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23 de março de 2017, 14h47

Juca Ferreira: Que país é esse onde a carne é podre e o agro é pop?

“Para manter esse sistema desumano é preciso corromper o parlamento, os partidos, as instituições. Por isso, a comunicação é monopolizada. Por isso, é preferível um governo e um parlamento submissos. Por isso, a democracia não é benquista; é preciso que tudo esteja dominado e, assim, o autoritarismo é tão presente ao longo da nossa história. Para uma boa parte das nossas classes dominantes, o Brasil não é uma nação. É um entreposto comercial ou uma fazenda”, diz Juca Ferreira em seu artigo da semana na Fórum. Leia

Por Juca Ferreira*

Onde o agro é pop, a carne é podre e envenenada, a soja é transgênica, o milho também. O leite pode vir com soda cáustica e o frango com papelão. O agrotóxico está nas frutas, nos legumes, nas folhas. O veneno está na mesa. Inclusive alguns proibidos em boa parte do mundo.

A poluição está no ar, nas águas, nos reservatórios para o consumo humano. No campo e na cidade, o câncer ao acesso de todos.

Ser vegano e vegetariano não é mais seguro. A solução individual não dá conta quando tudo em volta está apodrecendo. A sociedade e o meio ambiente estão sendo destruídos, contaminados. Nada é confiável, nada é seguro.

Todo o sistema está corrompido. O cheiro de podre impregna todo o ar. É a lógica do lucro da sociedade de mercado sem limites nem freios; é o capitalismo sem a regulação civilizatória por parte da sociedade através do Estado e de suas instituições e sem os limites necessários impostos pelo interesse público. É o lucro empresarial sem limites éticos. É a força da grana. O deus dinheiro cobrando submissão, fidelidade e devoção.

Para manter esse sistema desumano é preciso corromper o parlamento, os partidos, as instituições. Por isso, a comunicação é monopolizada. Por isso, é preferível um governo e um parlamento submissos. Por isso, a democracia não é benquista; é preciso que tudo esteja dominado e, assim, o autoritarismo é tão presente ao longo da nossa história. Para uma boa parte das nossas classes dominantes, o Brasil não é uma nação. É um entreposto comercial ou uma fazenda.

O agro é pop, o agro é tudo. O agro destrói. O contemporâneo envernizando o arcaico.

Desmatamento, poluição dos rios, desertificação de terras férteis, grilagem, trabalho escravo, ataques aos povos indígenas, agressão ambiental, envenenamento. Conspiração, apoio e financiamento do golpe. Destruição da democracia. Isso é agro. O agro é pop?

A garantia de qualidade ambiental, e da produção e comercialização sustentáveis de alimentos demanda da sociedade capacidade de fiscalizar, denunciar e propor mudanças e correções de procedimentos para melhorar a relação com a natureza e o meio ambiente e para a adoção de condições para uma vida saudável. Mas, o que mais chama a atenção é a perda da capacidade de nos indignarmos. Vida de gado, povo feliz.

O Brasil justo, sustentável e democrático passa pela consciência, pela atitude, pelo comportamento e pela organização política coletiva para termos capacidade de intervir nos modos de produção e de organização econômica, social e política.

Fora da democracia não há saída. A saída passa por uma sociedade mobilizada e um Estado eficiente e eficaz, transparente, com participação e controle social capazes de garantir o respeito aos direitos e aos interesses dos cidadãos e cidadãs. É bom lembrar o filósofo esloveno Slavoj Žižek: a corrupção não é um desvio do sistema capitalista global, ela é parte de seu funcionamento básico.

A democracia permite que a sociedade tenha mecanismos de contenção e regulação da sanha de lucro desenfreado. Capitalismo sem uma democracia forte é a barbárie. É inevitavelmente predatório.

O papel do Estado democrático é representar e garantir o respeito aos interesses da sociedade e, através de suas instituições e do aparato legal, garantir os mecanismos de defesa do bem-estar e da qualidade de vida das pessoas.

O estado mínimo, o estado eunuco, impotente para cumprir seu papel ou um governo submisso e vassalo dos interesses dos empresários é a negação da possibilidade de vida civilizada e de qualidade de vida para todos. É a barbárie neoliberal. Cada qual por si.

Por isso precisamos enfrentar o golpe, parar a destruição do Estado democrático, parar o atropelo dos direitos, a barbárie antipopular e antidemocrática e contra nossa soberania; por isso urge restabelecer e aprofundar a nossa democracia e, para isso, precisamos de eleições diretas e gerais, já!

Fora da democracia, não há saída.

juca ferreira

 

*Juca Ferreira é sociólogo e ambientalista. Foi ministro da Cultura nos governo Lula e Dilma.

 

Leia aqui outros artigos da coluna de Juca Ferreira na Fórum.

Ilustração de Shintaro Kago

 


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