Fórumcast, o podcast da Fórum
15 de abril de 2015, 13h35

Galeano, a ‘Veja’ e eu

Recebi da Editora L&PM, de Porto Alegre, o livro Futebol ao Sol e à Sombra, do Galeano, recém-lançado em português, e resolvi tentar emplacar uma resenha da obra, mesmo sabendo do ódio que os responsáveis pela Veja tinham pelo escritor

Recebi da Editora L&PM, de Porto Alegre, o livro Futebol ao Sol e à Sombra, do Galeano, recém-lançado em português, e resolvi tentar emplacar uma resenha da obra, mesmo sabendo do ódio que os responsáveis pela Veja tinham pelo escritor

Por Igor Fuser, do Observatório da Imprensa

O site da revista Veja noticiou a morte de Eduardo Galeano em tom de deboche e desdém, numa lacônica nota em que definiu, sob a rubrica de “entretenimento”, um dos maiores escritores latino-americanos do século 20 como um “ídolo bolivariano”.

Essa atitude – previsível, vinda de quem veio – me fez lembrar um episódio pitoresco que vivi quando trabalhava naquela revista, como editor de Internacional. Ocorreu em dezembro de 1996, quando a Veja iniciava sua transição de uma publicação conservadora para o panfleto de extrema-direita em que se tornou.

Recebi da Editora L&PM, de Porto Alegre, o livro Futebol ao Sol e à Sombra, do Galeano, recém-lançado em português, e resolvi tentar emplacar uma resenha da obra, mesmo sabendo do ódio que os responsáveis pela Veja tinham pelo escritor.

Veja também:  Governadores nordestinos reagem à crise e fazem compras conjuntas na educação para economizar

Expliquei que esse era um livro “diferente”, “leve”, em que ele contava histórias curiosas relacionadas com o futebol, os craques do passado etc…

O chefete com quem eu conversei topou sem me ouvir direito. Imaginou, talvez, que Galeano era mais um que começava a renegar suas posições de esquerda, como tantos fizeram naqueles tempos. De qualquer modo, era época de final de ano e nós tínhamos de produzir muitas páginas além do normal, para acompanhar o aumento dos anúncios, que engordava a revista. A sugestão vinha a calhar.

Coautoria

Escrevi a resenha com todo o cuidado para não abordar nenhum tema político. Eu encarava a mera publicação de uma resenha elogiosa de um livro do Galeano na Veja como uma proeza, mistura de ação guerrilheira (guardadas as devidas proporções) com molecagem pura e simples.

Encerrei o texto com a reprodução de uma crônica em que o genial escritor uruguaio usou apenas quatro palavras. Ele se referia a um jogo na Copa do Mundo de 1994 em que a Argentina, depois de derrotar a Nigéria por 2×1, foi desclassificada porque, no exame de doping, realizado com alguns jogadores escolhidos ao acaso, o teste de urina de Maradona apontou a presença de resíduos de cocaína.

Veja também:  Para 42% dos brasileiros, governo Bolsonaro é pior do que o esperado, diz matéria de capa da Veja

A crônica de Galeano, intitulada “Maradona 1994”, dizia somente isso: “Jogou, venceu; mijou, perdeu.”

Concluí o texto e entreguei ao Tales Alvarenga (já falecido), diretor-adjunto da revista, responsável pelo fechamento das páginas de Livros. Ele leu, aprovou e me liberou para ir para casa.

No domingo, quando recebi a revista, percebi que o Tales tinha alterado a citação do Galeano, sem meu conhecimento. Ele nem ligou para o fato de que não era no meu texto que ele estava mexendo e sim na tradução de uma obra literária, autoral. Lembrou apenas de que a revista, como norma editorial, não publicava termos considerados chulos.

Então o texto do Galeano, na citação da Veja, ficou assim: “Jogou, venceu; urinou, perdeu.”

Está nos arquivos, para quem quiser conferir.

Igor Fuser é professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do ABC (UFABC). Na profissão de jornalista, trabalhou durante vinte anos em publicações como Folha de S.Paulo, Veja,Exame, Superinteressante e Época

Foto: Divulgação 


Você pode fazer o jornalismo da Fórum ser cada vez melhor

A Fórum nunca foi tão lida como atualmente. Ao mesmo tempo nunca publicou tanto conteúdo original e trabalhou com tantos colaboradores e colunistas. Ou seja, nossos recordes mensais de audiência são frutos de um enorme esforço para fazer um jornalismo posicionado a favor dos direitos, da democracia e dos movimentos sociais, mas que não seja panfletário e de baixa qualidade. Prezamos nossa credibilidade. Mesmo com todo esse sucesso não estamos satisfeitos.

Queremos melhorar nossa qualidade editorial e alcançar cada vez mais gente. Para isso precisamos de um número maior de sócios, que é a forma que encontramos para bancar parte do nosso projeto. Sócios já recebem uma newsletter exclusiva todas as manhãs e em julho terão uma área exclusiva.

Fique sócio e faça parte desta caminhada para que ela se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie a Fórum