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08 de fevereiro de 2012, 19h14

“Não existe cidade justa num país injusto”

Ricardo Carlos Gaspar, doutor em Ciências Sociais e professor do departamento de Economia da PUC-SP fala sobre o seu novo livro “A Cidade na Geografia Econômica Global”, editado pela Publisher Brasil, e que será lançado hoje, às 19h30, no bar Canto Madalena (rua Medeiros Albuquerque, 471. Vila Madalena, São Paulo). O trabalho faz uma análise crítica da urbanização contemporânea, onde os espaços da cidade se resumem apenas a garantir que a economia possa funcionar bem, deixando de lado as necessárias políticas urbanas (habitacionais, transporte, meio ambiente etc) e ampliando cada vez mais as desigualdades, a violência e as carências de infraestrutura tão necessárias para que as pessoas possam viver com qualidade.

Fórum – A cidade, hoje, é um espaço de desenvolvimento social ou econômico?
Ricardo Gaspar – É um espaço de desenvolvimento acima de tudo econômico. Porém, sua dinâmica e a natureza desse desenvolvimento estão estreitamente relacionados com a base social urbana em sentido amplo, o que inclui condições políticas, culturais e ambientais. Ou seja, quanto melhores as condições de vida em uma cidade, maiores serão as chances de se obter um crescimento mais abrangente e equilibrado.

Fórum – Sempre foi assim? Quando se deu essa inflexão para constituir a cidade como forma de privilegiar o capital?
Gaspar – Nem sempre foi assim. Com a ascensão da economia-mundo européia a partir dos séculos XIV e XV, a cidade – que sempre esteve ligada aos esquemas de poder temporal e espiritual – assumiu um protagonismo inédito no campo econômico, como expressão espacial da classe social emergente, a burguesia. Atualmente, a cidade continua a exercer esse protagonismo, mas o conteúdo da economia política é distinto (globalizado, com nova base tecnológica e com hegemonia da finança), o Estado incorpora novos papéis e sua base territorial é muito mais ampla.

Fórum – Mas é possível pensar numa cidade verdadeiramente global? Elas perderam as características intrínsecas de sua geografia e cultura únicas induzidas pela situação geográfica, características de seu povo, clima, etc.
Gaspar – No sentido estrito do termo, não há cidade global, pois cada espaço urbano expressa características até certo ponto não replicáveis em localidades situadas em regiões distintas, com outra história e cultura. Mas elementos comuns surgem e desaparecem. Hoje, a indústria de alta tecnologia e os serviços avançados constituem um alicerce comum que vincula grandes centros urbanos em distintas partes do mundo, as chamadas "cidades globais". São Paulo, com as especificidades típicas de nossa formação e de nosso país, pode se incluir entre elas.

Fórum – Podemos pensar numa urbanização feita para atender a todos os cidadãos? E como ficam as desigualdades extremas dentro de um mesmo território urbano como nas cidades brasileiras? Existe uma cidade ideal?
Gaspar – Podemos pensar numa urbanização distinta e numa cidade "ideal", desde que nosso pensamento e nossa ação incorporem outras escalas espaciais. Assim, não existe cidade justa num país injusto. E não pode existir, nos marcos da economia global contemporânea, plenas condições de desenvolvimento em um mundo caracterizado pela desigualdade. O que estou querendo dizer é que a cidade, por mais importante que se situe num mundo urbanizado como o nosso, e por mais relevantes que sejam suas políticas sociais, requer necessariamente ações situadas em esferas territoriais mais amplas, tanto no plano metropolitano, quanto nacional e global. Só com uma visão integrada e universalizante podemos pensar em saídas efetivas face aos problemas de nossa época, e na edificação de cidades mais humanas.


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