Julian Rodrigues

30 de julho de 2019, 15h50

Gritar por impeachment não é a resposta certa à radicalização de Bolsonaro

Julian Rodrigues: “Não se trata de trocar o ruim pelo péssimo, mas de derrotar o neofascismo e o ultraliberalismo"

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Nos últimos dias assistimos a uma verborragia discursiva autoritária de Bolsonaro, junto com ações concretas de Moro, acompanhadas de medidas governamentais que avançam no desmonte das políticas sociais, na privatização, na destruição dos direitos humanos.

Contudo, o necessário e cada vez mais urgente combate à insânia neofascista não pode nem deve implicar defesa de impeachment de Bolsonaro. É rota que fortalece, bem ou malsucedida na obtenção do impedimento, o rearranjo do comando ultraliberal em prejuízo das forças populares.

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Não há correlação de forças para uma saída pela esquerda – o que passa pela liberdade de Lula e pela convocação de novas eleições.

Não podemos ser “bucha de canhão” para ajudar as classes dominantes  a trocar um presidente eventualmente instável por algum quadro mais orgânico e funcional, como o general Mourão ou Rodrigo Maia.

O golpe de 2016, a prisão de Lula e o governo Bolsonaro inauguraram um novo período histórico. As classes dominantes brasileiras, o grande capital internacional e o imperialismo romperam com os princípios democrático-liberais. Estamos sob um novo regime político. Não é ainda uma ditadura aberta, muito menos uma democracia.

A ruptura com o pacto e com a Constituição de 1988 nos impõe novos desafios. A luta social e a organização popular devem estar no centro da ação do campo democrático-popular. É hora de mudar nossas prioridades políticas e nossa ação cotidiana.

Romper o cerco do discurso bolsonarista passa por falar das questões cotidianas das massas populares com as massas populares: educação, emprego, aposentadoria. E falar para as juventudes periféricas, pretas (massacradas cada vez mais pelo Estado policial).

Para nos tornamos uma esquerda capaz de resistir e organizar a oposição ao bolsonarismo deveremos ser de massas, mas de massas militantes. Nos dedicarmos a ter organização nas bases (nos territórios, mas também na juventude, no ativismo feminista, antirracista, nas universidades).

O necessário otimismo de vontade não é voluntarismo.

Não podemos, portanto, cair na tentação do impressionismo, da pressa nem do voluntarismo.

Não basta nosso “otimismo de vontade”, muito menos definir táticas ou consignas políticas com base em fatos conjunturais, indignação moral ou reação nas “bolhas” da esquerda.

É compreensível que as bases militantes do campo popular tentem traduzir sua indignação crescente aderindo a palavras de ordem aparentemente mais “radicais”, como o impeachment.  Mas esse tipo de reação é vedado aos quadros dirigentes, parlamentares, figuras públicas, formuladores do campo democrático-popular.

Para começar, “eles” –  a “velha direita” (PIG, PSDB, DEM, mercado financeiro) – ainda não decidiram operar o impeachment. Pelo contrário.  “Eles”, aliás, são muita gente. Inclusive as grandes corporações norte-americanas e o governo Trump (para não falar da “alt-right” Bannon e cia).

Aliás, depois da votação em primeiro turno na Câmara da reforma da Previdência – e dos anúncios de Guedes sobre o fim das vinculações constitucionais, mais a aceleração da privatização das estatais, o desmonte das universidades públicas, o “liberou” geral para o latifúndio e os mineradores, não há fala absurda de Bolsonaro que cause reação alguma nas classes dominantes.

Em segundo lugar, Bolsonaro e o clã continuam fortes. Por isso radicalizam. Trabalham com a mobilização crescente de sua base orgânica, de extrema direita: neofascistas doutrinados por Olavo e orientados por Carluxo.

É totalmente compreensível o nojo-ódio-repúdio que a militância de esquerda tem de Bolsonaro – mais nossa vontade coletiva de libertar logo o país desse lixo. Contudo, temos de ser estratégicos, analisar a conjuntura com calma e frieza.

Ainda estamos em um período defensivo. Qualquer saída política, nesse momento, não será favorável ao bloco progressista.

Pedir impeachment de Bolsonaro, agora, é ser, na prática, linha auxiliar da direita tradicional, da turma do mercado.

O que fazer?

Nosso foco deve ser intensificar as mobilizações contra as medidas do governo Bolsonaro. Precisamos acumular forças.  A pauta é a defesa da educação pública e gratuita.

Um plano imediato para gerar empregos. E continuar a luta contra a “reforma” da Previdência. Todas nossas energias devem ser voltadas para o tsunami da educação, em 13 de agosto. Sempre levando junto a bandeira do #LulaLivre. E da anulação de sua condenação.

Será preciso um conjunto contínuo e progressivo de mobilizações sociais e também uma vitória do campo progressista nas eleições de 2020 para o início de um processo real de mudança na correlação de forças.

Aí sim, será o momento de os setores populares apresentarem uma proposta de saída política. Que não é a porcaria do impeachment (trocar seis por meia dúzia).

Se conseguirmos mudar a correlação de forças e passarmos à ofensiva, temos que propor uma saída de verdade ao país. Que nos livre não só de Bolsonaro, mas também de Mourão, Moro e Guedes. E de todo o programa ultraliberal.

Restaurar a democracia passa necessariamente, então, por novas eleições.

Outras eleições, reconhecendo que as de 2018 foram fraudadas. Resumindo: foco nas mobilizações sociais, nas lutas populares. Acumular forças, nas ruas, redes e urnas.

A estratégia popular e democrática é derrotar o bolsonarismo e garantir as condições para avançar em um projeto de reformas estruturais, antineoliberais e anticapitalistas.

#LulaLivre  #AnulaçãoDaCondenaçãodeLula  #ContraReformaDaPrevidência  #EmDefesaDaEducação #PorEmpregoeSalário

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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