Hong Kong: Resultado da eleição desafia Pequim

Ministro de relações exteriores chinês declarou que “não importa o que aconteça, Hong Kong é parte do território chinês”

Com protestos desde agosto, Hong Kong teve eleição para conselhos municipais neste domingo (24). Em seu primeiro momento de trégua desde o início das manifestações sobre uma nova lei de extradição, o resultado do pleito surgiu como mais um elemento complicador no cenário atual.

Com um problema que tem suas raízes fincadas no fim das Guerras do Ópio, a dominação britânica sobre Hong Kong sempre foi contestada pela República Popular da China (desde de sua fundação – em 1949).

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Após conquistar um assento no Conselho de Segurança da ONU (1971), os chineses se concentraram diplomaticamente na retomada de Macau (sob controle português) e o arquipélago. Depois de 156 anos de regime colonial britânico (1997), a administração da ilha voltou para os chineses, porém legando uma fase de conflito interno.

Hong Kong, muito além das aparências e selos ideológicos, muito além da questão da soberania nacional e do ambiente democrático, ou mesmo da ideia de “Um país, dois sistemas”, cravada na Declaração Conjunta Sino-Britânica (1984), trata-se objetivamente de um centro econômico mundial.

Considerado por muitos como um verdadeiro “paraíso fiscal”, é um poderoso porto comercial e financeiro, com alto volume de investimentos estrangeiros diretos (3º do mundo em 2013) e posição estratégica. Com a sexta maior Bolsa de Valores do mundo, é um ponto estratégico para grandes corporações multinacionais e interesses ocidentais, adotando suas linhas mestras em termos de métodos e tecnologias de comércio exterior, de investimentos, segurança de dados, taxação e recrutamento de força de trabalho especializada.

A vitória de partidos contrários à influência de Pequim, constatada nos 18 conselhos de distritos, foi considerada por muitos como um “resposta” ao governo de Carrie Lam (pró-Pequim), eleita em eleição indireta pelo colégio eleitoral em 2017. Outro derrotado foi o partido “Aliança Democrática” (pró-Pequim), que deixou de ser a primeira para ser a terceira força política, perdendo 96 cadeiras das 119 conquistadas em 2015, restando apenas 21. Liderada pela conselheira Starry Lee, o partido é um defensor do nacionalismo chinês.

Por outro lado, o destaque da eleição vai para o Partido Democrático (liberal), liderado pelo economista Wu Chi Wai, que saiu de 54 para 91 conselheiros tornando-se a primeira força política – e que deve ter um peso inédito nos municípios indicando os presidentes dos respectivos conselhos.

Com cerca de 3 milhões de votantes – aproximadamente metade da população total de Hong Kong, 70% dos eleitores registrados participaram do pleito. A eleição nos municípios tem poderes e orçamentos limitados, mas impactaram o contexto. Carrie Lam declarou que o governo “refletirá humildemente” sobre a vontade popular; já o ministro de relações exteriores chinês, Wang Yi, por sua vez, declarou que “não importa o que aconteça, Hong Kong é parte do território chinês”.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.
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Vinicius Sartorato

Jornalista e sociólogo. Mestre em Políticas de Trabalho e Globalização pela Universidade de Kassel (Alemanha).