Gestão democrática na escola depende da articulação da sociedade, diz Helena Singer

Assembléias, matérias didáticos específicos, mudança estrutural da escola, devem ser conquistadas a partir da comunidade articulada, defende pesquisadora

Assembléias, matérias didáticos específicos, mudança estrutural da escola, devem ser conquistadas a partir da comunidade articulada, defende pesquisadora

Por Brunna Rosa

O painel temático “Práticas educacionais Democráticas”, trouxe experiências de escolas democráticas dos Estados Unidos, da África do Sul, do bairro do Campo Limpo, região periférica de São Paulo, além de comunidades indígenas do Rio Negro.

Com mediação de Helena Singer, professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e especialista em gestão democrática na educação, a discussão, apesar da diversidade, mostrou que a necessidade de mudanças nas relações que norteiam a escola surgiu a partir do incomodo de cada local.

Foi assim que os povos indígenas do Rio Negro desconstruíram a escola e exigiram professores da própria comunidade, munidos de material didático em seus dialetos. Também foi a forma como Eda Luís, coordenadora do Centro Integrado de Educação Jovens e Adultos (CIEJA), passou a manter os portões sempre abertos, porque cansou de ver alunos que chegavam atrasados por estarem trabalhando e não entrarem na escola, pois os portões estavam trancados.

Em entrevista a Fórum, Helena Singer, defende a gestão democrática de escolas, a partir de iniciativas da própria sociedade civil. Segundo ela, todas as decisões que não são tomadas pelo coletivo podem virar burocracia.

Fórum – Como funcionam as escolas democráticas e como a senhora vê esse tipo de iniciativa no contexto brasileiro?
Helena Singer – Há 15 anos, quando comecei a estudar a questão das escolas democráticas, ninguém acreditava que isso era possível. Se acreditava, tinham a certeza de que não [daria certo] no Brasil e muito menos com a população excluída. É muito importante mediar uma mesa que trouxe experiências diversas sobre a gestão democrática de escolas e no Brasil, uma delas na periferia de São Paulo e a outra com os povos indígenas de Rio Negro. São experiências radicalmente diferentes e suma importância em suas individualidades. A exemplo dos povos indígenas de Rio Negro, que pararam a escola e exigiram instituições e formação de seus povos e para seus povos.
Uma série de fatores pode diferenciar a escola democrática. Mas, vou me ater a duas, e em minha opinião, as fundamentais. São elas decisões compartilhadas e o trato individual. As decisões que afetam o coletivo devem ser tomadas no coletivo, mas respeitando o individual.

Fórum – A adoção de uma modelo de escola democrática na educação brasileira poderia gerar uma mudança no cenário educacional do país?
Singer – Não acredito que tudo tenha de vir de cima, mas ao contrário. Em Suzano [município da Grande São Paulo, na região do Alto Tietê], por exemplo, todas as escolas passaram a ter um conselho. Esta decisão “de cima para baixo” pode facilmente perder o sentido e virar mera burocracia. Acredito que ter uma escola democrática deve ser uma iniciativa dos mais interessados, isto é, dos alunos, professores e comunidade. Ainda assim, é importante ressaltar o marco legal às iniciativas de democratização, como foi feito na cidade.
A escola democrática não é uma metodologia, é uma ideologia. Caso os indivíduos não compartilhem daquele momento e não estejam dispostos a enfrentar, no coletivo, todas divergências e problemas que surgiram a partir da adoção da democracia na escola, não funcionará.
Mas, é de extrema importância o poder público fornecer todo o apoio necessário a equipe, quando está resolve questionar o modo como é organizado seu entorno.

Fórum – De que formas pode se dar esse apoio do poder público a gestão democrática?
Singer – É extremamente complicado manter uma cultura na escola ou uma linha pedagógica quando professores entram e saem, quando não se pode escolher os profissionais que vão atuar. Este é outro diferencial, que o poder público precisa aceitar e incentivar. Montar e manter um corpo pedagógico que se alie a proposta da escola democrática.

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