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31 de julho de 2019, 06h00

Milton Hatoum, o escritor da República, por Manoel Herzog

Milton é o escritor da República, o grande escritor da República, voz que se levanta contra o estado de coisas absurdo que vivemos, forte, mas não violenta, nesta nação que hoje reclama, pra sua redenção, a delicadeza de estilo de um grande mestre

Foto: YouTube

Embora a República, cotejada com a monarquia, seja considerada um avanço civilizatório, no Brasil ela significou o avanço da bestialidade. Deixamos um imperador humanista, um homem afeito às ciências e artes, Dom Pedro Segundo, pra ingressar nas águas republicanas através de um golpe militar, aliando a brutalidade das forças armadas à ganância dos empreendedores ruralistas da época. Na Literatura, os tempos do império contaram com figuras do porte de José de Alencar, fundador daquela que se pode chamar brasileira, e Machado de Assis, nosso maior autor. Não seria o caso de se dizer que escritores de aluguel, fazedores de média, venais, foram a tônica dos tempos republicanos – a Literatura é impiedosa com os torpes, quem escreve pra agradar poder tem o oblívio por único destino. Assim foram sepultados tantos autores de conveniência dos governos nefastos, deixando a posteridade aos verdadeiros escritores. Fato é, contudo, que a bananosa República tem pequenos oásis, distantes das fardas e próximos da sofisticação. Houve diversos “escritores da República”, portanto, e aqui uso o termo roubando uma ideia do Glauco Mattoso, que cunhou o termo “sonetista da República”.

Carlos Drummond de Andrade, nos áureos tempos de Juscelino Kubitschek (um dos oásis acima comentados) foi “poeta da República”. Tal status era referendado pelo fato de ele ser funcionário de carreira do Ministério da Cultura, então sob o comando de Gustavo Capanema. Também dos tempos de Juscelino podemos tirar escritores ditos oficiais, mas longe, muito longe de serem considerados chapa branca; é o caso de Autran Dourado, que escreveu o importante A Serviço Del Rei, obra em que narra a crônica do poder brasiliense nos primórdios da capital. Carlos Heitor Cony também mereceria o epíteto, biógrafo de Juscelino que foi, e jornalista de ponta, próximo ao círculo de comando da nação. Houve tempos em que poder e inteligência conviviam de maneira harmônica, portanto. Nos grises tempos ditatoriais do primeiro período (64/85) o escritor da República foi Jorge Amado. Consolidou-se como tal no regime de exceção, embora viesse sendo o cronista do poder político desde os tempos da ilegalidade do PCB com Getúlio Vargas. José Sarney, embora escritor e presidente, sabe-se lá por qual obra do acaso, jamais foi escritor da República. Dos tempos sombrios de Collor não consigo lembrar um escritor pra destacar; José Guilherme Merquior, embora homem de letras, não faz jus ao título. Embora o vaidoso FHC tentasse, com seus Diários da Presidência, retumbante fracasso editorial, ser um Llosa tupiniquim e escritor da República tucana (e reconheço que mesmo naquele caos neoliberal a inteligência era bem-vinda, ao contrário de hoje), este título jamais poderia ser tomado ao notável Márcio Souza, um ironista genial. Indubitavelmente Raduan Nassar foi o escritor da República nos tempos de governo de esquerda, último dos oásis que antecedeu a negra noite da alma brasileira, hoje vivenciada por nós todos.

Quem é o escritor da República nesta segunda ditadura bestiossaura? Arrisco o palpite: Milton Hatoum. Meu palpite é convalidado pela leitura do primeiro tomo da trilogia que está compondo, e que leva o título de A Noite da Espera. Romance de formação, traz mesclados fatos históricos recentes da própria formação da capital federal e da nação brasileira nos tempos dos militares, onde o protagonista, possível alterego, vivencia a solidão, longe da mãe, numa cidade inóspita depois de temporadas em Santos e Paris.

Autor não prolífico o tanto que exigiria seu talento, Hatoum produz ouriversaria, tem um trato flaubertiano com a palavra justa que demanda tempo. Embora ele próprio se confesse um discípulo de Flaubert, notei no romance uma nota fortemente proustiana, a nostalgia da madeleine materna.

É difícil se qualificar alguém o maior escritor brasileiro vivo quando se tem, vivíssimos, Raduan Nassar e Rubem Fonseca. Até pra se o qualificar de maior escritor amazonense vivo é encalacrado, pois Márcio Souza lá segue, soberbo. Se eu disser que Hatoum é o que mais me agrada, minto, pois meu gosto pessoal é escravo do estilo de Reinaldo Moraes. Mas Milton é o escritor da República, o grande escritor da República, voz que se levanta contra o estado de coisas absurdo que vivemos, forte, mas não violenta, nesta nação que hoje reclama, pra sua redenção, a delicadeza de estilo de um grande mestre. Aguardemos os próximos volumes da trilogia.

Foto: Divulgação

Serviço: A Noite da Espera, 2019, Editora Companhia das Letras, R$.42,90


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