sábado, 24 out 2020
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Náutico faz mea culpa, assume passado racista e lança uniforme todo preto para “lutar pela igualdade”

Nova camiseta traz a frase “vidas negras importam”, em alusão ao movimento Black Lives Matter, e foi apresentada junto com um comunicado onde o presidente do clube admite que “reparar o passado não é possível, mas podemos corrigir o futuro”

Estes são tempos de reflexão sobre as marcas que o racismo deixou em nossas sociedades. A tendência é mais observada nos Estados Unidos, desde o brutal caso do assassinato de George Floyd, mas que também poderia acontecer no Brasil, que tem várias contas a acertar com o seu passado. E nesse sentido, chama a atenção uma iniciativa que surgiu no futebol de Pernambuco, nesta sexta-feira (18).

Partiu do Clube Náutico Capibaribe uma postura no mínimo digna: a entidade resolver fazer justamente isso que o Brasil não fez, acertou as contas com o seu passado e assumiu seu histórico racista.

Para corrigir esses erros, a agremiação lançou um novo uniforme todo preto, inclusive com o distintivo nessa cor, e com uma frase sobre o peito dizendo “vidas negras importam”, em alusão ao movimento antirracista estadunidense Black Lives Matter.

O presidente do clube, Edno Melo, explicou a decisão dizendo, em entrevista para a Folha de Pernambuco, que “o Náutico tem uma das mais belas histórias do futebol brasileiro. É claro que existem erros e, como não se muda o passado, quem faz o presente pode reconhecê-los. Porque a história continua sendo escrita. Reparar não é possível? Podemos corrigir. O Náutico é alvirrubro, mas também de todas as cores, raças, gêneros e crenças. Que o futebol nos ajude a lutar por um mundo melhor”.

Melo assegura que a mudança não é somente uma jogada de marketing, e conta que o clube também disponibilizará meios para denúncia de casos de racismo, através de um aplicativo e até do site oficial, e que os casos serão julgados pelo Comitê de Ética, podendo resultar até na expulsão do acusado do quadro de sócios.

Histórico racista

Apesar de ser o mais antigo dos clubes grandes do Recife, o Náutico foi o último a aceitar jogadores, negros: a agremiação nasceu em 1901, mas a primeira vez que teve um atleta negro em seu elenco foi em 1960. Não foi injusto, portanto, que nesses 59 anos de proibição, o clube ganhasse o apelido de “clube dos brancos”.

Nos Anos 70, o Náutico chegou a contratar o jamaicano Alan Cole, mas o jogador foi obrigado a cortar seu cabelo estilo “black power” – o treinador da época, João Avelino, disse que, caso contrário, ele só disputaria amistosos.

No comunicado em que reconhece os erros do passado, o Náutico também admite manifestações racistas da sua torcida em provocações contra rivais do Santa Cruz e do Sport Recife, às vezes inclusive imitando som de macaco.

Victor Farinelli
Victor Farinelli
Jornalista formado pela Universidade Católica de Santos, há 15 anos é correspondente na Argentina (2004 e 2005) e no Chile (desde 2006).