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27 de abril de 2020, 23h38

Lava Jato suspeitava que Alexandre Ramagem era corrupto e ligado ao PT

Segundo mensagens reveladas pelo Intercept, procuradores acreditavam que o delegado escolhido por Bolsonaro para chefiar a Polícia Federal queria melar a operação

O delegado Alexandre Ramagem, atual diretor da Abin e escolhido pelo presidente Jair Bolsonaro para assumir o comando da Polícia Federal, era visto como corrupto e ligado ao PT pela força-tarefa da Lava Jato. As informações foram reveladas na noite desta segunda-feira (27) pelo The Intercept Brasil, com base em mensagens de celular dos procuradores.

Ramagem é íntimo da família Bolsonaro e sua indicação é apontada como uma tentativa de barrar investigações recentes que têm como alvo filhos e aliados do presidente.

Segundo o Intercept, para os procuradores do Ministério Público Federal em Curitiba, Ramagem era um nome ligado ao PT que estaria buscando “melar” a operação. Além disso, se preocupavam com a amizade que o delegado mantinha com um procurador preso e denunciado pela venda de informações de investigação ao grupo JBS.

Essas duas suspeitas foram compartilhadas por Deltan Dallagnol, coordenador da Lava Jato no Paraná, em conversas no aplicativo Telegram entregues ao Intercept e fazem parte da série de reportagem Vaza Jato.

A desconfiança surgiu em 2015, quando Dallagnol dividiu uma preocupação com os colegas do MPF. “Info de inteligência: Fanton tem grande amigo, carioca, na direção geral, o qual é mto ligado ao PT, e esperaria favor político futuro em troca de infos para melar o caso, segundo algumas fontes dizem”, escreveu, no grupo de procuradores “Grupo PF – MPF Lava Jato 2”.

Já naquela época a Lava Jato vivia em guerra com o delegado Mario Fanton, que havia acusado seus colegas paranaenses de manipulação de provas e que acabou denunciado por violação de sigilo funcional. Horas depois, no mesmo dia, Dallagnol retornou ao grupo com a identificação do suspeito: Alexandre Ramagem.

Em paralelo, Dallagnol repassou a informação a Januário Paludo, um dos veteranos da força-tarefa no Paraná. No final do ano passado, Paludo passou a ser investigado pela acusação de receber propina do doleiro Dario Messer em troca de proteção. Paludo chegou a responder no dia seguinte, dizendo que acionaria pares em Brasília, mas o assunto não foi adiante.

A desconfiança sobre Ramagem ficou submersa até 2017, no governo Michel Temer. Em 18 de maio, o procurador Ângelo Goulart Villela havia sido preso por suspeita de ter vendido informações sigilosas de investigação a Joesley Batista, dono da JBS.

Três dias depois da prisão, Dallagnol entrou em contato com o procurador Anselmo Henrique Cordeiro Lopes, então coordenador da Operação Greenfield, que mirava fundos de pensão. Era a operação em que Villela, preso na véspera, atuava na época.

Dallagnol repassou a Lopes uma mensagem recebida de um denunciante que ficou anônimo: “Repasso: “Caro amigo, vou recorrer a vc (…). Mas o ngelo Goulart tinha ligações com um tal DPF Ramagem, que passou por RR Tb, será que ele está em alguma FT? Se estiver, deve ser afastado sumariamente, pq é grande o risco de estar envolvido tb.”

Na mensagem, DPF significa delegado de polícia federal, RR é Roraima, e FT, força-tarefa. Lopes responde, aponta o Intercept, que já ouviu sobre as ligações de Ramagem, mas que ele não estava em nenhuma das operações.

Ainda de acordo com a reportagem, não é claro se Dallagnol sabia disso, mas Villela e Ramagem trabalharam juntos em Roraima de 2008 a 2011. Cada um por seu órgão, haviam atuado na investigação das contas de candidatos ao governo do estado, em 2010.

Duas fontes ouvidas pelo Intercept afirmaram que a relação dos dois era íntima: o procurador teria dividido casa com Ramagem em Boa Vista e convidado-o para o casamento dele, em 2013, uma festa de luxo no Copacabana Palace, no Rio.

Ramagem não trabalhou na Greenfield, mas, naquele mesmo ano, ele atuou na equipe da Lava Jato que prendeu empresários do transporte público no Rio de Janeiro. Um caso de muita repercussão, incluindo a condução coercitiva de Jorge Picciani, então presidente da Assembleia Legislativa.


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