todo mundo se mobilizou, até os turistas. Então, a gente tem medo que volte, porque é de onde a gente tira o nosso sustento. É até um pouco complicado de comentar. A gente ainda está lutando para recuperar os danos, mas vai ser muito difícil”, conta Pedro Amaro, 21 anos, que trabalha há dois anos como garçom em um hotel na praia de Carneiros, no município de Tamandaré, no litoral sul de Pernambuco.

Foto: Hugo Muniz

“Teve sim uma caída no movimento. Foi um desastre total, principalmente pra gente que vive da praia. Depois que apareceu esse óleo aqui teve uma recaída de turistas. Tem cliente que chegava, mal dava uma olhada na praia e dizia: ‘Não, aqui a gente não fica’. Muitos ficavam, mas iam embora. A gente até dava óleo de cozinha a esses, mas muitos foram embora”, relata Jeyciel Silva dos Santos, 21 anos, há quatro meses trabalhando como garçom em um bar na praia de Antunes, em Maragogi, um dos destinos turísticos mais procurados do litoral nordestino, no norte de Alagoas. “Mas, juntos nós somos mais fortes. Se chegar de novo, a gente limpa”, diz Ciel, como prefere ser chamado, em seu primeiro emprego. “Nosso maior medo é que afete mais ainda nossa praia. Ainda bem que não chegou às piscinas naturais. Na Folha de S. Paulo, saiu que chegou lá. Mas é fake, é mentira. Não tem óleo lá, tá limpo”, salienta ele.

Análises

Vice-presidente da Associação para o Desenvolvimento Sustentável da Praia dos Carneiros (Adesc), Danilo Oliveira explica que a entidade encomendou a um laboratório TopLab, recomendado pela Secretaria de Meio Ambiente do Município, uma série de análises sobre a balneabilidade em quatro pontos da praia. E o resultado foi que todas elas estão satisfatórias para o banho de mar. “A praia está limpa, tanto de coliformes fecais quanto de óleos e graxas. Estamos trabalhando para tranquilizar a população”, complementa.

Foto: Wilfred Gadêlha

“Estamos em contato direto com os órgãos ambientais para pegar as informações mais atualizadas. Assim, a gente pode informar melhor os hóspedes e moradores. Há muita insegurança e incerteza. Me parece que agora o Estado está começando a cumprir seu papel de passar segurança à população. Penso que isso pode se refletir no futuro, com relação a diminuição de busca pelo destino Nordeste”, prossegue Oliveira, alertando que é necessário que o governo federal aja maneira efetiva.

“Nosso receio é isso continuar sendo conduzido sem explicações concretas pelo governo, ou seja, definir quem foi o causador (do vazamento), definir o que está contido, fazer as medidas de restauração nos locais atingidos. Precisa que isso seja feito para que possa gerar segurança para o público em geral. Se a gente internamente não trabalha isso com seriedade e com toda a atenção necessária, outros destinos, como o Caribe, por exemplo, vão agradecer. A gente tem que fazer o nosso papel de cobrar e ir atrás de informações concretas para tranquilizar a população”, reforça.

Assistam ao vídeo com o depoimento de Jeyciel Silva dos Santos:

*Wilfred Gadêlha é jornalista, formado pela Universidade Federal de Pernambuco. Atuou como repórter e editor de periódicos como Diário de Pernambuco e Jornal do Commercio, cobriu assuntos como o terremoto do Haiti, a visita do papa Bento XVI ao Brasil, cúpulas Brasil- União Europeia e esteve nos Estados Unidos a convite do Departamento de Estado, além de publicar textos em IstoÉ, O Estado de S. Paulo e O Globo. É autor do livro Pesado – Origem e Consolidação do Metal em Pernambuco, que já está em sua segunda edição. Escreveu o argumento e o roteiro e conduziu as entrevistas do documentário Pesado – Que Som É Esse Que Vem de Pernambuco?

**Nomes fictícios

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