“Florianópolis foi aterrorizada por esse estupro coletivo”, diz vereadora Carla Ayres

Primeira vereadora lésbica a se eleger pelo PT em Florianópolis fala sobre o caso do jovem gay que foi brutalmente violentado e denuncia a não solução dos crimes LGBTfóbicos no Brasil

Na primeira semana de junho o Brasil foi surpreendido pela notícia de um crime bárbaro ocorrido em Florianópolis: um jovem gay de 22 anos foi vítima de um estupro coletivo e corretivo.

O caso corre sobre segredo de justiça e, por conta de sua extrema violência, foi notícia no jornal mais importante do Reino Unido, o The Guardian.

Para falar sobre esse caso, mas também sobre o contexto das LGBT diante de um governo de extrema direita e assumidamente LGBTfóbico conversamos com a parlamentar e pesquisadora em Ciências Sociais (UFSC) Carla Ayres.

A vereadora (PT) é a primeira mulher lésbica a assumir uma cadeira na Câmara Municipal de Florianópolis. Sobre o crime em si, ela afirma que a cidade “está aterrorizada”.

Todavia, também afirma que pouco se sabe sobre o caso devido ao segredo de justiça e pela opção da família em não dar mais visibilidade ao crime.

Além disso, Ayres comentou sobre o atual estado das coisas para a comunidade LGBT.

“A nossa vida de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, intersexo neste momento está sendo duplamente atacada: por essa perseguição, mas também com o aprofundamento da fome, do desemprego. Se nós já éramos uma população à margem fomos jogadas ainda mais para fora das bordas”.

Fórum – Gostaria que contasse pra gente como está a investigação sobre o caso do jovem gay que foi brutalmente violentado em Florianópolis

Carla Ayres
– A cidade toda foi surpreendida e aterrorizada com a notícia dessa agressão e desse estupro coletivo e também corretivo, na nossa avaliação.

Na prática todos os ferimentos feitos com objetos cortantes, gravando palavras de cunho LGBTfobicas no corpo do rapaz é uma busca de correção.

No meio do feriado prolongado da semana passada e o que mais nos chocou além do próprio crime brutal, é que o fato tinha acontecido no início da semana, então já tinham uns 3 dias quando o fato aconteceu, quando ele foi de fato publicizado

Até a presente data ainda corre em segredo de justiça. O delegado, se não me engano, recebeu a comissão especial de Diversidade de Gênero da OAB. Nós tentamos contato com o delegado, que nos recebeu, mas não quis nos receber, se limitou a dizer que no momento oportuno os detalhes do caso iam ser divulgado.
Mas nós não sabemos identidades dos agressores, não sabemos identidade da vítima, nesse último caso a gente até entende pela proteção, mas ainda segue com muitas dúvidas em relação ao caso.

A informação que nós temos é que o rapaz saiu do hospital na semana passada, está com a família, está tendo acompanhamento psicológico, que a família está dando todo o suporte, porém, não desejam se pronunciar, aparecer ou dar mais visibilidade ao fato.

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Fórum – Você faz parte de uma série de mandatos LGBT que foram eleitos ao redor do Brasil e temos acompanhado a perseguição e ameaças de morte a estes mandatos e uma leniência do Estado para garantir proteção. O Estado é conivente com as mortes LGBT?

Carla Ayres – Sobre a conivência do Estado com as mortes LGBT, isso é um fato. Aqui nós tivemos recentemente o relatório militante das mortes LGBT pelo Brasil todo, que esse ano foi uma construção em parceria com GGB (Grupo Gay da Bahia) e com Acontece Arte e Política, que é uma instituição que eu faço parte aqui em Florianópolis.

Santa Catarina tem uma porcentagem bem significativa de casos e Florianópolis guarda 80% dos casos de mortes LGBT do estado. E a gente vê não só aqui, mas em outras unidades da federação esse silêncio em torno das mortes. A gente fica sabendo das mortes, sabe que aconteceram crimes, mas poucas informações nós temos sobre a resolução desses casos.

O que de fato foi feito, o que de fato foi encaminhado, o que foi feito com os suspeitos ou até com as pessoas que comprovadamente cometeram crimes. A gente não tem essa devolutiva por parte da instituição, do Estado. Não tínhamos desde sempre e continuamos não tendo mesmo que a LGBTfobia tenha sido equiparada ao crime pelo STF. Essa é uma realidade bastante séria.

E os mandatos LGBT que foram eleitos não tem sido protegido por esse Estado. Existem alguns casos, como o da Benny Briolly que teve que sair do país por um período por causas das ameaças, outros casos de mulheres trans que tiveram a casa alvejada e não existe uma proteção. Eu mesma denunciei uma série de ataques que tenho sofrido nas redes sociais e nos meus telefones, fiz BO, abrimos inquérito e as coisas ficam por aí, soltas e perdidas.

