Na publicidade pode, no legislativo não: Ódio e perseguição às mandatas negras e LGBT

“Espero que em algum momento a gente seja notícia pelo trabalho que fazemos e não só pela violência que sofremos”, diz Benny Briolly à Fórum

Há uma cena emblemática que abre o documentário “Indianara”, que acompanha o dia a dia da ativista trans que dá nome ao filme. Indianara e companheiras de luta estão enterrando uma amiga, após o sepultamento, o enquadramento abre uma panorâmica para o cemitério e a protagonista afirma:

“Quem é hétero? Quem é lésbica? Quem é travesti? Quem é transexual? Quem é homem? Quem é mulher? Olha onde tudo termina. É tanta briga por identidade de gênero, por orientação sexual… e aí, cadê agora?”.

A estrutura de ódio resumida por Indianara ceifaria, em 2018, com rajadas de metralhadora a vida da vereadora bissexual, feminista, negra e “cria da Maré” Marielle Franco. Crime que segue sem solução, mas, que hoje, olhando perspectiva era o prenúncio da tragedia que esperava pelo Brasil.

Foto: Politize

No mesmo ano, o estado de São Paulo elegeria à Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) Erica Malunguinho (PSOL), a primeira mulher negra e trans à maior Casa legislativa da América Latina.

A eleição de Malunguinho é um marco simbólico e histórico no estado paulista, mas que não passaria incólume pela estrutura apontada por Indianara. Logo na primeira sessão legislativa a deputada seria ameaçada pelo parlamentar da extrema direita Douglas Garcia (PSL).

Foto: reprodução redes sociais

Apesar disso, dois anos depois as Câmaras Municipais de todas as regiões do Brasil elegeriam mandatas negras, feministas e LGBT, neste caso protagonizadas por transexuais e travestis oriundas dos movimentos populares.

Mas é claro que a estrutura de ódio que formata o Brasil tentaria/está tentando impedir o trabalho destas mandatas. Mas elas seguem. Seguem, mas são muitos casos de perseguição e ameaças políticas e o silêncio do Estado.

Samara Sosthenes, covereadora do Quilombo Periférico (PSOL-SP), em fevereiro deste ano, foi ameaçada de morte e a Câmara municipal negou segurança.

Carol Iara, coveradora do Mandato Feminista (PSOl) sofreu um atentado a tiros na porta de sua casa.

Erika Hilton, a primeira mulher negra e travesti eleita na cidade de São Paulo, foi ameaçada por um ativista evangélico em janeiro deste.

Foto: reprodução redes sociais

A vereadora Lins Roballo (PT-RS), da cidade de São Borja, tem sido perseguida e impedida de conduzir os trabalhos de seu mandato pela extrema direita da Câmara Municipal de sua cidade.

O vereador Renato Freitas (PT-PR) foi preso porque jogava basquete e escutava música com amigos em um parque. Cena clássica do racismo da estrutura policial e militar do Brasil.

E mais recentemente acompanhamos o caso da vereadora por Niterói (RJ), Benny Briolly, a mulher mais votada em sua cidade, que tem recebido sucessivas ameaças de morte e teve, inclusive, que deixar o país para não morrer.

Volte para o primeiro parágrafo e releia a explanação de Indianara. Essa matéria deveria ser sobre a ocupação das mandatas negras, feministas e LGBT ao redor do Brasil e o significado historico disso, mas, pelo menos por hora, é preciso noticiar as ameaças que se passam e que contam com a total leniência do Estado para proteger tais vidas.

“Eu fui eleita, sou a mulher mais votada da cidade, tenho um compromisso com as mais de 4 mil pessoas que confiaram em nosso projeto político e não vamos retroceder. Inclusive, espero que em algum momento a gente seja notícia pelo trabalho que fazemos e não só pela violência que sofremos”, disse Benny Briolly à Fórum, que hoje se encontra no Brasil com devidas medidas de segurança.

A seguir, você confere entrevista na integra com a vereadora Benny Briolly onde falamos sobre o que se passa hoje com o seu mandato, mas também com o contexto brasileiro e quais caminhos possíveis para superar a estrutura normativa e de ódio que, paradoxalmente, permite os corpos LGBT e negros na publicidade, mas não os aceita no legislativo.

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Fórum – Gostaria que você contasse para nós como está a sua situação hoje?

Benny Briolly – Continuo tocando minha mandata. Eu fui eleita, sou a mulher mais votada da cidade, tenho um compromisso com as mais de 4 mil pessoas que confiaram em nosso projeto político e não vamos retroceder. Inclusive, espero que em algum momento a gente seja notícia pelo trabalho que fazemos e não só pela violência que sofremos.

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Minha equipe segue firme, é a primeira a chegar e a última a sair da Câmara. Somos o segundo mandato com mais iniciativas legislativas no primeiro trimestre.

Agora temos medidas de segurança já aplicadas no meu cotidiano, mas que não garantem a minha proteção completa. Os diálogos permanecem e vamos continuar lutando junto ao Programa de Defensores e Defensoras dos Direitos. Mas ao mesmo tempo, me sinto firme, forte com a força de minhas ancestrais que vieram antes de mim encarando esse sistema genocida.

Fórum – Ao redor do Brasil temos mandatos negros, LGBTs e feministas sendo ameaçados e perseguidos por grupos da extrema direita. Na sua avaliação, por que isso está acontecendo?

Benny Briolly – A violência política que estou sofrendo não é de hoje e nem é um evento isolado. Tem sido recorrente contra parlamentares negras e travestis. O Brasil é o país que mais mata pessoas trans. Nossos corpos sempre foram alvos, antes dos anos citados. A lógica patriarcal e racista de desumanização dos nossos corpos é muito covarde e se mostra cada vez mais incomodada com nosso projeto político e a nossa presença nas casas legislativas. A execução de Marielle Franco é o caso mais extremo dessa violência. Além disso, a falta de justiça sobre a execução da Marielle nos deixa mais inseguras. Seguimos sem respostas e a violência política avança.

Fórum – Também acompanhamos a leniência do Estado para garantir segurança aos parlamentares ameaçados. Considera que o Estado é partícipe e cúmplice dessas ameaças?

Benny Briolly – Saí do país pela omissão do Estado diante das ameaças. O Estado ainda tem muito que avançar na prática da democracia. Vivemos em um país que não superou o processo de escravização. Temos marcas desse período até hoje e a mobilidade social de pessoas negras é afetada cotidianamente.

Fórum – Acredita que dentro do modo de produção capitalista é possível superar estes dispositivos de ódio?

Benny Briolly – A renovação do quadro político brasileiro tem sido protagonizada por mulheres negras, trans, faveladas e defensoras dos direitos humanos. Existe uma pluralidade de corpos que exigem ações transformadoras na sociedade e tem articulado estratégias para combater as desigualdades. Nossa presença na política pretende não só mudar o protagonismo político, mas também direcionar as pautas sociais. No entanto, a superação de fato se dá pela reconstrução da sociedade fora dos moldes capitalistas, que se estrutura a partir destes dispositivos de ódio.

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Marcelo Hailer

Jornalista (USJ), mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e doutor em Ciências Socais (PUC-SP). Professor convidado do Cogeae/PUC e pesquisador do Núcleo Inanna de Pesquisas sobre Sexualidades, Feminismos, Gêneros e Diferenças (NIP-PUC-SP). É autor do livro “A construção da heternormatividade em personagens gays na televenovela” (Novas Edições Acadêmicas) e um dos autores de “O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente” (AnnaBlume).

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