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21 de abril de 2012, 19h45

Lembranças de Tancredo e Sarney

Dali a pouco entra Antônio Britto, porta-voz de Tancredo, numa rede de TV, com ar compungido. Depois de quase quarenta dias de agonia, Tancredo morre – ou tem a morte anunciada – num 21 de abril, dia de Tiradentes, data simbólica.

Dali a pouco entra Antônio Britto, porta-voz de Tancredo, numa rede de TV, com ar compungido. Depois de quase quarenta dias de agonia, Tancredo morre – ou tem a morte anunciada – num 21 de abril, dia de Tiradentes, data simbólica.

Por Mouzar Benedito

Era 21 de abril, em 1985. Eu e minha namorada estávamos num restaurante esperando um amigo, Luiz Mineiro, que era chefe de jornalismo da TV Manchete em São Paulo. Ele estava muito atrasado e resolvi telefonar pro seu trabalho. Não existiam celulares, na época, liguei do telefone do restaurante e soube que ele ia furar, mas tinha motivo:

– Lá pelas 9h vão anunciar a morte do Tancredo Neves.
Fiquei com a impressão de que esperavam formar um público na frente da TV, o pessoal que via o Fantástico, para que o anúncio da morte dele tivesse uma comoção maior.

Jantei e fui pra casa. Dali a pouco entra Antônio Britto, porta-voz de Tancredo, numa rede de TV, com ar compungido. Depois de quase quarenta dias de agonia, Tancredo morre – ou tem a morte anunciada – num 21 de abril, dia de Tiradentes, data simbólica. Assim se efetivava no cargo o vice, José Sarney, ex-presidente da Arena, partido de sustentação da ditadura, que pulou para a banda adversária na hora certa, tornando-se herdeiro de Tancredo.

Lembrei-me então de uma discussão de meses antes com um grupo de pessoas ligadas ao PCdoB (algumas delas minhas amigas), que me hostilizava porque eu escrevia em jornais criticando Tancredo, que era apoiado pelo PMDB, PFL (um racha do PDS – a sigla que substituiu a Arena), PCB e PCdoB. Brinquei:

– O Tancredo tem 75 anos, não vai chegar ao fim do governo, morre antes. Vocês votam nele e acabam, na prática, elegendo o Sarney.
Xingaram. Disseram que esse era um argumento de direita, que Tancredo tinha uma saúde de ferro etc etc.

Agora, 25 anos depois, coincidindo com o cinquentenário da inauguração de Brasília e no ano em que seria o centenário de Tancredo, me lembro disso, de Sarney passando de amaldiçoado pela esquerda a ungido por uma parte dela.

A eleição indireta de Tancredo já tinha sido prevista logo depois da indicação de João Batista Figueiredo para ser o último presidente militar. Os próprios militares previam que seria impossível colocar outro milico, e tinham um certo medo de entrar alguém que resolvesse apurar os crimes da ditadura. Pensavam num nome civil “moderado”, da oposição, para entrar depois de Figueiredo.

O jornal Movimento publicou uma matéria de duas páginas, de autoria de Raimundo Pereira, em que a ilustração era uma foto de Tancredo com ar contemplativo, olhando para o céu, de mãos postas, e com uma auréola de santo desenhada sobre sua cabeça. O título, acho que era “Campeão da conciliação quer salvar os ditadores”. Nela, Raimundo Pereira descreveu – com anos de antecedência – passo a passo o que aconteceria na sucessão de Figueiredo. Tancredo assumiria com o compromisso de “esquecer” o que a ditadura fez. Era um jogo de cartas marcadas, aceito e engolido pela maioria da oposição.

Assim, os políticos-chave da ditadura continuaram no poder, numa boa. Acho que está aí um motivo porque a “democracia” que substituiu a ditadura foi frustrante, não trouxe o que se esperava dela.

Sarney teve momentos de grande apoio popular e da mídia, como quando lançou o Plano Cruzado. Jornalistas como Joelmir Beting e Clóvis Rossi o louvavam e tratavam os críticos do plano como traidores. Ouvindo Joelmir no rádio, eu tinha a impressão de que ele ia propor o fuzilamento sumário de opositores.

Bom, para terminar estas lembranças, alguns meses depois eu trabalhava no Guia Rural Abril e ouvi o colega Murilo Carvalho falando maravilhas do Plano Cruzado, dizendo que não havia inflação e que os preços não tinham aumentado desde que Sarney o lançou.

Contestei:

– Quando Sarney lançou o Plano Cruzado, com o meu salário dava pra comprar 189 litros de vodca no supermercado perto de casa. Agora só dá pra comprar 110.

Ele ficou bravo, dizendo que isso não era comparação, não interessava. Mas outros colegas concordaram comigo: calcular inflação só pelo valor dos produtos com preços controlados pelo governo é fácil, né? Cada um sabe onde a inflação lhe pega…

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum 85. Nas bancas.


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