Lula, a biografia do Brasil

Obra escrita pelo jornalista Fernando Morais, além de narrar a vida do líder petista, é um mergulho do chamado “novo sindicalismo” e o impacto da fundação do PT na história recente da esquerda latina

Recém-lançada pela Companhia das Letras e já entre os mais vendidos, “Lula: Biografia Vol 1” (2021), escrita por Fernando Morais, traz, além da história do ex-presidente, uma profunda radiografia da segunda onda do movimento sindical no Brasil e faz entender por que o PT, em tão pouco tempo de existência, se tornou um dos principais partidos de esquerda da América Latina e do mundo.

Além disso, a obra confirma que Fernando Morais é um dos maiores biógrafos do Brasil, pois, assim como já tinha mostrado em outras obras, como “Olga” (1985) e “Chatô” (1994), o autor, a partir do material que tem em mãos constrói uma narrativa com ritmo acelerado que nos dá a impressão de estarmos dentro de um filme.

Capa da biografia de Lula/ Foto: divulgação


A prisão de Lula


A opção de Fernando Morais por iniciar a sua história a partir da prisão de Lula em 2018 e dos momentos de tensão vividos no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, pode causar um estranhamento para quem iniciar a leitura, pois de pronto vem a pergunta: por que iniciar a narrativa a partir de fatos que ainda estão frescos na memória dos brasileiros e que foram acompanhados por milhões?


A resposta está no fato de termos acesso a momentos e conversas da alta cúpula do PT sobre a decisão a ser tomada: Lula se entrega ou não? Mas também de mergulharmos no íntimo do ex-presidente e no turbilhão de sensações que sentia nas horas antecedentes de sua prisão.


Em muitos momentos a técnica utilizada por Morais para descrever as 48h antecedentes à prisão de Lula nos lembra os famosos fluxos de consciência utilizados por autoras como Virginia Woolf e Clarice Lispector… a caneta corre, os pensamentos fluem, contradições e embates explodem nas páginas e quando nos damos conta esquecemos de estarmos diante de um fato recente e lá estamos novamente passando nervoso e se emocionando com aquela prisão que ainda deve servir de base para muitos estudos jurídicos.


Da Lava Jato à Ditadura


O referencial histórico utilizado por Morais para dar início a história de Lula é justificado com maestria quando o autor faz a liga entre a prisão de Lula pelo Lava Jato com o cárcere que o ex-presidente foi submetido em 1980, na ditadura, por liderar aquela que, até hoje, é considerada uma das maiores greves da classe trabalhadora no Brasil.


Nesta virada nada cronológica Fernando Morais está interessado, além de contar qual será o papel de Lula na reorganização do movimento sindical e na fundação do Partido dos Trabalhadores, em nos mostrar que, desde que optara por adentrar à vida política e partidária, o ex-presidente é transformado, como num virar de páginas, em inimigo número 1 da elite brasileira.


Os detentores do poder e dos meios de produção – estrangeiro e nacional – se questionavam: se do chão de fábrica ele consegue parar a produção de um país como o Brasil, o que não poderá fazer quando estiver organizado em um partido organizado por trabalhadores? A história mostraria à elite brasileira que o seu temor fazia todo sentido: algumas décadas depois Lula se tornaria o presidente do Brasil e deixaria o Palácio do Planalto com 80% de aprovação.

Em 2010 Lula empossa Dilma e deixa o Planalto com 80% de aprovação/Foto: EBC


“Eu não gosto de política e de políticos”


Para além das questões gerais da obra, cabe destacar dois pontos presentes na biografia de Lula: um deles se trata do momento histórico em que Lula se dá conta de que, sem representação política direta – ou seja, parlamentares oriundos da classe trabalhadora ocupando a Câmara, eles passariam o resto da vida tendo de negociar e de lidar com a boa vontade de aliados.


Tal fato parece irrisório, mas não é, pois, em sua primeira etapa como militante ativo no sindicalismo brasileiro, Lula, apesar de tímido em um primeiro momento, sabia que tinha facilidades para negociações, mas, sempre fugia dos assédios do Partido Comunista do Brasil (PCB) que o queria em suas fileiras e por mais de uma vez chegou a afirmar que não gostava de política e de políticos.

