“Manifestação de ordem política não cabe nesse momento”, diz comandante da PM da Bahia após morte de soldado

Por outro lado, representante de entidade de policiais e bombeiros da Bahia afirmou que o Wesley Góes tomou para si “uma revolta de todos” contra o lockdown e sinalizou uso político da ação com possibilidade de motim

De acordo com o comandante-geral da Polícia Militar da Bahia, Paulo Coutinho, a operação de contenção do soldado Wesley Góes, que foi morto após efetuar disparos contra guarnições da PM, foi “necessária”.

Durante coletiva realizada na manhã desta segunda-feira (29), o comandante rebateu críticas que recebeu de alguns políticos de que a operação tinha sido conduzida de maneira “desproporcional” e afirmou que os policiais envolvidos só efetuaram disparos quando tiveram suas vidas colocadas em risco pela ação do soldado Wesley.

“Enquanto os disparos não estavam oferecendo riscos para a tropa e para as pessoas que circulavam, protegemos a integridade do soldado. Sempre temos esse cuidado, temos expertise de atender ocorrência dessa natureza. Foram utilizadas outras alternativas, porém ele estava com uma arma de grande poder de letalidade e em determinado momento todos os recursos de isolamento e proteção foram esgotados”, disse o comandante.

Paulo Coutinho também explicou que atitudes como a do soldado envolvem vários fatores que agora serão investigados. “Ocorrências críticas possuem muitas motivações e só podem ser esclarecidas após a abertura do processo investigativo. Mas ali foi um típico caso de um indivíduo que estava passando por um transtorno mental e estava desconectado da realidade. As imagens falam por si só”, analisou.

O comandante descartou a possibilidade de uma paralisação da PM. “Temos que deixar bem claro que a PM é bem maior do que isso. Estamos com o alto comando da corporação em funcionamento para servir e proteger o cidadão. Qualquer manifestação de ordem política não cabe nesse momento”, disse Coutinho.

Policiais realizam ato em Salvador

O diretor da Associação dos Policiais e Bombeiros de seus Familiares do Estado da Bahia (Aspra), o policial militar Paulo dos Anjos, afirmou ao site Acorda Cidade que um ato está marcado para essa segunda e que a atitude do soldado Wesley “expressa toda a revolta da tropa e a indignação de como o estado da Bahia” trata os policiais.

Dos Anjos afirma que houve má vontade do Bope na negociação com o soldado. “Acompanhei uma outra operação que o Bope participou em janeiro, no dia 10, no bairro 7 de Abril, em Salvador, onde quatro traficantes invadiram uma casa, com metralhadoras, pistolas, deram tiros e não tinha refém. Não tinha ninguém no local e mesmo assim as negociações foram para preservar a vida daqueles indivíduos”.

O policial associou o ato de Wesley como uma revolta contra o lockdown. “Toma (Wesley) para si uma luta muito grande, se revolta com o lockdown com o toque de recolher, fazendo com que o pai de família feche o seu ganha pão, ele dá voz a maioria da tropa que está revoltada, que não concorda com isso. Mas, tem que cumprir ordens e então nós vamos fazer todos os esforços para que os responsáveis compareçam à justiça”, declarou o PM.

Bia Kicis e deputado bolsonarista incitam motim na PM após soldado em surto atirar e ser neutralizado na Bahia

Presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara Federal, Bia Kicis (PSL-DF), e o deputado estadual Soldado Prisco (PSC-BA) estão incitando um motim de policiais militares na Bahia após o soldado Wesley Soares Góes ser neutralizado por atirar contra o Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), no início da noite deste domingo (28), depois de 3h30 de negociação.

O soldado chegou ao Farol da Barra, tradicional ponto turístico de Salvador, às 14h com o próprio carro, fardado e armado com um fuzil e uma pistola. Em claro surto psicótico, o PM gritou “venham testemunhar a honra ou desonra do policial militar da Bahia” e iniciou disparos para o alto.

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Marcelo Hailer

Jornalista (USJ), mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e doutor em Ciências Socais (PUC-SP). Professor convidado do Cogeae/PUC e pesquisador do Núcleo Inanna de Pesquisas sobre Sexualidades, Feminismos, Gêneros e Diferenças (NIP-PUC-SP). É autor do livro “A construção da heternormatividade em personagens gays na televenovela” (Novas Edições Acadêmicas) e um dos autores de “O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente” (AnnaBlume).