Então sim, existe uma conivência do Estado historicamente, mas especialmente diante desse Estado comandado por um projeto genocida e fundamentalista, misógino e LGBTfóbico.

Fórum – Como você analisa a vida das LGBT neste momento no Brasil?

Carla Ayres –
Não bastasse nós estarmos vivendo em um Brasil comandado por um projeto genocida e fundamentalista, que coloca os corpos das mulheres, das pessoas negras, das LGBTI+, dos indígenas, dos quilombolas, da esquerda, dos ativistas, dos movimentos sociais, os corpos dissidentes em geral como escudo de um projeto de neoliberal, entreguista, que rompe com a soberania nacional, nós estamos neste momento diante de uma pandemia com consequências inimagináveis em outros momentos, uma crise sanitária, uma crise política, econômica e social e em temos de crise, os corpos que já são vulnerabilizados no sistema capitalistas tendem a ser ainda mais oprimidos e devastados.

Então, a nossa vida de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, intersexo neste momento está sendo duplamente atacada: por essa perseguição, mas também com o aprofundamento da fome, do desemprego. Se nós já éramos uma população à margem fomos jogadas ainda mais para fora das bordas.

Fórum – O bolsonarismo se tornou maior que o presidente com presença em todo o território. Para você, como desarticular estes grupos de ódio que estão dentro dos parlamentos, mas também se espalharam pela sociedade.

Carla Ayres – Eu queria ter uma resposta assertiva para isso. Essa é a chave que todas, todos e todes estamos buscando nesse momento. Não só as pessoas de esquerda, mas uma outra parte da população também, uma parte sem identificação ideológica que já estão esgotadas.

Ainda que uma parcela da população não faça diretamente um vínculo da conjuntura do que está vivendo com o bolsonarismo, assim como não fazia um vínculo com o seu progresso e bem-estar com o lulismo, essas pessoas certamente estão cansadas dessa conjuntura.

Eu acredito que a gente pode seguir denunciando essa conjuntura, a gente pode seguir denunciando esse estado de coisas, a gente pode seguir tentando apresentar as incoerências desse projeto. Apresentando como a vida das pessoas estão sendo tocadas diretamente por isso tudo. Por outro lado, a mobilização social e popular é uma chave bem importante

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Fórum – Acompanhamos também os assassinatos sistemático de mulheres, pessoas negras e LGBT. Hoje contamos com leis de proteção, mas, ainda assim o cenário de ódio parece avançar, ao invés de arrefecer. Para ti, além de eleger governos progressistas, superar o modo de produção capitalista é o caminho para desmantelar esse sistema?

Carla Ayres – Pra mim, os valores que sustentam, principalmente, a misoginia, o machismo, a LGBTIfobia e o racismo sustentam também o capitalismo. O patriarcado sustenta a origem do capitalismo, e não o contrário. Deste modo, sim, não se pode pensar na superação da sociedade de classes, sem pensar em romper com todos estes aspectos.

Entretanto, pra mim, não se pode pensar em “etapas”: romper com o modo de produção, para depois derrubar este estado de coisas. São processos imbricados. Não tem um e/ou outro. É um continuum.

Fórum – Gostaria que você falasse desse primeiro momento do seu mandato na Câmara

Carla Ayres
– Estamos no 5º mês do mandato e são muitos aprendizados e desafios. Nos elegemos abertamente na defesa dos avanços das pautas da Diversidade Sexual de Gênero e isso nos impõe muita responsabilidade, especialmente nessa conjuntura que estamos conversando aqui,
A prática, e o tempo da política institucional às vezes nos inibe e até gera alguma frustração, pois não conseguimos fazer tudo que queremos, no tempo necessário.

Entretanto tem sido muito importante pautar a cidade e a própria Câmara com temas, assuntos e posicionamentos na defesa de uma cidade radicalmente democrática e socialmente justa – especialmente para as populações mais vulneráveis e invisíveis como a as mulheres, criança e adolescente, a população LGBTI+, o debate sobre o combate ao racismo, etc.

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Marcelo Hailer

Jornalista (USJ), mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e doutor em Ciências Socais (PUC-SP). Professor convidado do Cogeae/PUC e pesquisador do Núcleo Inanna de Pesquisas sobre Sexualidades, Feminismos, Gêneros e Diferenças (NIP-PUC-SP). É autor do livro “A construção da heternormatividade em personagens gays na televenovela” (Novas Edições Acadêmicas) e um dos autores de “O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente” (AnnaBlume).

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