Fórum traz série de entrevistas com judeus não alinhados à política genocida

Nos próximos dias, a Fórum publicará um especial com judeus brasileiros contra Bolsonaro. Guilherme Cohen, Liana Lewis, Noemi Jaffe e Michel Gherman falarão de um universo incógnito para a maioria das pessoas: o judaísmo e a extrema direita.

Um jantar oferecido ao presidente Jair Bolsonaro por empresários e figurões endinheirados no último dia 7, em São Paulo, em plena semana com mais mortes de toda a pandemia, teve a participação de duas personalidades muito influentes da comunidade judaica do Estado mais rico do Brasil: Claudio Lottenberg, presidente do Conselho da Sociedade Beneficente Israelita Albert Einstein, e David Safra, um dos herdeiros do espólio bilionário do banqueiro Joseph Safra, falecido há poucos meses.

A presença de figuras judias da mais alta relevância num evento de ovação ao homem que colocou o país num caos social e econômico jamais visto na História despertou críticas de vários setores da sociedade brasileira (assim como na própria comunidade israelita) e deixou algumas perguntas no ar:

Como, de fato, a comunidade judaica vê o governo e a figura de Jair Bolsonaro? Há segmentos desta comunidade que não apoiam o presidente? Por que alguns judeus fazem questão de manifestar alinhamento com um homem que fala abertamente em favor de práticas que violam os Direitos Humanos?

É inevitável não mencionar que estamos falando de um povo que foi vítima de uma das maiores atrocidades da História da humanidade: o Holocausto.

A reportagem da Fórum foi ouvir quatro membros da comunidade judaica brasileira para tentar compreender este recorte tão peculiar de nosso mosaico social. Todos os entrevistados têm posições marcadamente contrárias a Bolsonaro.

Guilherme Cohen, membro do coletivo Judeus Pela Democracia, Liana Lewis, antropóloga e professora da UFPE, Noemi Jaffe, escritora e crítica literária indicada ao Prêmio Jabuti, e Michel Gherman, historiador e coordenador do Núcleo de Estudo Judaico da UFRJ, explicam seus pontos de vista e mostram por que os judeus não devem ser vistos como um grupo unificado e parceiro incondicional de Jair Bolsonaro.

Afinal, quem são (e quantos são) os judeus no Brasil (e no mundo)?

Segundo dados do Censo do IBGE de 2010, no Brasil existiam 107 mil judeus, o que coloca o país em 9° lugar na lista de maiores comunidades desta origem no planeta. A maioria deles vive em São Paulo.

No mundo todo, segundo estatísticas de órgãos judaicos, há algo em torno de 11 milhões de judeus, sendo que 40% deles estão em Israel e outros 40% nos EUA.

Religião monoteísta mais antiga do mundo, o Judaísmo tem sua origem na região do Levante, no Oriente Médio, aproximadamente 4 mil anos atrás. Por conta de perseguições de caráter religioso, em diversas ocasiões, se dispersaram pelo mundo num evento histórico que ficou conhecido como Diáspora.

O senso comum consagrou a ideia de que os judeus são homens de negócios natos, o que é reforçado na prática quando constatamos o expressivo número de banqueiros, joalheiros e grandes empresários desse grupo social.

Uma das páginas mais sombrias do povo judeu foi registrada no século XX, quando foram vítimas do mais emblemático genocídio da História, o chamado Holocausto.

Perpetrado pelo Nazismo, a corrente ideológica implantada na Alemanha por Adolf Hitler na década de 1.930 e que levou o mundo à guerra, a perseguição resultou no extermínio de 6 milhões de judeus, que em sua maioria foram alojados em horrorosos campos de concentração espalhados pela Europa.

Desde então, o mundo vem aprendendo a reconhecer a importância e o valor da tolerância. O morticínio e o horror impostos aos judeus pelos nazistas serviu de bússola para a conquista gradativa de mais respeito aos Direitos Humanos em nível mundial.

Como poderia, então, um povo que carrega as marcas da intolerância e da barbárie dar sustentação a uma figura política deplorável que usa justamente a intolerância e a barbárie como combustíveis para se manter no poder?

A partir de amanhã, a Fórum traz para o leitor uma perspectiva diferente da parte de judeus que contrariam a ideia que se propagou de uma união robusta entre o Judaísmo e o bolsonarismo.

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Henrique Rodrigues

Jornalista e professor de Literatura Brasileira.