Lula: as pessoas podem ser homossexuais e a gente respeitar quem são

Os mandatos do ex-presidente ficaram marcados pelo Programa Brasil Sem Homofobia e quando, em 2008, discursou na abertura da I Conferência Nacional LGBT

A coletiva do ex-presidente Lula, realizada na última terça-feira (9), no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC (SMABC), ainda continua a repercutir de variadas maneiras na imprensa e na sociedade como um todo. Foram vários assuntos abordados pelo líder petista, entre eles a defesa de políticas LGBT, mais um contraponto necessário ao presidente Bolsonaro, declaradamente contrário aos direitos civis de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais.

Durante a sua intervenção, o ex-presidente Lula declarou que quer “ajudar a construir um mundo justo, um mundo mais humano, um mundo em que a mulher não seja tripudiada por ser mulher, um mundo em que as pessoas não sejam tripudiadas por aquilo que querem ser, um mundo em que a gente venha abolir definitivamente o maldito preconceito neste país”.

Em seguida, Lula afirmou que deseja construir um mundo “em que os jovens possam transitar livremente pelas ruas de qualquer lugar sem a preocupação de levar um tiro, um mundo onde as pessoas possam ser felizes onde quiserem ser, que as pessoas sejam o que elas decidirem. Um mundo onde a gente tem que respeitar a religiosidade de cada um. As pessoas podem ser homossexuais e a gente respeitar quem elas são”.

Foto: Ivan Longo

Brasil Sem Homofobia

As declarações do ex-presidente Lula contra os preconceitos e, em específico, contra a homofobia não são componentes novos em seu discurso. Os seus dois mandatos (2002-2010) enquanto presidente da República se tornaram um marco histórico no que diz respeito ao fomento de políticas voltadas às LGBT.

A primeira delas foi o lançamento do Programa Brasil Sem Homofobia, lançado em 2004 e coordenado pelo então ministro dos Direitos Humanos, Nilmário Miranda. O programa visava o estabelecimento de uma série de políticas públicas, em diálogo com estados e municípios, que tinha como parâmetro um trabalho interministerial: educação, segurança pública, trabalho e direito à saúde.

O Programa Brasil Sem Homofobia teve como objetivo o apoio a projeto de fortalecimento de instituições públicas e não governamentais, capacitação de profissionais e representantes do movimento LGBT, disseminação de informação sobre direitos e incentivo à denúncia de violações dos Direitos Humanos das pessoas LGBT.

Posterior ao Brasil Sem Homofobia, foi instituído em seu lugar a Coordenação Nacional de Política LGBT, que funcionava dentro do Ministério dos Direitos Humanos e teve como uma das principais missões a articulação e realização da I Conferência Nacional LGBT, que aconteceu em 2008. À época, a pasta de Direitos Humanos era comandada pelo então ministro Paulo Vannuchi.

Lula na abertura da I Conferência Nacional LGBT/ Foto: PT



A fala do ex-presidente Lula presidente sobre a luta contra o preconceito em sua coletiva é muito similar ao seu discurso de abertura na I Conferência Nacional LGBT. À época o então presidente contou um pouco dos bastidores sobre a pressão para que não discursasse na abertura da conferência. Segundo o presidente, havia uma pressão de setores que o apoiavam e afirmavam que isso poderia afetar a sua imagem política e prejudicar o apoio ao seu governo.

Lula então revelou que, à revelia de vários companheiros decidiu por abrir a conferência e afirmou que era necessário instituir no Brasil “o dia nacional de combate ao preconceito”. À época, o presidente fez história, pois, se tornou o primeiro governante de um país a inaugurar um evento político voltado para políticas LGBT.

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Marcelo Hailer

Jornalista (USJ), mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e doutor em Ciências Socais (PUC-SP). Professor convidado do Cogeae/PUC e pesquisador do Núcleo Inanna de Pesquisas sobre Sexualidades, Feminismos, Gêneros e Diferenças (NIP-PUC-SP). É autor do livro “A construção da heternormatividade em personagens gays na televenovela” (Novas Edições Acadêmicas) e um dos autores de “O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente” (AnnaBlume).