Fórumcast, o podcast da Fórum
10 de outubro de 2014, 18h34

Marinaleda: a cidade espanhola onde as pessoas vêm antes do lucro

Marinaleda é mais do que um experimento coletivo e uma “utopia socialista”, é uma maneira alternativa de vida nascida da necessidade

Por Jen Wilton e Liam Barrington-Bush, em Contributoria | Reproduzido em New Internationalist | Tradução: Vinicius Gomes

Ao sul da Espanha, a rua é uma sala de estar coletiva. Vibrantes cafés nas calçadas se alternam em configurações de duas a três cadeiras preguiçosas, onde vizinhos se juntam para conversar até tarde da noite sobre os acontecimentos do dia. No meio de junho, quando a temperatura atinge picos de 40°C, enquanto a hora do jantar se aproxima, o cheiro fresco de frutos do mar saindo das cozinhas e restaurantes flutua pelo ar. A cena é o estereótipo espanhol, particularmente da região da Andaluzia no sul do país, onde a vida é vivida mais em público do que no privado.

marinaleda mapa nyt

(NYTimes)

Especificamente, a imagem acima descreve Marinaleda. Inicialmente indistinguível de diversas outras cidades das montanhas do Sierra Sur – se não fossem pelos reveladores sinais que ela traz. Talvez sejam os nomes das ruas (Ernesto Che Guevera, Solidariedade e Praça Salvador Allende, para nomear algumas); talvez seja o grafite (martelo e foices desenhados à mão, compartilhando um muro com um círculo e um “A” dentro – indiferentes às diferenças entre as duas ideologias), talvez seja o sobrado com o rosto de Che que estampa a parede exterior do estádio local.

Marinaleda tem sido chamada de a “utopia comunista” da Espanha, apesar de a variação local ter pouca semelhança ao modelo soviético mais associado com a frase. Classificações à parte, essa é uma cidade cuja fábrica social foi tecida de várias tranças econômicas diferentes ao resto do país desde a queda da ditadura de Franco em meados da década de 1970.

Uma fábrica de óleo de oliva que trabalha como cooperativa, casas construídas pela e para a comunidade e a famosa pilhagem de um supermercado famoso, liderada pelo carismático prefeito com os espólios sendo doados para bancos de alimentos, estão entre os passos que ajudaram a colocar Marinaleda como uma luz de esperança. Enquanto a economia espanhola continua em sua queda pós-2008, o desemprego nacional em 26%, enquanto metade da população jovem não encontra trabalho, Marinaleda mantém um modesto, mas estável quadro de empregabilidade onde a maioria das pessoas tem algum trabalho, e os que não tem contam com uma forte rede de segurança que os protege.

Mas mais do que dinheiro, Marinaleda possui uma moeda de troca raramente encontrada fora de pequenos grupos ativistas ou comunidades indígenas lutando contra projetos de desenvolvimento destrutivos: essa é a ação direta. Ao invés de contarem exclusivamente com o dinheiro para fazer as coisas acontecerem, os marinaleños colocam todos juntos seu sangue, suor e lágrima para criarem um sem número de sistemas alternativos em seu canto do mundo.

Quando o dinheiro não esteve prontamente disponível – provavelmente a única constância na história desde que a comunidade passou a trilhar esse caminho – os marinaleños contaram uns com os outros para fazer o que precisava ser feito. Muitas vezes isso significou ocupar as terras da aristocracia da Andaluzia e coloca-las para servir à cidade, outras vezes significou simplesmente dividir o trabalho de coletar o lixo das ruas.

Ainda que opere com certo grau de autoridade central, o conselho local devolve o poder àqueles que devem ser servidos. Assembleias gerais são convocadas regularmente para que as pessoas da cidade possam estar envolvidas nas decisões que afetam suas vidas. Tais reuniões também criam espaços onde as pessoas podem se organizar a fim de realizar ações coletivas para o bem da comunidade.

“A melhor coisa que se tem em Marinaleda e não pode ser encontrado em outros lugares, é a assembleia geral”, diz Manuel Gutierrez Daneri, um funcionário público veterano. “A assembleia é o local para as pessoas discutirem problemas e acharem soluções”, continua ele, apontando que até mesmo pequenos crimes têm uma resposta decidida coletivamente na assembleia, uma vez que a cidade não possui um sistema jurídico e nem polícia, desde que o último policial se aposentou.

Em sua gestão como prefeito, Juan Manuel Sánchez Gordillo, conseguiu negociar um considerável apoio financeiro do governo estadual, uma conquista que Daneri atribui ao histórico de ação direta e coletiva da cidade: “Se você segue em frente com todas as pessoas te apoiando por trás, isso é algo muito poderoso”, afirma. Como resultado, a pequena cidade conta com enormes instalações esportivas e um belo jardim botânico, assim como diversos outros serviços para necessidades básicas. “Para um pequeno vilarejo como esse, com cerca de 2.700 pessoas, nós temos muitas instalações”, diz Daneri.

O britânico Chris Burke vive em Marinaleda há anos, e ele explica que o acesso à piscina pública custa apenas três euros, durante todo o verão. Burke se lembra quando o prefeito Gordillo lhe disse “A principal ideia de ter um lugar bom para se viver é que qualquer um pode pagar para se divertir”.

Da ocupação à cooperação

Em 1979, Sánchez Gordillo foi eleito pela primeira vez como prefeito da cidade. Ele liderou uma longa campanha para mudar o curso de Marinaleda, que teve início com greves de fome e a ocupação de terras não utilizadas. Manuel Martin Fernandez esteve envolvido com la lucha desde o começo. Ele explica como através do processo de assembleias gerais, a comunidade decidiu que algo precisava ser feito para conter o fluxo migratório que deixava a cidade.

