Clara Averbuck

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01 de março de 2020, 21h59

Fiscais de militância e feministas de ocasião: vão se fuder pra lá

Quando nos posicionamos, sempre que nos posicionamos, somos radicais, chatas, mimizentas, vitimistas. Quando não nos posicionamos em favor de quem sempre nos desmereceu e nos atacou, somos incoerentes?

Ninguém nasce feminista. É um processo de construção e desconstrução constante. Nascemos, isso sim, nas estruturas machistas, racistas, patriarcais, anteriores a nós. Anteriores às mulheres que vieram antes de nós e amaciaram um pouco o caminho. Um pouco, pois, como já disse Aline Valek, ser feminista é viver um pouco do mito de Sísifo, todo dia carregando a mesma pedra, recarregando os mesmos argumentos, e, em épocas nefastas de retrocesso, tendo que retroceder junto para explicar o básico e tentar argumentar com o absurdo. Com o total absurdo.

E o total absurdo começa a nos sufocar quando vem as cobranças de “coerência” de quem nem imagina o que significa isso.

“Mexeu com uma, mexeu com todas, mas só quando elas concordam com vocês”, ouvi outro dia. Não é bem assim, mas olha só: me diz onde é que está escrito no Livro de Regras do Feminismo, que não existe, a obrigatoriedade de defender quem sempre nos atacou? Já é difícil defender as nossas. A gente dá um toque pros compas, ei, não use argumentos machistas contra o fascismo, e eles deveriam ouvir. Às vezes não ouvem. Vamos fazer o que? Não somos mães deles pra impor comportamentos. E também não vamos dar a mão para fascista e fazer vista grossa para quem está na outra trincheira só por causa de gênero. Sinto muito pelos ataques misóginos que todas as mulheres sofrem, mas nem todas podem contar com meu ombro ou minha solidariedade irrestrita, uma vez que seguem alimentando os monstros que fizeram crescer enquanto NOS cobram algum posicionamento.

Ué.

Quando nos posicionamos, sempre que nos posicionamos, somos radicais, chatas, mimizentas, vitimistas. Quando não nos posicionamos em favor de quem sempre nos desmereceu e nos atacou, somos incoerentes?

Ué.

Repito, não somos as cuidadoras do mundo. O bagulho é doido e estamos em guerra e escolhemos nossas batalhas. Eu luto por quem está ao meu lado. Por quem não está, posso lamentar de longe.

Às vezes a gente solta a mão sim, pra dar de ombros e dizer: nós avisamos. Ele não. Vocês relativizaram. Agora se responsabilizem como cúmplices da barbárie.

Sinto muito, mas, assim como não esperamos nada de vocês, não esperem nada de nós. Nos entendemos aqui na nossa trincheira e vocês se viram aí, taokei?

Nós avisamos.

Sinto muito, mas se virem.


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