quarta-feira, 28 out 2020
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Gestão Trump isolou os EUA inclusive na ONU, por Heloisa Villela

Enquanto isso, convenção dos democratas fez reverência aos republicanos, sem dar voz ao crescimento de candidaturas progressistas

O caminho do isolamento é um beco sem saída (lá e cá). Me explico: foram treze rejeições imediatas em quinze consultas na ONU. Os Estados Unidos tentaram, essa semana, arrancar do conselho de segurança das Nações Unidas o compromisso de ampliar as sanções econômicas ao Irã alegando que o país desrespeitou o acordo nuclear de 2015. A cobrança veio por carta, assinada pelo Secretário de Estado Mike Pompeo. E as respostas também foram entregues por escrito, em 24 horas, com um sonoro não coletivo. Só quem não respondeu, formalmente, de imediato, foi a República Dominicana.

Antes mesmo de enviar a recusa por escrito, França, Alemanha e Grã-Bretanha refrescaram a memória de Pompeo ressaltando que os Estados Unidos não têm mais o direito de apitar nesse jogo porque abandonaram o acordo em 2018. Essa tem sido a tônica do governo Trump. Abandonar todos os acordos internacionais, como fez com o do Irã e o do clima. Agora quer voltar à brincadeira como o dono da bola. Mas está sendo forçado a esquentar o assento na arquibancada.

Donald Trump apostou no time do eu sozinho desde o começo. Se apresentou ao eleitorado como o indivíduo capaz de, por conta própria, resolver todos os problemas do país. Trazer de volta os empregos que se foram e desfazer acordos comerciais que chamava de “horríveis”. Isso ele fez quase imediatamente. Abandonou o acordo de Paris, refez o Nafta para favorecer a indústria automobilística, os produtores de leite dos Estados Unidos e garantir as patentes da indústria farmacêutica, e deu adeus ao acordo que garantia o uso exclusivamente pacífico da pesquisa nuclear no Irã. Deu as costas não só ao Irã mas também à França, Alemanha, Grã-Bretanha, Rússia, China e União Europeia. Agora quer dar palpite sem nunca ter voltado ao jogo.

Esse bater em retirada também tem versão doméstica. E para parte do eleitorado, essa sensação de ser abandonada antes do começo do segundo tempo pode pesar nas urnas. Não só pelo volume de mortes por covid, que continua aumentando, mas pela dimensão do desemprego e da desesperança. Uma notícia publicada no jornal The Guardian desse fim de semana chamou minha atenção. Ela conta como um distrito de Monroe, no Michigan, pertinho de Detroit, virou o voto completamente na última eleição. Depois de eleger Barack Obama em peso, duas vezes, Monroe escolheu Donald Trump em 2016 e agora pode voltar a eleger um democrata. Não exatamente por amor a Joe Biden, mas pelo desencanto com o presidente.
Monroe é um distrito pequeno, mas qualquer distrito do Michigan, da Pensilvânia, de Ohio ou da Flórida pode ser decisivo. E lá o movimento que tomou as ruas depois do assassinato de George Floyd, o homem negro que morreu asfixiado, diante de testemunhas e celulares, enquanto um policial branco pressionava o joelho sobre o pescoço dele, surpreendeu muita gente. Foi um momento de reflexão, de olhar em volta e identificar os símbolos do racismo e do genocídio dos povos originários que continuam nas ruas do país exigindo reverência a um passado banhado em sangue e preconceito. Em Monroe, a estátua do General George Armstrong Custer, comandante da cavalaria que liderou ataques ao acampamento dos Cheyenes, por exemplo, foi motivo de um protesto que juntou muito mais gente do que se esperava.

Essa é a conta que as pesquisas talvez não consigam fechar. É verdade que o movimento contra a violência policial, que mata negros em todos os estados do país, já não está nas ruas. Mas foi tão forte e mobilizou um arco-íris tão vasto de representantes de todas as diferentes fatias desse bolo americano que certamente deixou no ar uma ideia diferente. Um contraste palpável entre a força dessa solidariedade que se construiu nas manifestações e vem se acumulando na última década, com o individualismo cego, ou melhor, que só vê a si e a seus próprios interesses no espelho.

Convenção democrata e a reverência aos republicanos

A convenção do partido democrata, que terminou na última quinta-feira, jogou com todos esses sentimentos. Sem ter a legitimidade para tanto, abusou das imagens dos protestos encabeçados pelo Black Lives Matter. Mas não convidou representantes do movimento para discursar. Ao contrário, deu espaço a prefeitos como Keisha Bottoms de Atlanta, na Georgia. Negra sim. Mas na discussão a respeito da violência da polícia e da necessidade de cortar verba dos departamentos policiais para investir nos bairros das minorias, na saúde mental das populações que mais sofrem, ela está do outro lado. A convenção, na verdade, não deu voz ao maior movimento que o próprio partido enfrenta internamente: o crescimento de candidaturas progressistas que têm desbancado políticos tradicionais, financiados por lobbies poderosos. O que se viu ao longo de quatro dias de discursos, vídeos e música foi um desfile de republicanos pedindo votos para Joe Biden. Foi a maior reverência aos republicanos já feita pelos democratas. Só não vou dizer que é mais do mesmo porque Trump é um ponto fora da curva.
Mas vi um alerta preocupante na newsletter do jornalista David Sirota que além de comentarista político foi encarregado de escrever os discursos de Bernie Sanders (o senador socialista de Vermont que tentou ser candidato a presidente pelo partido democrata) na campanha deste ano. Ele disse que Trump é consequência direta das políticas neoliberais do governo Barack Obama e que o governo neoliberal de Joe Biden, caso ele vença nas urnas, pode resultar em um fascista mais eficiente e melhor preparado do que o “Aprendiz” de Nova York. Um político de bagagem mais leve ou ao menos de família mais coesa.

A sobrinha do presidente, Mary Trump, publicou este ano um livro que trata o tio como psicopata. Um homem incapaz de sentir a dor dos outros. O jornal Washington Post pediu a Mary provas de algumas das acusações mais graves que ela faz contra o tio. A sobrinha escritora não teve dúvida. Apresentou ao jornal 15 horas de gravação com a irmã de Donald Trump, Maryanne Trump, uma mulher que foi juíza do tribunal de apelações em Nova York. Entre outras coisas, a irmã do presidente diz que Donald não tem princípios, mente o tempo todo, nunca leu as decisões que ela tomou no tribunal até porque não lê nada mesmo. Maryanne já está aposentada e não sabia que a sobrinha estava gravando as conversas que tiveram e criticou com veemência a política migratória do irmão que separou pais e filhos na fronteira com o México. “Tudo que ele quer é apelar para a base dele. Ele não tem princípios. Nada. Nada. E a base dele, meu Deus, se você fosse uma pessoa religiosa você ia querer ajudar as pessoas e não fazer isso.” Com certeza um aprendiz que pode ser substituído, no futuro, por um fascista mais competente.

Heloisa Villela
Heloisa Villela
Correspondente da Fórum em Nova York.