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22 de junho de 2015, 15h55

Lula: “O PT era em 1980 o que é o Podemos hoje”

Em discurso histórico na conferência “Novos desafios da democracia”, ex-presidente relembrou a construção do Partido dos Trabalhadores e clamou pela necessidade de mudanças na legenda.

Em discurso histórico na conferência “Novos desafios da democracia”, ex-presidente relembrou a construção do Partido dos Trabalhadores e clamou pela necessidade de mudanças na legenda

Por Jornal GGN

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um discurso histórico na Conferência “Novos desafios da democracia”, realizada pelo Instituto Lula, com a participação do ex-presidente do Governo da Espanha, Felipe González. Na ocasião, Lula relembrou a construção do PT, em 1980 e, com duras críticas ao governo, clamou pela necessidade de mudanças. “Hoje, o momento é de cansaço”, resumiu em breve histórico das democracias pelo mundo.

Leia a transcrição dos principais pontos do discurso de Lula:

A presença de Felipe González é um momento para repensar nossas ideias.

Durante muito tempo nos trancamos na nossa verdade e assistimos à esquerda europeia ir definhando. No dissabor de 1980 e poucos, tivemos que assistir a primeira mudança de nome do Partido Comunista. De lá para cá mudaram de nome várias vezes e continuam caindo.

Fizemos uma reunião com o Podemos (Partido na Espanha) e outros para saber o que está acontecendo lá fora e aqui, criamos uma convivência com quase todas as forças de esquerda da Europa nos últimos 35 anos. Convidamos companheiro Felipe González, uma das cabeças mais arejadas para o debate político que precisávamos, no sentido de fazer repensar a esquerda e até o que fazer quando chegarmos ao poder.

Enquanto é oposição é muito fácil ser democrata, porque você só pensa, só acha e só acredita. Quando chega ao governo, não pode mais pensar, achar e acreditar, tem que fazer. E fazer significa tomar posições, escolher políticas, acolher alguns setores e jogar para fora outros.

E um jovem do Levante me pergunta, coisa que tenho tentado falar, mas falar com velho não tem muita ressonância: não existe possibilidade de mudar as coisas no Brasil se quem quer mudar não entra na política.

Quando eu e meus companheiros quisemos mudar, criamos um partido, uma Central e fizemos greve e criamos o mais importante partido de esquerda da América Latina. O PT era em 1980 o que é o Podemos hoje.

O partido político cresce, elege prefeitos, vereadores, deputados e, quando acontece isso, entramos na roda gigante da política. Muitas vezes, ao invés de mudar a política vai se adequando à política. Escolha a pessoa mais radical que quiser, coloque dentro do Congresso Nacional. Daqui a pouco, ela está sentada ao lado da extrema direita como se fossem amigos. É próprio da democracia.

O PT é o mais glorioso exemplo da convivência democrática na diversidade.

Juntamos de tudo o que possa imaginar, de tudo um pouco, e estabelecemos uma convivência, um jeito de sobreviver à política e com 20 anos ganhamos a primeira eleição para presidente da República.

Tinha falado com Suárez [Adolfo Suárez, presidente da Espanha de 1976 a 1981], Zapatero [José Luis Rodríguez Zapatero, presidente da Espanha de 2004 a 2011], sobre necessidade de reconstruir utopias, para fazer a meninada sonhar ou aprender com eles a ter sonhos, que é possível melhorar este mundo que vivemos.

Enquanto a gente, aqui, maravilhada com a primavera Árabe no Egito. Depois elegeram o Morsi [presidente islamita Mohammed Morsi], e derrubaram Morsi. E quem está governando? Os militares.

A morte do Kadafi [regime ditador Muammar Kadafi] foi daquelas coisas que não tem explicação para a democracia. A Líbia estava quieta, não incomodava ninguém. De repente, resolveram transformar em inimigo da humanidade e criaram algo mil vezes pior do que existia antes. E ninguém responde por essa decisão.

O Iraque tinha Saddam Hussein. Para mim, nunca criou problema. A gente acreditava nas mentiras dele. Quando os americanos inventaram que era preciso invadir o Iraque, para a caça ao terrorismo, a democracia nunca correu tanto risco quanto agora, porque pessoas insensatas tomaram atitudes insensatas e o mundo vai ficando mais difícil.

