Das rachadinhas ao propinoduto da vacina: Flávio Bolsonaro e os esquemas criminosos do clã presidencial

A vida do filho 01 do presidente da República é repleta de “coincidências” e personagens que sempre levam ao mesmo lugar: corrupção, milícias e agora a esquemas escusos no Palácio do Planalto

Há muitos personagens envolvidos no escândalo do propinoduto das vacinas que veio à tona primeiro com o escândalo denunciado pelos irmãos Miranda e agora com o novo capítulo que surgiu na noite desta terça-feira (29) com a denúncia de que representante do Ministério da Saúde pediu US$ 1 de propina por cada vacina vendida. Dessa história ainda sairá muito coelho.

Porém, há um personagem que, coincidentemente, está presente em praticamente em todos os meandros dessa e de outras histórias e negócios escusos que envolvem a família Bolsonaro e claro, consequentemente o governo de Jair Bolsonaro (sem partido). Este personagem é o filho 01, também conhecido como Flávio Bolsonaro, senador pelo Rio de Janeiro.

O cronograma do esquema do propinoduto e dos negócios que seriam fechados entre as empresas intermediárias na compra de vacinas nos leva, primeiro, a participação de Flávio Bolsonaro em uma reunião com o dono da Precisa, Maximiano, e o presidente do BNDES, Gustavo Montezano realizada em fevereiro. E, posteriormente, à compra da mansão feita por Flávio Bolsonaro, aquisição tornada pública em janeiro deste ano.

Em fevereiro, logo depois da compra da mansão, o senador chegou a comemorar o acordo de compra da Covaxin. Neste momento, o Ministério Público investiga a compra e o financiamento da mansão de Flávio Bolsonaro.

A mansão

No final de janeiro deste ano foi revelado que o senador Flávio Bolsonaro comprou uma mansão de luxo de R$ 6 milhões no Lago Sul, bairro nobre de Brasília. O vídeo da imobiliária que fechou o contrato mostra que a casa conta com piscina, churrasqueira, academia brinquedoteca, 1.100 m² de área construída e 2.500 m² de terreno.

À época levantou-se o questionamento sobre os rendimentos do senador que são incompatíveis para aquisição de tamanho porte. O deputado federal Marcleo Freixo chamou a atenção e alertou que se tratava “da ponta do iceberg”.

“Entre 1996 e 2016, o clã comprou imóveis usando MILHÕES EM DINHEIRO VIVO, levantando suspeitas de lavagem de dinheiro. […] Entre 1997 e 2008, o então deputado Bolsonaro e a ex-mulher Ana Cristina Valle compraram 14 imóveis e terrenos, que em valores corrigidos somam R$ 5,3 MILHÕES”, destacou Freixo.
A partir da revelação da compra da mansão, outras informações surgiram à época que aprofundavam as desconfianças quanto a licitude do negócio, entre elas, de que o cartório onde Flávio Bolsonaro fez a transação da compra ocultou dados de escritura da mansão de R$ 6 milhões.

Informações como os números dos documentos de identidade, CPF e CNPJ de partes envolvidas foram omitidos, assim como a renda de Flávio e da esposa, a dentista Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro.
Questionado pela reportagem, o titular do cartório, Allan Guerra Nunes, não soube explicar em qual norma embasou sua decisão de censurar as informações, mas disse que tomou a medida para preservar dados pessoais do casal.

Neste momento, o Ministério Público investiga a compra e o financiamento da mansão de Flávio Bolsonaro.

As rachadinhas

Se a compra da mansão avaliada em R$ 6 milhões nos leva a conexões com tantos outros negócios de Flávio, assim como a sincronicidade das negociações em torno propinoduto das vacinas “coincidem” com a aquisição da mansão em Brasília, as atividades um tanto heterodoxas do senador começam desde a sua atuação como deputado estadual no Rio de Janeiro e o caso das “rachadinhas”.

A prática da rachadinha foi confirmada por outro personagem que faz parte dessa história, o ex-assessor de Flávio Bolsonaro, Fabrício Queiroz, que admitiu a prática da “rachadinha” no antigo gabinete do filho do presidente, mas, para protegê-lo, negou que Flávio soubesse da prática.

E antes mesmo da compra da mansão em Brasília, Flávio Bolsonaro já era investigado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) que o acusava de ter acumulado R$ 1 milhão com o esquema da rachadinha.
De acordo com o MP-RJ, Flávio e sua esposa não teriam como explicar gastos que somam R$ 977,6 mil no intervalo de cinco anos. Boa parte deles foi feito por meio de pagamento em dinheiro vivo ou a partir das contas do casal após serem abastecidas por depósitos em espécie.

O amigo Adriano da Nóbrega

Outra história que também permeia a vida da família Bolsonaro e a sua relação com a milícia do Rio Janeiro tem nome: Adriano da Nóbrega, líder da milicia “Escritório do Crime” e que foi morto em uma operação policial na Bahia.

Nóbrega tinha relações diretas com Queiroz e Flávio Bolsonaro. As conexões dessa história foram parar na televisão alemã, que fez uma reportagem com a genealogia da ligação da família Bolsonaro com as milícias e a relação disso tudo com o assassinato de Marielle Franco.

Posteriormente, a reportagem traz a história de Adriano da Nóbrega, chefe da milícia de Rio das Pedras, que foi morto em confronto com a polícia do estado da Bahia. O programa explicou detalhadamente as relações do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e seu filho, o senador Flávio Bolsonaro, com Nóbrega.

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“Acima de tudo, os contatos de Nóbrega na política são incomuns. O presidente brasileiro Jair Bolsonaro elogiou publicamente o chefe da milícia quando ele era parlamentar. Seu filho Flavio, senador do Rio de Janeiro, concedeu a Nóbrega a maior homenagem da cidade do Rio muito antes do assassinato. Além disso, a esposa e a mãe do chefe da milícia foram funcionárias falsas do gabinete parlamentar do filho do presidente durante anos. Esta é outra razão pela qual Flavio Bolsonaro está sendo investigado por formar uma organização criminosa.”

As investigações sobreo Adriano da Nóbrega seguem, mas já apontaram que o miliciano e seus familiares tinham celulares exclusivos para manter contato com ele. Isso confirma o método de contato apontado (ponto-a-ponto) pelo Ministério Público do Rio de Janeiro entre pessoas ligadas ao senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) e o miliciano.

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As interceptações telefônicas revelam que Adriano exigiu que todos seguissem o método de ponto-a-ponto, na qual os seus comparsas mantinham aparelhos exclusivos para entrar em contato com ele. O objetivo deste método é evitar que o telefone usado para essas conversas fosse identificado em contato com outro membro da quadrilha. Além disso, a troca do número de celular era feita de maneira constante por todos, para assim fugir do monitoramento das autoridades.

Como se vê, a vida de Flávio Bolsonaro é repleta de coincidências.

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Marcelo Hailer

Jornalista (USJ), mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e doutor em Ciências Socais (PUC-SP). Professor convidado do Cogeae/PUC e pesquisador do Núcleo Inanna de Pesquisas sobre Sexualidades, Feminismos, Gêneros e Diferenças (NIP-PUC-SP). É autor do livro “A construção da heternormatividade em personagens gays na televenovela” (Novas Edições Acadêmicas) e um dos autores de “O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente” (AnnaBlume).

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