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22 de outubro de 2011, 14h04

Mudar o mundo sem tomar o poder

Um outro mundo é possível sem antes tomar o poder do Estado? Esta é uma pergunta que vem sendo feita nos encontros do Fórum Social Mundial e deverá nos ocupar ainda mais nos próximos anos.

Por Moacir Gadotti

 

Um outro mundo é possível sem antes tomar o poder do Estado? Esta é uma pergunta que vem sendo feita nos encontros do Fórum Social Mundial e deverá nos ocupar ainda mais nos próximos anos.
Não se trata de um consenso no Fórum. Mesmo porque alguns entendem o Fórum mais como um espaço livre e auto-organizado dos movimentos sociais, enquanto outros desejam que ele vá além. Que se torne um ator político. Mas todos estamos de acordo no que se refere à necessidade e à possibilidade de construir outros mundos desde já. Não se trata de um ponto distante, um ponto de chegada, mas de um processo que já começou. É o que estamos fazendo agora, aqui, a cada instante, autonomamente, sem precisar tomar antes, de assalto, o poder do Estado.
Nesse sentido, a resposta à pergunta inicial é sim. Se precisamos construir esse outro mundo possível desde já, não podemos esperar primeiro tomar o poder.
Para essa discussão contribuiu muito o livro Como mudar o mundo sem tomar o poder, de John Holloway, da Universidade de Puebla (México), a partir de uma releitura do conceito de revolução de Marx.
Em 2004, conheci pessoalmente John Holloway e o convidei para discutir suas teses no Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, em janeiro de 2005. Foi esse o tema de um intenso debate que reuniu mais de 2 mil pessoas. Holloway iniciou o debate afirmando: “Estamos aqui para dizer ‘não’, para determinar nossas próprias vidas”. Ele atribuiu ao “impulso pela autodeterminação” a base para mudar o mundo sem tomar o poder, trabalhando nas “fissuras” da dominação capitalista.
Isso pode ser feito por todas as pessoas, no seu dia-a-dia, desde já, e não só pelas pessoas chamadas de “poderosas”. Fazer a revolução não é levar a conscientização às pessoas, mas dar voz a nossa própria rebeldia, a rebeldia que está em todas as pessoas “comuns”, como dizem os zapatistas. O “impulso” vai contra a representação. Ser representado é dizer “tome o meu lugar”, “fale em meu nome”. O Estado é uma forma particular de organização social, uma entre outras. Temos que ter nossa própria forma de autodeterminação.
O sujeito da mudança não é só uma classe ou uma multidão. São sujeitos todos aqueles e aquelas que não querem ser objetos.
O poder é uma capacidade, a capacidade de fazer. Nós somos capazes. “Nós” como sujeito crítico-revolucionário e não “eles”: a classe trabalhadora, os outros, o coletivo, os líderes, os heróis.
A questão é como transformar o movimento social em força política, desde já; como ter força política de mudar sem antes tomar o poder, sem esperar pela conquista do poder do Estado. E para essas questões, certamente, a obra de John Holloway abriu um enorme espaço de discussão. Por isso precisamos conhecê-la melhor.
Sem dúvida, esse é um momento especial em que se está resgatando a
força emancipadora e pedagógica de Marx, núcleo central de sua obra.
Não podemos mudar o mundo sem o poder de mudá-lo. Mas, para “ter o poder” não precisamos necessariamente tomar o poder do Estado. O Estado se constituiu numa forma de poder que não pode negar-se a si mesma. Atribui-se ao Estado uma autonomia de ação que, de fato, ele não tem. Ele é parte daquilo que deve ser mudado: o capitalismo.
A noção de poder em Holloway não é algo estruturalmente coercitivo e pertencente ao aparato do Estado, mas uma relação social da qual todos tomamos parte. E a conclusão é simples: se o poder é algo que vai muito além do aparato coercitivo do Estado e está diluído em toda a sociedade, então não é algo que possa ser “tomado”.
Todas essas discussões não só resgatam o papel da subjetividade na revolução como também recolocam o papel da educação popular na transformação social. Por isso devemos dar importância ao “grito dos excluídos”, dos “esfarrapados do mundo” (Paulo Freire), dos oprimidos, e às suas “explosões”, seus “eventos”, seus “festivais”, seus “carnavais”. Essas manifestações, tão freqüentes nos nossos Fóruns, mostram o quanto a luta é pedagógica, o quanto o movimento social é pedagógico.
O grito é, ao mesmo tempo, recusa, horror e esperança. Ele nos lembra o papel da pedagogia na revolução e na educação para a libertação.
No próximo número discutiremos a realização do V Fórum Mundial de Educação no contexto do VII FSM, em Nairóbi


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