A pedofilia e a economia da mentira, por Jean Wylllys

O ex-deputado, que atualmente realiza pesquisa de doutorado sobre desinformação e fake news, afirma que é preciso atentar para a "obsessão da extrema-direita com a pedofilia"

O ex-deputado federal Jean Wyllys, a partir de uma matéria onde é informado que a Justiça determinou que Eduardo Bolsonaro (Patriota-SP) apague posts que relacionam o senador Omar Aziz (PSD-AM) à pedofilia, atenta para o fato de que tal mecanismo é parte de um método político utilizado pela extrema-direita.

Atualmente, Jean Wyllys está cursando Doutorado em Ciência Política na Universidade de Barcelona e sua pesquisa versa justamente sobre o tema em questão. A partir disso, ele elencou uma série de questões e exemplos, inclusive de si, sobre o uso da pedofilia feito pela extrema direita para atacar adversários.

“É preciso olhar mais atentamente para a obsessão da extrema-direita com a pedofilia e o uso que seus líderes fazem dela naquilo que estou chamando de “economia da mentira, desinformação e difamação organizadas e programada”, diz Jean.

“Entre 2012 e 2013, quando o termo “fake news” ainda não estava popularizado, as mídias sociais, principalmente o Facebook e o Twitter, foram inundados com a mentira de que eu teria, em entrevista à CBN, defendido a pedofilia. Isto deu início às ameaças de morte explícitas”, relata Wyllys.

Em seguida, o ex-deputado conta que a CBN só desmentiu a fraude “6 meses depois”.

Outra questão importante levantada por Jean é o fato da difamação se parte histórica dos ataques contra as LGBT.

“Como é parte da difamação histórica de LGBTs associá-los à pedofilia, até mesmo pessoas próximas acreditaram ficaram na dúvida. A mentira sobre a entrevista na CBN fazia parte da estratégia para destruir o projeto Escola sem Homofobia e levar a máfia neopentecostal à CDHM”.

“Com o relativo sucesso da experiência em me difamar por meio da associação com pedofilia, e tendo emplacado a mentira “kit gay”, as máfias evangélicas e sua bancada na Câmara estenderam a acusação de pedofilia às paradas pessoas que participassem do Seminário LGBT da Câmara”.

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Em seguida, Jean lembra do caso da pesquisadora Tatiana Lionço, que se tornou alvo de ataques da extrema-direita e teve a sua vida devassada.

“A psicóloga Tatiana Lionço é só um exemplo de pessoa que teve sua vida quase completamente destruída por essa acusação falsa. À época, Damares, Rosângela Justino, Marisa Lobo e outros envolvidos na economia da mentira organizada eram as porta-vozes na Câmara dessa quadrilha”.

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A tática, que é chamada de “pedofilia economia e da mentira”, prosseguiu e fez novas vítimas.

“A mentirosa acusação de “defesa da pedofilia” seguiu como instrumento de tortura na mão da extrema-direita contra mim, Maria do Rosário, Érica Kokay, mas também contra a exposição Queer Museu, contra Wagner Schwartz, contra Marcia Tiburi… em 2018, ela era a tônica”.

Outro personagem resgatado por Wyllys é o ex-senador e pastor Magno Malta.

“Malta ganhou notoriedade por causa da CPI da Pedofilia, e, segundo Bastos Moreno, esta era a explicação para ele conter consigo imagens pavorosas de abusos de meninas. Para quem não se lembra, Malta do quem, no dia da vitória de Bolsonaro, puxou uma oração em cadeia nacional”.

Por fim, Wyllys aponta uma conexão entre Malafaia e Malta.

Depois da prisão de Roberto Jeferson, ele saiu das trevas para criticar o STF e confessar que estava com medo de serem ele e Malafaia os próximos. Malafaia e Malta são peças-chaves na construção da mentira “kit gay” e sempre foram amigos dos Bolsonaro. Está tudo ligado”, finaliza o ex-deputado.

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Marcelo Hailer

Jornalista (USJ), mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e doutor em Ciências Socais (PUC-SP). Professor convidado do Cogeae/PUC e pesquisador do Núcleo Inanna de Pesquisas sobre Sexualidades, Feminismos, Gêneros e Diferenças (NIP-PUC-SP). É autor do livro “A construção da heternormatividade em personagens gays na televenovela” (Novas Edições Acadêmicas) e um dos autores de “O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente” (AnnaBlume).