O Brasil, país em que a gente exercita a democracia e meu maior legado em 8 anos, foi o exercício da democracia que praticamos. Nunca antes na história do Brasil, o povo exerceu a democracia e participou das decisões quando assumimos o poder.

Eu fui acusado de assembleísmo, de fazer muito discurso. Foram 74 conferências nacionais para decidir todas as políticas públicas.

Hoje, o momento é de cansaço.

Da mesma forma que vejo a esquerda europeia com uma dificuldade imensa de discutir a migração. Em 1985, dei declaração para o jornal dizendo que não era possível trabalhador chegar ao poder pelo voto. Em 1989 tive quase 47% no segundo turno. Ai comecei a acreditar.

A partir desse crescimento criamos o Foro de São Paulo, com a ideia de criar a esquerda latino-americana para defender a democracia.

A Republica Dominicana tem 19 partidos diferentes. Na Argentina, nem o Maradona unificaria a esquerda. Somente a democracia poderia permitir que eu chegasse à presidência da República. Somente a democracia garante que um índio como Evo Morales governaria a
Bolívia.

No Brasil reclamamos muito da mídia. Aqui, a oposição é a imprensa. Em alguns jornais, fazem oposição pelo editorial. Aqui, pela informação.

Ao invés de brigar com isso, melhor saber utilizar a Internet, brigar nas redes sociais. Ficar pedindo que eles concedam a nós o direito de dar entrevista? Vamos buscar alternativa, fazer comunicação.

Aqui a regulação da mídia é de 1962, no tempo em que ligar do Rio Grande do Sul para Brasília demorava 6 horas. Não tinha nem fax. Agora, na era da Internet, da TV digital, não temos regulação. Toda vez que fala em regulação da mídia, bordoada para todo lado.

Aqui no Brasil até direito de resposta não existe mais.

O PT perdeu um pouco a utopia. Como a gente acreditava nos sonhos… Nós chorávamos na mesa. Hoje a gente só pensa em cargo, emprego, em ser eleito, ninguém trabalha mais de graça.

Antigamente, esse partido qualquer coisa colocava 2 mil pessoas na rua com a bandeira do partido. Hoje se os candidatos não liberarem assessores do gabinete, não tem.

Vícios de partido que cresceu e chegou ao poder. O PT precisa construir nova utopia.

Estive em reunião com grupos de católicos da periferia. Todos ajudaram a criar o PT em 1980. Agora perguntam: como podemos falar em renovação se não tem um novo aqui? O PT tinha maioria com menos de 30 anos de idade, e precisa urgentemente voltar a falar para a juventude.

Está na hora de revolução interna no PT, colocando gente nova.Queremos salvar a nossa pele e os novos cargos ou o nosso projeto?

Precisamos criar um novo projeto de organização partidária nesse país. A política está terceirizada. O cidadão que é eleito é eleito para negociar em nome do seu país.

Na Europa, tirou o direito de fazer política monetária dos países e deixou apenas o direito de se fazer política fiscal. Esse coitado da Grécia… O ajuste proposto fez com que dívida líquida e
bruta crescesse. Só na Alemanha caiu. Em todos os demais cresceu, e depois do ajuste.

Só para concluir, em 1982 o companheiro Felipe González me recebeu em Moncloa [distrito da cidade espanhola de Madrid], eu e o Marco Aurélio [Marco Aurélio Garcia, coordenou o Programa de Governo de Lula em 1994, 1998 e 2006], e fez a seguinte pergunta:

– Lula, como é que você está pensando na sua convivência com as Forças Armadas?
Respondi: Vou democratizar as Forças Armadas.
– Como vai fazer?, me perguntou
– A partir da escola militar, vamos fazer jovem chegar a general sendo democrata.
Ele me questionou: Mas para jovem chegar a general demora 40 anos. Seu mandato só vai ter 4. Como vai resolver?

Eu resolvi, chamei um amigo meu, que tinha alguém das Forças Armadas e disse: eu sou presidente, eu não conheço ninguém [das Forças Armadas], eu quero montar meu Estado Maior.

– Presidente, você não quer ter problemas? É o seguinte, escolha o primeiro da fila. Eles estão aguardando há 40 anos na fila, deixa a fila andar que não vai ter incômodo.

Foi assim que eu aprendi a escolher os generais. E eu ainda não teria meu general democrático, quem sabe daqui uns 30 anos vamos ter um. Foi a lição que González me deu.

Foto de capa: Instituto Lula


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