O avanço do “identitarismo” e a revolução silenciosa e barulhenta no voto da esquerda

Há uma parcela razoável de pessoas de esquerda que está se sentindo ameaçada e que acha que este movimento é despolitizado. Como se a politização se desse a partir de cartilhas formais e debate acadêmico

A palavra identitarismo não dá conta de fazer entender o que é o movimento por direitos e representação de segmentos invisibilizados que cresce no Brasil. É uma palavra até certo ponto, inclusive, preconceituosa. Transforma o movimento feminista, negro, trans, favelado etc. em algo guetizado. Aqui e acolá até há dentro desses movimentos gente que só luta por suas identidades. Mas é a minoria.

Mas por que então você usou a expressão no título mesmo que entre aspas, senhor blogueiro? O fiz pra dialogar com a forma como esse movimento é conhecido e até pra poder explicar o quão reducionista acho a palavra.

E sigo então com o que de fato importa. A imensa vitória para cargos parlamentares daqueles que carregam bandeiras que não tinham espaço na política tradicional.

Pasmem, Jean Wyllys foi o primeiro deputado federal assumidamente gay da história do Brasil. E nesta eleição uma lista feita pelo repórter Marcelo Heiller, da Fórum, traz 44 candidaturas Lgbts eleitas.

Outro levantamento, realizado pelo site Gênero e Número revela que os negros ocuparão 44% das cadeiras nas câmaras municipais das capitais brasileiras a partir do próximo ano. E que as mulheres serão 18%  nessas mesmas capitais.

É uma revolução barulhenta mas ao mesmo tempo silenciosa que está acontecendo e que está mudando a cara da representação em especial dos partidos de esquerda. São eles que estão em geral abrigando essas candidaturas. E por isso também é neles que o debate sobre a forma como esta ocupação está se dando está mais intenso.

Há uma parcela razoável de pessoas de esquerda que está se sentindo ameaçada e que acha que este movimento é despolitizado. Como se a politização se desse a partir de cartilhas formais e debate acadêmico e não acontecesse também a partir da experiência de vida e da dor das injustiças.

Pois bem, este tipo de crítica também existia na década de 80 quando surgiram as primeiras lideranças parlamentares sindicalistas. Aqueles líderes, em geral homens, que vinham do chão de fábrica, eram considerados despreparados para representar a esquerda.

Então, não há novidade na resistência que se estabelece hoje com as mulheres negras, gays, trans, lésbicas e coletivos que tem representação interseccional. Ela faz parte deste preconceito estrutural das elites, que existe mais forte na direita, mas que também se encontra na esquerda.

Mas o rio vai em direção ao mar. E se tem algo que os partidos de esquerda deveriam debater com mais amplitude é isso. Como abrir mais espaços para esses movimentos em suas estruturas. E como  poderiam rejuvenescer sua forma de pensar e fazer política incluindo essas representações.

O PSOL até o momento é quem tem se conectado melhor com este universo. Outros partidos, como o PT e o PCdoB, estão tentando fazê-lo, mas ainda titubeiam. É preciso radicalizar. É preciso criar políticas para que esse movimento barulhento e ao mesmo tempo silencioso possa ocupar seu espaço de forma ainda mais forte em 2022. Porque o fascismo não vai ser derrotado no gogó e no discurso político apenas. Ele vai ser demolido quando gays, lésbicas, trans, negras, negros, deficientes físicos entre outros segmentos excluídos da política consigam assumir cada vez mais espaços. Porque o chão onde a gente pisa, também nos permite falar melhor sobra as injustiças que a gente vive.

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Renato Rovai

Jornalista, mestre em Comunicação pela ECA/USP e doutor pela UFABC. Mantém o Blog do Rovai. É editor da Fórum.