quarta-feira, 30 set 2020
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Kamala Harris: três erros e você está fora, por Heloísa Villela

O objetivo é ganhar as eleições no dia 3 de Novembro. E desse ponto de vista, o partido de Barack Obama e Hillary Clinton parece ter feito uma escolha acertada ao se decidir por Kamala Harris para compor a chama com Joe Biden.

As primeiras pesquisas de opinião mostram que, para boa parte do eleitorado democrata, a escolha agradou. E gerou uma injeção imediata de dinheiro na campanha: US$ 26 milhões nas primeiras 24 horas. Mas a confirmação de que o tiro pode ter sido certeiro veio da reação dos republicanos mais radicais e do próprio presidente Donald Trump.

O advogado ultra conservador John Eastman, que tentou disputar a vaga de procurador-geral da Califórnia com Kamala Harris, mas não passou das primárias (o cargo é eletivo), publicou um artigo na revista Newsweek esta semana para levantar – ou ressuscitar – uma discussão que Trump adora: Kamala Harris é 100% cidadã? Tem, por lei, o direito de concorrer ao cargo de vice presidente?

Essa pergunta foi feita, com insistência, com relação ao então candidato Barack Obama, em 2008. E se tornou uma teoria da conspiração que Donald Trump abraçou com entusiasmo em 2011. Era a tentativa de desqualificar Obama dizendo que ele nasceu no Quênia, e não no Havaí.

No caso de Kamala Harris, o advogado discute se o fato dela ter nascido na Califórnia quando os pais ainda não eram naturalizados americanos é motivo suficiente para questionar a legitimidade da candidatura de Kamala a vice.

As filigranas dessa discussão não interessam muito. O que vale, aqui, é o recado político e a quem ele é direcionado. Trump usou os argumentos do advogado para lançar a dúvida no ar durante uma entrevista na Casa Branca. É uma forma de atrair o voto de eleitores brancos que olham os negros com desconfiança. Também funciona para reforçar o discurso anti-migratório, que tem seus seguidores.

Para os democratas é uma ótima oportunidade de polarizar a discussão e entusiasmar eleitores negros e latinos que querem derrotar Trump em Novembro, mas não têm o menor entusiasmo pela dobradinha Biden-Kamala.

O partido democrata, mais uma vez, fez a opção de sempre: desprezar os progressistas que lotaram os comícios dos senadores Bernie Sanders e Elizabeth Warren em troca de uma aproximação à direita. É preciso disputar os indecisos e roubar apoio no campo de Trump.

Kamala, a ex-promotora da cidade de São Francisco e do estado da Califórnia, cumpre essa função. Ela mesma se apelidou, na época, de policial número um (top cop) porque cumpriu à risca a lei anti-crime, co-escrita em 1994 por Joe Biden, que estabeleceu o chamado “três erros e você está fora”.

Uma pessoa que já foi presa por dois crimes mais sérios e é detida por uma infração mais leve tem pena pré-definida: prisão perpétua. E juiz algum pode mudar essa sentença. Na Califórnia, a lei foi ainda mais severa levando em conta três crimes considerados leves. Essa mudança de postura, durante o governo Clinton, foi responsável pelo encarceramento em massa, que penaliza sobretudo a população negra.

Para os progressistas, é mais um ponto contra Kamala, mas na disputa com Trump, esvazia o discurso “da lei e da ordem” que ele vem fazendo. Essa é uma expressão com significado claro nos Estados Unidos. O político que fala da lei e da ordem promete ser durão no combate ao crime. E por isso Trump enviou tropas do Departamento de Segurança Interna a Portland, no Oregon, para reprimir manifestantes. Usou os oficiais como milícia pessoal.

Eles desembarcaram na cidade sem identificação no uniforme, com carros também sem identificação, prenderam manifestantes que ficaram sumidos por mais de 24 horas. O projeto era expandir o programa para outras cidades, como Portland, que têm prefeitos democratas, para marcar o território e dizer quem coloca a casa em ordem. Não deu muito certo, foram muitas as críticas e até agora não houve ocupação em Chicago, como se temia.

Com Kamala, a promotora durona, na chapa democrata ao lado do senador que ajudou a escrever a lei draconiana de combate ao crime, vai ser mais difícil Trump fazer campanha como único candidato preocupado com a segurança dos “cidadãos de bem”. A candidata a vice de Biden tem ainda o apelo do filho de imigrantes que cresceu, estudou e se destacou na sociedade americana. A mãe é indiana, o pai jamaicano. O discurso oficial foca na escolha “histórica”: primeira mulher negra que tem chances de se tornar vice-presidente. Mas a história é mais complicada.

Alicia Garza, co-fundadora do movimento Black Lives Matter, que levou milhões de manifestantes às ruas do país nos últimos meses, disse que o país precisa de mudanças profundas: “para alguns ativistas, é importante que a mulher negra esteja representada na chama, mas a substância será muito mais importante do que o simbolismo”.

Heloisa Villela
Heloisa Villela
Correspondente da Fórum em Nova York.