Eles começaram longas semanas de ocupação próxima a um reservatório para convencer o overno regional a alocar para eles uma quantidade suficiente de água para que irrigassem uma porção de terras. Após isso ter se mostrado um sucesso, eles prosseguiram então à ocupação de 1.200 hectares de uma terra recentemente irrigada, que à época era de propriedade de uma família aristocrática. Em 1991, o lote de terra foi oficialmente expropriado e entregue aos locais. “Levou 12 anos para obtermos a terra”, conta Fernandez, chamando sua vitória de“conquista”.

Hoje, longos campos de olivas, alcachofras, feijões e pimentões, formam a espinha dorsal da econômica local. A terra é gerenciada coletivamente pela cooperativa El Humoso e uma fábrica de conservas foi montada nos limites da cidade. “Nosso objetivo não era gerar lucros, mas criar empregos”, disse o prefeito Gordillo ao autor britânico Dan Hancox, explicando o porquê de a cidade ter escolhido priorizar o trabalho intensivo de colheitas para criar mais empregos para a comunidade local.

Como a maioria dos empregos ligados à agricultura, seja nos campos ou nas fábricas, o trabalho em Marinaleda é tanto sazonal, como variado ano a ano. Mas diferente de muitas pequenas cidades agrícolas, Marinaleda distribuiu o trabalho entre aqueles que precisam.

Dolores Valderrama Martin viveu em Marinaleda desde sempre e ela tem trabalhado na fábrica de conservas pelos últimos 14 anos. De seu escritório no segundo andar, ela explica que se 200 pessoas estão procurando trabalho, mas eles precisam apenas de 40 funcionários, eles contratam a todos e os divide: “Nós reunimos todas essas pessoas e montamos grupos de 30 a 40 pessoas, e cada grupo trabalha por dois dias”. Enquanto a cooperativa é formada por 9 entidades diferentes, Martin diz que eles decidem de maneira conjunta assuntos importantes, como a alocação de trabalho. Eles até podem até mesmo levar o tópico à assembleia geral para uma maior contribuição da cidade. Mas ela também afirma que “quando não há trabalho, eles ficam desempregados, como em qualquer outro lugar”.

A maior parte da cidade recente a relativa falta de trabalho, mas a enorme rede de segurança social construída sob os princípios da ação direta e da ajuda mútua, significam que, diferente de outras partes do país, dois meses de salário podem manter alguém tranquilo por boa parte do ano.

No centro disso tudo, está o enfoque da cidade quanto à habitação, que fornece um dos mais claros exemplos de como esforço coletivo pode preencher o vácuo deixado por uma economia estagnada.

As casas que a comunidade construiu

Quando muitos jovens pensam em fazer sua primeira tentativa em morar sozinhos, o dinheiro é, inevitavelmente, o maior obstáculo. Colocando a situação econômica de lado, o dinheiro de entrada é sempre uma soma considerável, até mesmo em mercados relativamente calmos, e está cada vez mais inatingível para o que foi descrito como a “geração rejeitada”.

Mas no topo da lista de decisões ousadas tomadas pelo prefeito Gordillho, a combinação de habitação com subsídio para materiais de construção, liberdade para construir e terra dada pela cidade, a habitação foi parcialmente removida do livre mercado em Marinaleda. Ao invés disso, os membros da comunidade se juntam com planos arquitetônicos providenciados pelo conselho para construir quarteirões de casa, sem qualquer perspectiva inicial a respeito de qual casa pertencerá a qual família.

As cerca de 350 casas construídas, com mais vinte à caminho, se tornam parte de uma cooperativa habitacional. Desnecessário dizer que, uma vez que os cidadãos têm de pagar apenas 15 euros por mês, se tem um resultado massivo de inscrições para o emprego.

A economia de ação direta

Enquanto o capitalismo caracteriza nossos relacionamentos como uma série de transações econômicas com interesses próprios, Marinaleda conta com um modelo de ajuda mútua, ao passo que os locais trabalham juntos para satisfazerem suas iguais necessidades, com muito menos dinheiro circulando. Uma vez que pode ser fácil se esquecer, o dinheiro é apenas uma maneira simples de facilitar a ação, que cria um incentivo para as pessoas realizarem uma ação que de outra maneira elas não teriam nenhum interesse em fazer. A ação direta, por outro lado, está baseada em interesses comuns e explora as praticidades do que é necessário fazer, baseado em quem está lá para fazê-lo. Elimina também a divisão provedor-consumidor, tornando o dinheiro um intermediário desnecessário.

Enquanto Marinaleda tem suas falhas, a cidade nos lembra que modelos alternativos de economia não são apenas possíveis, mas como já existem. Um grafite marcante na rua principal de Marinaleda retrata um sonho através da foice e martelo. A mensagem que acompanha a imagem implora a nós: “Agarre seus sonhos – a utopia é possível”.

Foto de Capa: Jen Winston


Você pode fazer o jornalismo da Fórum ser cada vez melhor

A Fórum nunca foi tão lida como atualmente. Ao mesmo tempo nunca publicou tanto conteúdo original e trabalhou com tantos colaboradores e colunistas. Ou seja, nossos recordes mensais de audiência são frutos de um enorme esforço para fazer um jornalismo posicionado a favor dos direitos, da democracia e dos movimentos sociais, mas que não seja panfletário e de baixa qualidade. Prezamos nossa credibilidade. Mesmo com todo esse sucesso não estamos satisfeitos.

Queremos melhorar nossa qualidade editorial e alcançar cada vez mais gente. Para isso precisamos de um número maior de sócios, que é a forma que encontramos para bancar parte do nosso projeto. Sócios já recebem uma newsletter exclusiva todas as manhãs e em julho terão uma área exclusiva.

Fique sócio e faça parte desta caminhada para que ela se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie a Fórum