“Nos governos Lula e Dilma muitas plantas vieram pra cá, principalmente carros de luxo”, diz Secretário Geral da CUT

João Cayres alerta para o fato de que outras montadoras podem seguir o mesmo caminho da Ford e que o mercado brasileiro está se tornando “desinteressante” para o setor automobilístico

Em entrevista ao Fórum Café, João Cayres, que já foi Secretário Geral e internacional da Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT (CNM/CUT) e, atualmente, é Secretário Geral da Central Única dos trabalhadores (CUT), comentou sobre o encerramento da produção de veículos da Ford no Brasil e chamou a atenção para o fato de que outras montadoras podem seguir o mesmo caminho.

“O que está acontecendo? Nós temos quase 50% de ociosidade e há muitas montadoras no Brasil. As montadoras de luxo estão fechando, a Mercedes fechou agora; nós estamos preocupados com a BMW em Santa Catarina; tem a LandRover no Rio de Janeiro, tem também lá a Peugeot Citroën, tem um polo na região de Resende (RJ) que também pode fechar. A Land Rover está diminuindo mercado, a Audi/ Volkswagen também pode fechar. Isso é um mau sinal: começa a mostrar que o país não é interessante para o setor automotivo”, disse.

Cayres também fez uma comparação do atual momento do Brasil com a época dos governos Lula (2002-2010) e Dilma (2010-2016) e afirmou que as gestões petistas conseguiram algo inédito que foi atrair o mercado de carros de luxo.

“Nos governos Lula e Dilma muitas plantas vieram pra cá, principalmente carros de luxo, nós nunca tivemos revenda Porsche no Brasil e passou a ter. O Brasil quebrado que o Bolsonaro fala tinha revenda Porsche, Lamborghini e tudo mais. A população rica tinha acesso a um tipo de coisa que não tinha. Mas é como o Olívio Dutra falou: as empresas ficam no país independente de incentivo fiscal. O incentivo pode ajudar? Pode, mas se não tiver mercado interno o incentivo não vai bancar”, analisou.

O ex-secretário geral da CNM também revelou que foi com muita surpresa que eles receberam o anúncio do encerramento da produção de automóveis da Ford. “Muita surpresa. Até porque recentemente nós tivemos uma reunião com a direção mundial da Ford e em nenhum momento ela chegou a falar isso”.

Cayres, que também foi funcionário da Ford, que eles não tinham a “perspectiva de fechamento da planta de Camaçari (BA)” e que, se fosse anunciado o fechamento da planta de Taubaté (SP), até faria sentido, pois, “sem a planta de São Bernardo do Campo não justificava a planta de motores aqui (em São Paulo)”.

O secretário geral da CUT também afirmou que “nenhuma empresa fora do eixo sudeste se sustenta, infelizmente, porque ainda não tem um grande mercado consumidor de veículo no Centro-Oeste, no Norte e Nordeste sem incentivos fiscais. A própria Ford falou: sem incentivos fiscais a planta de Camaçari é inviável”.

De acordo com Cayres, a logística para se transportar carros do Norte para o Nordeste, por exemplo, é extremamente cara, por isso a necessidade de inventivos fiscais.

João Cayres também ressaltou a falta de interesse e articulação do governo Bolsonaro para tentar manter a planta da Ford no Brasil. “Isso também é uma total desarticulação do governo brasileiro que pouco se importou com o fechamento da planta de São Bernardo, ele atrapalhou na verdade. Havia uma discussão com o BNDES, era um investimento muito grande e o governo federal acabou não ajudando. Havia interesse de grandes empresas chinesas, porém, veio a pandemia e desgraçou tudo. Por isso é muito interessante esse interesse do governador (da Bahia) Rui Costa (PT) de ir procurar os chineses, pois a plantada da Bahia é moderna, feita em um nível só e com o ferramental todo novo”.

De acordo com o Cayres cerca de 10 mil postos de trabalho devem ser perdidos com o fim da produção de automóveis da Ford. Esse número pode ser maior, pois, há toda uma cadeia de produção que dependia diretamente do processo de produção da empresa.


Confira abaixo a conversa na íntegra com João Cayres:

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Marcelo Hailer

Jornalista (USJ), mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e doutor em Ciências Socais (PUC-SP). Professor convidado do Cogeae/PUC e pesquisador do Núcleo Inanna de Pesquisas sobre Sexualidades, Feminismos, Gêneros e Diferenças (NIP-PUC-SP). É autor do livro “A construção da heternormatividade em personagens gays na televenovela” (Novas Edições Acadêmicas) e um dos autores de “O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente” (AnnaBlume).

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