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Enquanto Lula se afirmava como personagem refratário às organizações político-partidárias, a imprensa e os patrões tinham a certeza de ter um aliado ao seu lado e até o tratavam com certa benevolência na cobertura jornalística.
Porém, quando a chave de Lula vira e ele entende que, sem trabalhadores eleitos, o mundo do trabalho e a situação da classe trabalhadora dificilmente avançaria, ele passa a trabalhar incansavelmente primeiro pela fundação do PT e, posteriormente, da Centra Única dos Trabalhadores (CUT), hoje é uma das maiores do mundo.


Esse fato destacado por Morais na obra é de suma importância e também nos ajuda a entender a capilaridade do PT e porque ele se tornou um dos maiores e mais importantes partido de esquerda do mundo: a sua raiz de partido-movimento, modelo que até hoje serve de inspiração para agrupamentos políticos no mundo inteiro.

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Lula queria um partido feito pelas mãos da classe trabalhadora, mas compreendeu que ela também estava presente na intelectualidade, nas artes, nos trabalhos não formais e nos milhares de coletivos políticos que já se formavam à época dos tempos finais da ditadura.


Não à toa o PT e posteriormente, os governos de Lula (2002-10) e Dilma Rousseff (2010-16) foram pioneiros em inaugurar políticas de Estado destinadas às mulheres, [email protected], LGBT e povos originários.


Este fato seria lembrado por Lula na abertura da I Conferência Nacional LGBT, em 2008, quando revelou à plateia que tinha brigado com boa parte de sua base sindical e religiosa para abrir tal evento, pois, fora alertado de que perderia votos e apoio na Câmara. Disse então que, se não pudesse estar ali, sua trajetória política não faria sentido algum e exortou a hipocrisia para fora do mundo político.

Lula na abertura da I Conferência LGBT/Foto: ABGLT

O encontro com Fidel: destino selado

Em 1982, com a liberação da eleição direta para governadores, Lula se torna o candidato do PT ao governo do estado São Paulo e, conforme a campanha avançava, os seus comícios se tornavam cada vez mais apinhados de apoiadores, o então candidato ao Palácio dos Bandeirantes nutria a certeza de que seria eleito.


Porém, conforme o apoio popular à sua candidatura crescia, também cresciam as mentiras (hoje chamadas de Fakw News) plantada por seus adversários e também por parte da imprensa.

Cartaz da campanha de Lula para governador de SP/Foto: Memorial da Democracia


Aliás, como diria o velho Marx, “a história se repete como farsa”: em 1982, a exemplo da Lava Jato, Lula foi acusado por seus adversários de ter uma mansão no Guarujá. O fato: ter passado um fim de semana na cada do deputado Airton Soares.


A fake news do século passado surtiu efeito: Lula ficou em 3º lugar com 12,2%, atrás de Reinaldo que teve 26,5% e de Montoro, que foi eleito governador de SP com 44,8% dos votos.


Essa derrota quase tirou Lula da política, pois, como ele mesmo revela no livro, “doeu muito”.


Mas, em 1985, em uma viagem a Cuba, quando encontraria pela primeira vez Fidel Castro, levou um pito do revolucionário cubano, que se tornaria um grande amigo seu, e que o transformaria em presidente do Brasil:


“Escuta, Lula: desde que a humanidade inventou o voto, inventou as eleições, nenhum trabalhador… repito, nenhum trabalhador, nenhum operário, em nenhum lugar do mundo… recebeu um milhão de votos, como aconteceu com você. Se permite a opinião de alguém mais velho e mais experiente, ouça o meu o que estou dizendo: você não tem o direito de abandonar a política. Você não tem o direito de fazer isso com a classe trabalhadora”, disse Fidel a Lula.


Lula nunca mais abandonaria a vida política e partidária, e se tornaria, algumas décadas depois o primeiro presidente do Brasil oriundo da classe trabalhadora.

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Marcelo Hailer

Jornalista (USJ), mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e doutor em Ciências Socais (PUC-SP). Professor convidado do Cogeae/PUC e pesquisador do Núcleo Inanna de Pesquisas sobre Sexualidades, Feminismos, Gêneros e Diferenças (NIP-PUC-SP). É autor do livro “A construção da heternormatividade em personagens gays na televenovela” (Novas Edições Acadêmicas) e um dos autores de “O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente” (AnnaBlume).