#Fórumcast, o podcast da Fórum
20 de julho de 2015, 13h16

Lima Barreto e o triste fim dos idealistas

[o texto contém informações sobre o enredo e o desfecho do romance]

Triste Fim de Policarpo Quaresma é daqueles livros que substituem e superam em qualidade e poder de análise boa parte da nossa histérica e oportunista opinião pública de facebook.

A obra-prima de um dos nossos únicos escritores autodeclarados negros canonizados narra o delírio patriótico e a consequente desgraça de um funcionário público das forças armadas que comete a insanidade de ser fiel aos princípios e valores que aprendeu principalmente com os românticos do século XIX, pecado imperdoável em uma sociedade corrupta e hipócrita.

Lima Barreto recria os primeiros anos da mui festejada República para revelar que a mudança de regime não foi acompanhada por uma revolução nas estruturas de poder. O imperador fora substituído por ditadores, e os nobres por burocratas de alto escalão, mas os pilares fundadores da sociedade brasileira – racismo, sexismo, privilégio de classe, desprezo pela cultura e pelo pensamento criativo – permaneceram imutáveis. Um século depois e ninguém dirá que o cenário é essencialmente outro.

Os idealistas de hoje, que ainda resistem às tentações do cinismo e do impossível alheamento completo da sociedade, não podem evitar enxergar em Policarpo um triste espelho e um profeta: basta pensar na decepção dos eleitores de Dilma que esperaram por um governo reformador e se viram chantageados por Cunha, ou nos esperançosos corações gregos que vislumbraram o fim da austeridade dias antes de serem humilhados sob o peso do capitalismo que prefere a saúde dos bancos à das pessoas.

A amarga decepção decantada nos jornais de hoje é a mesma que sofre o fictício Quaresma ao largar tudo para defender a Pátria durante a Revolta da Armada. A proximidade com o poder de Floriano Peixoto e com a falta de honestidade e transparência no comando de guerra levam o coerente Quaresma a apontar as injustiças e excessos do governo. É preso como traidor e sumariamente condenado à morte. Só então o desolado major se dá conta de que de nada adiantou pautar suas ações pela fidelidade aos seus valores em um mundo governado pela hipocrisia e pela sede de poder:

Mas, como é que ele tão sereno, tão lúcido, empregara sua vida, gastara o seu tempo, envelhecera atrás de tal quimera? Como que não viu nitidamente a realidade, não pressentiu logo e se deixou enganar por um falaz ídolo, absorver-se nele, dar-lhe em holocausto a sua existência? Foi o seu isolamento, o seu esquecimento de si mesmo; e assim é que ia para a cova, sem deixar traço seu, sem um filho, sem um amor, sem um beijo mais quente, sem nenhum mesmo, e sem sequer uma asneira!

Se Policarpo Quaresma duvida de suas convicções ao aproximar-se da morte, Lima Barreto não se rendeu ao niilismo e fez de seu herói quixotesco um arauto de um humanismo que não é apenas ideia intelectualmente concebida, mas um sentimento de fraternidade que nasce do contato direto com a pobre gente que vive nos cortiços dos centros urbanos e com os camponeses que de seu não possuem nem a terra em que hão de ser enterrados depois de uma vida de muito trabalho e pouca fartura.

No fim da vida, o pensamento de Quaresma não está na Idéia pela qual entregou a existência (a Pátria, mas poderia também ser o Partido, o Deus, o Povo, o Poder), mas nas pessoas com quem travou suas poucas relações de afeto e cumplicidade. Entre elas, Olga, sua afilhada, que frontalmente desafia os interesses da carreira do marido para tentar salvar o padrinho.

Diferentemente de Cervantes e Flaubert, que narram o último suspiro de seus derrotados sonhadores, Quixote e Bovary, Lima Barreto não escreve o destino fatal de seu major. Observando que, ainda que muito lentamente, através dos séculos, as coisas mudam, a pragmática Olga não se sente desanimada diante da indiferença daqueles que poderiam poupar a vida de Quaresma. «Esperemos mais», pensa a afilhada antes do último ponto final.

«Esperemos mais» para que o legado do romancista Lima Barreto encontre ressonâncias nas sensibilidades do futuro, tempo em que os idealistas que sonhem com uma sociedade menos desigual e livre da violência gratuita não sejam castigados apenas por serem coerentes. «Esperemos mais», porque, ao que parece, a resiliência dos injustiçados é ainda, quando não a única, a sua mais expressiva e indecifrável forma de poder.


Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum