sábado, 31 out 2020
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Na Bélgica, protestos contra o racismo miram estátuas de rei que causou genocídio no Congo

de Bruxelas (Bélgica)

Os protestos contra o racismo iniciados nos Estados Unidos se espalharam por diversos países, como Reino Unido, França, Portugal, Canadá, Austrália e Brasil, com grandes atos no último fim de semana.

Enquanto manifestantes na cidade britânica de Bristol derrubaram a estátua em homenagem ao traficante de escravos Edward Colston, na Bélgica, os protestos miraram as estátuas do rei Leopoldo II — um monarca cujo legado é a conquista brutal e o domínio tirânico da região da África que é atualmente a República Democrática do Congo.

Segundo historiadores, Leopoldo II causou a morte de 10 milhões de africanos. Ele fez um reinado de 44 anos, a maior parte no final do século 19, e o monumentos em sua homenagem trazem à tona o passado colonial belga, marcado por exploração, violência e crueldade com povos africanos.

A Fórum acompanhou os protestos contra o racismo e contra a violência policial na Bélgica, no último domingo (7). Os manifestantes se concentraram em estatuas de Leopoldo II em pelo menos três cidades.

Na Antuérpia, uma estátua foi incendiada. Em Ghent, o monarca em bronze foi pintado de vermelho e recebeu um capuz no rosto, com as palavras “não consigo respirar” — a frase dita por George Floyd ao ser assassinado por policiais brancos em Mineápolis, nos estado americano de Minnesota, em 25 de maio, dando início a onda de protestos pelo mundo.

Em Bruxelas, centenas de manifestantes cercaram uma estatua do rei na praça do Trono. Foram escritas palavras de ordem na base e outros escalaram o monumento, aos gritos de “assassino” e empunhando a bandeira do Congo. Quando alguns deles atearam fogo no pedestal, a polícia arremessou bombas de gás lacrimogêneo e spray de pimenta.

O ato na capital reuniu 10 mil pessoas no centro da cidade, de forma pacífica durante todo o período da tarde. Cerca de 90% usava máscara, mas a reportagem observou que o distanciamento entre os participantes ficou quase sempre abaixo do 1,5 metro recomendado pelo governo belga.

O movimento contra as estátuas de Leopoldo II, porém, não começou no último domingo. Desde o início do mês, na esteira dos protestos nos EUA, monumentos em homenagem ao monarca têm sido alvos de manifestantes em todo o país, com tinta vermelha, palavras de ordem e capuzes.

Há registros de ataques nas cidades de Tervuren, Halle e Oostende, além de outras intervenções na própria estátua da capital. Nenhuma delas chegou a ser derrubada como em Bristol, onde o tributo ao traficante de escravos foi parar no fundo de um rio, mas os protestos de domingo reforçaram a pressão junto às autoridades por uma retirada oficial.

Na sequencia das manifestações, uma petição online que pede a remoção de todas as estátuas de Leopoldo II no país, começando pela da praça do Trono, na capital, já tem mais de 65 mil assinaturas.

“Bruxelas tem 118 distritos representando quase 200 nacionalidades e, como capital da Bélgica e da Europa, esta estátua não tem lugar em Bruxelas ou na Bélgica”, diz trecho da petição dirigida à prefeitura da capital, sobre a imagem que fica a poucos metros do Parlamento Europeu.

A petição pede que essa primeira estátua seja removida até 30 de junho, para homenagear o 60º aniversário da independência do Congo.

Violência policial

No domingo, além da reação ao protesto na estátua, a polícia também atuou com mais violência quando um grupo quebrou vitrines nas ruas comerciais do bairro de Ixelles e jovens saquearam algumas lojas.

“Nós lamentamos o dano, mas não conhecemos essas pessoas e essa não é a mensagem que queríamos transmitir”, disse Stephanie Collingwoode Williams, porta-voz do coletivo Belgian Network for Black Lives (Rede Belga para Vidas Negras), que participa da organização dos atos. “Algumas dessas pessoas eram membros de um coletivo anarquista composto principalmente por brancos”, completou.

No entanto, Williams também condenou a reação da polícia belga. “Que uma demonstração contra a violência policial levaria a mais violência policial é algo que não podemos imaginar”, disse.

Ricardo Ribeiro
Ricardo Ribeiro
Correspondente da Fórum na Europa. Jornalista e pesquisador, é mestre em Jornalismo e Comunicação pela Universidade de Coimbra e doutorando em Política na Universidade de Edinburgh. Trabalhou na Folha de S.Paulo, Agora e UOL, entre 2008 e 2017, como repórter e editor.